02/10/2008

E V O C A Ç Ã O

Jaime Caetano Braun
(foto: cedê Jaime Caetano Braun,
Acit Com. e Fonográfica Ltda.)

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Ouço a cambona que chia,
Golpeio mais um amargo
E volto pro sonho largo
Do campo e da fantasia.
E o meu verso se extravia,
Depois eu fico pensando
Que a guitarra bordoneando
Aqui junto do fogão
É o bater do coração
Do Tempo que vai rodando.

La maula! Que fica lindo
O murmúrio do arvoredo
E aquele meio segredo
Da estrela d’alva saindo,
Igual a uma flor se abrindo
Pro dia que vai nascer.
O índio pega a percorrer
De novo a estrada perdida
E as cousas boas da vida
Que quis e não pôde ser.

Eu não sou muito de igreja,
Vou nelas de longe em longe,
Muito embora seja um monge
Dessa liturgia andeja.
Deixo que Deus me proteja,
Ele é gaúcho, por certo,
Sempre o sinto muito perto
No bater das pulsações.
Quanto às minhas orações
As faço no campo aberto.

Prefiro a paz dos escampos,
Respingados de sereno,
Onde sou grande e pequeno
Na majestade dos campos,
Contemplando pirilampos
Que da grama se desprendem.
Quando as estrelas se acendem
Eu converso com as estrelas
Porque aprendi a compreendê-las
E elas também me compreendem.

Quanta emoção me domina
Ouvindo os sons matinais,
Ruídos que não ouço mais
Da minha terra divina.
Ora o berro da brasina
Velha, chamando o terneiro,
O rincho de um parelheiro,
Um quero-quero gritando,
Ora a sanga murmurando
Lá no fundo do potreiro.

Eu sigo olhando o brasedo,
Golpeando um amargo bueno,
E olhando longe o sereno
Se levantar do varzedo,
E a bulha do chinaredo
Com vaca mansa e tambeira,
O barulho da mangueira,
Grito, risada, rezinga,
E o tempo que choraminga
No santa-fé da cumeeira.

Diz bem o argentino Luna,
Guitarreiro e pajador
Que o patrão, Nosso Senhor,
Não nos deu maior fortuna
Do que esta hora turuna
Num galpão enfumaçado.
Ouvindo o berro do gado
Ronco de mate, relincho,
E o guitarrear de um pelincho
De bico recém pintado.

Dentro desse quadro imenso,
De tanto olhar o varzedo,
Tenho medo de ter medo
De pensar, e quando penso,
Imagino que o incenso
Que pelas várzeas flutua
Não é na neblina charrua
De um ritual inacabado:
É o hálito perfumado
De algum bocejo da lua.


Extraído do cedê
Troncos Missioneiros
USA Discos Produções Fonográficas Ltda.
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29/09/2008

Ó SINO DA MINHA ALDEIA

[88] - [1913]

Fernando Pessoa


Ó SINO da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.





Fernando Pessoa
Cancioneiro
in Fernando Pessoa,
Obra Poética,
página 149,
Companhia José Aguilar Editora (1974).
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27/09/2008

VERDES VERDURAS

Cruz e Souza



Neste fim-de-semana frio e úmido, comigo em minhas recônditas quietudes, adentrei nos domínios da poesia e encontrei uma excelente página de Literatura do professor Sérgius Gonzaga. Interessei-me pelo Simbolismo, sabedor, pois sou de Santa Catarina, de que um de seus mais conceituados representantes no Brasil é Cruz e Souza (na ilustração), um catarinense.

Segundo o professor Sérgius, os primeiros indícios do movimento encontram-se em Baudelaire, cuja obra máxima, As Flores do Mal, antecipa certas perspectivas simbolistas.

Mais: O Simbolismo surgiu não apenas como uma estética oposta à literatura (poesia, especificamente) objetiva, plástica e descritiva, mas como uma recusa a todos os valores ideológicos e existenciais da burguesia. Em vez da "belle époque" do capitalismo financeiro e industrial, do imperialismo que se adonava de boa parte do mundo, temos o marginalismo de Verlaine, o amoralismo de Rimbaud e a destruição da linguagem por Mallarmé.

O Simbolismo surgiu como Escola literária na França, no final do século XIX, como reação aos excessos do parnasianismo. Sua característica principal é uma visão subjetiva, simbólica e espiritual da realidade. Usa formas de expressão novas e a preocupação estética domina sua linguagem.

O professor Sérgius: O Simbolismo no Brasil é um movimento que ocorre à margem do sistema cultural dominante. Seu próprio desdobramento aponta para províncias de escassa ressonância: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. É como se o gosto dos poetas da escola por neve e névoas, outonos e longos crepúsculos exigisse regiões frias e nebulosas.

A livre associação faz coisas impensáveis! O fim de semana esteve frio e úmido e os simbolistas apreciavam neve e névoas, e regiões frias e nebulosas.

Já disse várias vezes aqui que aprecio o frio e a chuva, a névoa e a neve, desde que, obviamente, esteja bem agasalhado e protegido em casa, preferencialmente com uma lareira acesa e ouvindo, como ouviu Cruz e Souza,

“Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpia dos violões, vozes veladas
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas”.

Na minha divagação poética, deparando com essas condições geográficas tão importantes ao desenvolvimento do movimento, me descobri um simbolista retardado, digo, retardatário. A Musa baixou em mim, senti um estremecimento misterioso, e fiel aos princípios escolásticos pari os versos que seguem, prenhes de simbolismo e ao mesmo tempo um retrato de coisas recém ocorridas e inutilmente escondidas em até agora infrapartidárias cuecas:

VERDES VERDURAS

"Verdinhas veladas em vetustas vestes,
Volúpia dos vilões, verde ventura,
Viajam nos velhos vértices velados,
Vindas da venda de vívidas verduras".

Cruz e Souza, e os outros simbolistas, que me perdoem.





Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 19/07/2005.
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23/09/2008

AS COISAS

Jorge Luís Borges


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A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.



Jorge Luís Borges
elogio da sombra
Coleção Sagitário
Editora Globo
página 24.
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20/09/2008

DESARMADO MAS RICO!

VOU ENRIQUECER COM O DESARMAMENTO...







Como disse outro dia, a fortuna está sempre na minha frente mas não consigo alcançá-la. Agora surge uma perspectiva real de eu me tornar um ricaço, principalmente depois de pesquisa do IBOPE apurar que 81% dos brasileiros são a favor do desarmamento.

Em Iraí, minha primeira Comarca, às beiras do Rio do Mel, habita uma tribo de caicangues e com ela vou estabelecer as relações negociais que me deixarão milionário.

Vou entrar com a idéia e convencer o cacique – no meu tempo era o Sebastião – a montar uma fábrica de bodoques de alta precisão, com flechas dotadas de mecanismo automático de direcionamento. Algumas terão pontas de aço e outras, mais eficazes, um mini-coquetel molotov na ponta.

Coquetel molotov não entra na proibição legal, desde que usado para defesa. Querem um exemplo? Em 28/01/2005, durante o Fórum Social Mundial, foram presos aqui em Porto Alegre 43 punks com “trinta coquetéis molotov prontos, cerca de 250 gramas de pólvora, explosivos caseiros e bastões sinalizadores”. Alegaram que o arsenal seria utilizado “para se defender dos ataques feitos com freqüência por skinheads” e foram liberados. Alguma dúvida?

É certo que na época foi atirado um coquetel molotov no Bank of Boston, na Av. Praia de Belas, próximo ao acampamento do Fórum, e houve outro ataque a uma agência do Banrisul. Esses fatos, de legítima defesa contra a ameaça capitalista, só confirmam o caráter autodefensivo da arma (se os punks portassem revólveres seriam presos em flagrante por delito inafiançável).

Estou pensando, até, em desenvolver com o Sebastião, ou com seu sucessor, um arco de repetição, o que facilitaria muito o uso. Um arco-metralha!

A proibição de vender armas de fogo vai ser aprovada. Mas os bandidos continuarão armados e nós, para nos defender, teremos que nos armar, de um jeito ou de outro. Atirar facas exige treino, dedicação e esforço. Não tenho condições de fazer tanto exercício por questões de saúde. Um arco de repetição é a solução ideal.

Claro que vamos aprimorá-lo para que ele tenha dimensões mínimas e aproveitamento máximo. Talvez com mecânica semelhante – mas não igual – à de uma balestra. Como esta já existe e há fabricantes no mundo inteiro eu não conseguiria enriquecer se me limitasse a copiá-la. Poderia até sofrer um processo por contrafação.

Penso, também, em fabricar coquetéis molotovs de bolso para defesa pessoal. Será um produto mais artesanal e vou vendê-los no camelódromo em que se transformou o centro de Porto Alegre.

Deixarei alguns estrategicamente colocados em minha casa e uns dois ou três no carro. Para defesa pessoal, repito. Sei. Enfrentar um bandido armado de revólver ou fuzil com uma garrafa combustível é algo meio primário e comunista, mas como juiz aposentado não posso dar mau exemplo. Tenho que cumprir as leis.

Se um coquetel molotov é considerado um instrumento legal de defesa e um revólver não, vamos nos adaptar. Talvez algum dia tenhamos que nos defender de agressores que posem de bandidos sem ser bandidos.

Aceito sócios para a fábrica de arcos. Se você se interessar deixe um comentário, digite o código secreto "EQSS" e informe seu e-mail. Entrarei em contato informando o número de minha conta bancária para depósito. Será um negócio absolutamente transparente e não será preciso usar malas ou cuecas.

Malas, só depois, para transportar o dinheiro que você ganhar. Afinal, estou lhe oferecendo a oportunidade ímpar de enriquecer comigo. Seu investimento proporcionará lucros consideráveis. Vamos entrar no círculo restrito dos colunáveis, passar uma temporada no Castelo de Caras, aparecer na revista, comer caviar e viver sem se preocupar com o passado.

Por isto não aceito depósito inferior a R$ 50.000,00.





Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 21/07/2005.
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MEGALOMANIA PATRIÓTICA

SONHOS DE UM MEGALÔMANO, MAS PARA O BEM DA PÁTRIA...



Às vezes tenho a sensação de que me está reservada, ainda, apesar da idade e da aposentadoria, a realização de grandes feitos para a humanidade ou, pelo menos, para o Brasil.

Vejam a minha idéia de abrir uma fábrica de arco e flechas de repetição, que publiquei neste blog no dia 21/07 (Vou Enriquecer com o Desarmamento!), que nos permitirá a defesa contra os bandidos face à previsível proibição do comércio de armas e munições. Ela vai me enriquecer e a todos aqueles que tiverem a ousadia de se associar no empreendimento.

Mas estive pensando, porque para montar esse tipo de empresa é preciso cautela e análise redobradas, e meu pensamento solertemente desviou-se para uma possibilidade inicialmente não prevista: minha humilde e aparentemente simplória fábrica poderá provocar a emergência do Brasil como potência mundial, mas isto vai demorar ainda; ninguém conquista o mundo da noite para o dia.

É preciso, também, um pouco de pessimismo, artigo difícil de se encontrar hoje no mercado social mundial porque passamos pelo melhor período da História Universal, como já disse outro dia ao Túlio. Não são detalhes como a Guerra do Iraque, o conflito árabe-israelense, os atentados terroristas em Londres e na Chechênia, a loucura explicita de presidentes como o da Coréia do Norte e, mais aqui perto, a degringolada do PT, a guerra entre traficantes e a violência diuturna que vão acabar com essa sensação de segurança, paz e tranqüilidade.

Por isto, apesar de tudo, temos que ser inicialmente pessimistas para chegarmos ao status de uma grande potência.

Primeiro, temos repor a Direita no poder. Com isto desviaremos a atenção dos americanos. Com um governo de Esquerda, estamos sendo vigiados e isto, para os fins deste artigo, não é nada bom. Com a Direita no poder a grande potência do Norte se esquecerá de nós e quando emergir a terceira guerra mundial não lembrará que existimos e não jogará alguma bomba sobre nossas cabeças. Talvez até possa atingir grandes centros, como Rio, São Paulo, Belo Horizonte, mas a minha fábrica vai ser instalada em Iraí, bem no interior do Rio Grande do Sul, como já disse.

Isto será o começo de nossa dominação do mundo.

Um dia, após a II Guerra, explodidas Hiroshima e Nagasaki, perguntaram a Einstein como seria a terceira guerra mundial. A resposta foi mais ou menos assim: “a terceira eu não sei. Mas a quarta, seguramente, será com paus e pedras”.

Perceberam a nossa vantagem? As grandes potências de hoje aniquilarão umas às outras. Os meus arcos de repetição e minhas flechas com pontas de aço e coquetéis molotov estarão tão desenvolvidos e aperfeiçoados que não encontrarão similar no mundo.

Lamentavelmente teremos que guerrear, mas por pouco tempo. Venceremos logo graças à nossa supremacia de forças. Os inimigos, com paus e pedras, não serão páreo para os nossos sofisticadíssimos bodoques e nossa destreza em manejá-los. Venceremos a IV Guerra Mundial, conquistaremos outros países, dominaremos o mundo e implantaremos, impositiva mas democraticamente (algo assim como os americanos estão fazendo no Iraque), o nosso modo de vida e o nosso sistema de governo.

Só então não haverá mais guerra. A paz será verdadeira e abrangente, pois colocaremos administradores brasileiros para governar os países conquistados. Sempre fomos avessos a guerras e isto bastará para a paz duradoura e contínua.

A corrupção, uma de nossas características principais há muitas gerações, ao contrário do que parece, será benéfica. Nela estão agasalhadas as plenas condições de paz: os corruptos gostam de ganhar dinheiro fácil e por isto não são belicosos... No máximo ameaçam por telefone, mas, então, este ainda não terá sido reinventado.



Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 28/07/2005.
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18/09/2008

ESTRELAS

Alberto Lisboa Cohen


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Cada estrela que brilha é uma promessa,
um sinal de esperança e novo alento
para os que vivem pelo encantamento
de todo novo sonho a ser sonhado.
Aos olhos do menino que não cresce,
o amor que é tão velho não envelhece,

cometas enamoram-se de luas
e botos acasalam com sereias.
E a estrela da manhã quando aparece,

mais brilhante que todas as estrelas,
é como o olhar de Deus que reconhece

em cada um de nós a Sua criança,
em todos nós Sua imagem, semelhança.



Alberto Lisboa Cohen
caminhos de não chegar
Prêmio IAP de Literatura 2005
Instituto de Artes do Pará,
página 42.
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13/09/2008

À MINHA FILHA

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que está de aniversário hoje.

AO COMPANHEIRO FIDEL

Tens amigos e admiradores no Brasil e no mundo. Dizem que Chico Buarque é um deles. Não creio que ele gostasse de ter nascido em Cuba e vivido lá. Certamente não faria o sucesso que fez nem alcançaria a fortuna que adquiriu com seus próprios méritos, talento e esforço de compositor. Em Cuba os méritos são do Estado.

Os intelectuais que conheço – conheço é modo de dizer, pois não conheço, pessoalmente, nenhum – adoram Cuba, mas não moram lá. Há uns 70 na ilha que moram em cadeias e não creio que esse seja um bom lugar para eles.

Fernando Gabeira, um deputado federal de esquerda muito em voga ultimamente, esteve lá. É possível que goste de Cuba. Mas em 31 de março de 2003 (poderia haver data mais apropriada?) representou perante o Congresso condenando a prisão de 77 dissidentes cubanos e solicitando ao governo brasileiro gestões para a sua libertação (
aqui).

É cômodo se dizer simpatizante de uma realidade longínqua para parecer humanista mesmo que ela seja a representação lídima da desumanidade.

Dizem que a
medicina cubana é avançada. Mas eu não gostaria de morar lá com a minha fibrilação. Os equipamentos são tão ultrapassados quanto os carros que se vê nas ruas. Aliás, acho que os melhores mecânicos do mundo são os cubanos porque para manter rodando uma frota obsoleta e caindo aos pedaços como a de Cuba só com muita criatividade. A mão-de-obra de fundo de quintal exige esforço. Meu pai foi mecânico, a partir de 1950, quando tudo era artesanal. Lá, hoje, ainda deve ser assim. A culpa? A culpa é do boicote americano, claro. Cuspo na cara do meu vizinho, mas tenho o direito de exigir que ele me ajude se eu estiver em dificuldade.

Lá, os artistas, para sobreviver, devem fazer bicos, como engraxar sapatos.
Ibrahim Ferrer, que morreu dia 06, submeteu-se a isto. Já imaginaram o Chico como engraxate para poder viver um pouco mais condignamente? Ou o Milton Nascimento, o João Bosco, o ministro Gilberto Gil, o Caetano Veloso?

Quem viu o documentário Buena Vista Social Club se comoveu com aqueles velhinhos conformados e perdidos que o companheiro Fidel e sua reinvolução isolaram. Eles teriam enriquecido a cultura cubana com mais eficiência do que os projetos do ditador e, ao mesmo tempo, levariam uma vida menos penosa.

Ver um pianista como Rubén Gonzáles y Fontanillis alquebrado, com artrite (a medicina cubana, tão avançada, não lhe valeu) tocando num piano antigo, de parede, quando poderia se ter lançado no mundo como virtuose ou com melhores condições de desenvolver seu talento, é um crime contra a Cultura.

Com que direito o companheiro Fidel podou a vida de tantos artistas e intelectuais? Ele está acima do bem e do mal, dispõe de onisciência tal que tem o direito de dominar tudo o que se movimenta naquele paraíso infernal? Claro que sim.

Ele lesou artistas que apenas representavam o melhor da arte musical do país simpático que tornou seu quintal. É o senhor privilegiado de uma ilha que não precisou comprar. Ainda o pagam para ser dono dela e administrá-la tão mal e retrocessivamente.

Mas ele não conseguiu a chama da Eternidade.

Quando morreres, Deus te guarde, companheiro Fidel. Num lugarzinho especial, isolado e silencioso. Nem te desejo choro e ranger de dentes. Apenas o silêncio. O silêncio eterno e triste dos artistas que amordaçaste.




Publicada no blogue JUS SPERNIANDI,
em 25/08/2005.
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11/09/2008

O PEQUENO NADADOR

Carlos Saldanha Legendre





(a Antônio Augusto Fagundes)
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Era tão belo o filho (porque filho)
desde o nascer, quando o entronara ao peito.
Implume e frágil, se esbatera ao leito,
ó pássaro de brisas e junquilhos!

Talvez não fosse igual a outros filhos
porque só de esperanças fora feito.
Buscara o mar e o abismo de tal jeito,
mais parecia peixe com seus brilhos.

Mas era só humano e a luz tão pouca
ao fundo d'água... Deus, que força a fez
arrancá-lo do vórtice? Sem roupa,

trazendo-o contra o colo, em ânsia louca,
como o gerando por segunda vez,
a mãe lhe sopra vida pela boca.




Carlos Saldanha Legendre
Inventário do Canto,
(2.ª edição – revista e atualizada)
Cultura Contemporânea
Porto Alegre 2000

página 32.
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09/09/2008

IEDA

Ilton Carlos Dellandréa

Aquarela de
Ieda M. F. Dellandréa




Parceira,
parte,
partiu-se em duas
para ser não minha,
mas eu.

Não é,
não somos.
Eu sou – e não seu.

De mim mesmo ateu
creio no ela
que há em mim.

É mais que isto,
sou menos.
É tudo, inteira,
sou pequeno.

Agiganto-me nela,
reencarnação viva
vívida
vivaz
de quem não morreu.

Concomitante,
mesmo ausente
é a equação dominante
e presente.

Mais dizer não posso.
O resto,
o sumo,
o resumo,
o tudo
é nosso...


Ilton Carlos Dellandréa
Porto Alegre, 29/03/2000
A imagem ilustrativa é uma aquarela dela, Ieda.
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06/09/2008

TERROR UNIVERSITÁRIO

Deu no jornal Zero Hora de hoje (04/08/2005), página 3:

Ato de mau gosto. Cruzou a fronteira do grotesco – e da falta de educação – o que um trio de estudantes universitários fez durante a visita do reitor da Universidade Estadual Paulista à unidade da instituição em Franca, São Paulo. Durante o discurso, uma aluna colocou garrafas de urina na mesa do reitor, outro levou um balde e vomitou dentro. O terceiro... bem, colocou um jornal no chão, fez o que os leitores estão imaginando, embrulhou e colocou na mesa. O trio alegou que o ato era um “terrorismo poético”. Já a universidade registrou queixa e estuda qual a punição adequada.

Não contesto que tenha sido um ato de terrorismo. Cada um abraça a modalidade de terror que mais lhe agrada e convém. Tudo depende da crença e da coragem de cada um. Alguns, extremistas, atam explosivos ao corpo e se explodem matando inocentes em nome de uma causa que acreditam justa. Outros urinam, vomitam e defecam em público e muito provavelmente isso represente o limite de sua criatividade, de sua capacidade e de sua coragem.

Também não discuto o conteúdo artístico da manifestação. Depois de notícias de que uma
faxineira de museu jogou obra fora pensando ser lixo (era, na verdade, um saco de lixo implantado no museu Tate Britain, em Londres, pelo artista Gustav Metzger visando demonstrar a "existência finita" da arte); de que em 2001, uma faxineira na galeria londrina Eyestorm limpou a instalação do artista Damien Hirst achando que era uma pilha de lixo (garrafas de cerveja, copos de café e cinzeiros sujos representando o caos do estúdio de um artista); de que na década de 80, obra de Joseph Beuys, uma banheira suja, foi limpa por um funcionário de uma galeria na Alemanha; de que uma menina de oito anos foi louvada como escritora; de que o chimpanzé Congo teve três das telas abstratas que pintou arrematadas em Londres por US$ 26 mil, nada que provém do mundo da arte me surpreende.

Até porque, gosto não se discute, como dizia a velhinha solitária, de 90 anos, que vivia no meio do mato e se alimentava exatamente daquilo que o terceiro universitário embrulhou no jornal.

Também entendo perfeitamente, e com muito mais vigor, o conteúdo político do ato.

Universitários são seres sempre muito politizados (ou pelo menos acreditam que o são).

Então eles apenas exercitaram aquilo que farão mais tarde na vida, pois é possível visualizar em seu comportamento, com bastante nitidez, um teor em grande parte político-partidário.

Certamente eles serão candidatos a algum cargo, poderão incluir esse ato em seus currículos, e estarão preparados para dominar a cena política do futuro.

Igualzinho ao que muitos políticos estão fazendo hoje.




Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 04/08/2005.
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SAINT-EXUPÉRY E OS HOMENS

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Antoine de Saint-Exupéry




Mais coisas sobre nós mesmos nos ensina a terra que todos os livros. Porque nos oferece resistência. Ao se medir com um obstáculo o homem aprende a se co­nhecer; para superá-lo, entretanto, ele precisa de fer­ramenta. Uma plaina, uma charrua. O camponês, em sua labuta, vai arrancando lentamente alguns segredos à natureza; e a verdade que ele obtém é universal. As­sim o avião, ferramenta das linhas aéreas, envolve o homem em todos os velhos problemas.

Trago sempre nos olhos a imagem de minha pri­meira noite de vôo, na Argentina — uma noite escura onde apenas cintilavam, como estrelas, pequenas luzes perdidas na planície.

Cada uma dessas luzes marcava, no oceano da escuridão, o milagre de uma consciência. Sob aquele teto alguém lia, ou meditava, ou fazia confidências. Naquela outra casa alguém sondava o espaço ou se consumia em cálculos sobre a nebulosa de Andrômeda. Mais além seria, talvez, a hora do amor. De longe em longe bri­lhavam esses fogos no campo, como que pedindo sus­tento. Até os mais discretos: o do poeta, o do professor, o do carpinteiro. Mas entre essas estrelas vivas, tantas janelas fechadas, tantas estrelas extintas, tantos homens adormecidos. . .

É preciso a gente tentar se reunir. É preciso a gente fazer um esforço para se comunicar com algu­mas dessas luzes que brilham, de longe em longe, ao longo da planura.




Antoine de Saint-Exupéry
(Do livro Terra dos Homens)
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02/09/2008

SONETO DE VÉSPERA

Vinicius de Moraes











Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?

Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?

Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou — fria de vida

Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida...

Oxford, 1939


Vinicius de Moraes
Poemas, Sonetos e Baladas
Companhia das Letras, 2008,
página 81.
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30/08/2008

FOCINHEIRAS MENTAIS

Ilton Carlos Dellandréa



Eu não tenho nenhum animal de estimação vivo. Nem morto. Só nas pinturas da Ieda.

Mas, do jeito que as coisas vão, serei obrigado a ter um. Porque a propaganda, subliminar ou direta, para que você tenha um cão (principalmente um cão) é tão insistente que prevejo que será considerado anormal quem não possuir um daqui a uns tempos.

Já vi reportagens dizendo que é fácil emagrecer simplesmente levando seu cachorro a passear. Uma balela. Se você caminhar, com ou sem cachorro, o efeito emagrecedor é o mesmo.

Parece que há gente interessada na proliferação de animais de estimação e não creio que sejam apenas mentes caridosas. E olha que já li, em alguma de minhas revistas antigas, que alguém estimar exageradamente um animal pode significar um desvio afetivo. Sem falar em matérias sobre doenças, algumas graves, transmissíveis por animais domésticos. Quando eu sentir vontade vou desencaixotar todas as minhas revistas velhas e conferir estas coisas.

Dia 10 de agosto o programa Tudo a Ver, da Record (que já foi bem melhor), mostrou um motel para cachorros, com quarto espelhado e cama especial. Duas dondocas levaram um cão e uma cadela e celebraram ali um casamento, ambos convenientemente trajados.

No final, a cama estava tomada por três ou quatro cachorros – o casal e os padrinhos – e deve ter rolado uma surubacão, pois os animais agem inteligentemente por instinto (por isto não têm noção de fidelidade) e não instintivamente por inteligência, como suas donas.

Uma reportagem da RBS TV do dia 11/08/2005, às 12,30 horas, referiu a existência de um projeto desenvolvido no Gabinete da Primeira-Dama do Estado que visa evitar a gravidez de adolescentes. Para isto, alunos de uma escola levam filhotes de cachorros ao colégio e cuidam deles simulando serem seus filhos para se conscientizarem do trabalho que dá.

Mais uma vez, se pega a conseqüência pela causa e temo que possa haver algum desencaminhamento por aí, que não vou referir para não influenciar ninguém. Para não ter filho é necessário ou não transar ou transar com segurança. Levar um cachorro no colo não vai impedir nada disto. E fazer de conta que um cachorro é um bebê, para essa finalidade, é alguma coisa absurda, para dizer o mínimo.

A reportagem mostrou a sala de aula: a professora ensinando, alunas com cãezinhos no colo, latidos de vez em quando. A câmera flagrou um mijando

tranqüilamente no chão...

Os mentores intelectuais dessas iniciativas devem se mirar no espelho e sentir-se verdadeiros gênios da criatividade. Eu, fumando um cachimbo imaginário, apenas questiono: que genialidade é essa que nos obriga a nos valer de animais para lembrar que somos humanos?





Publicada originalmente no blog JUS SPERNIANDI,
em 14/08/2005.
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26/08/2008

CANTIGA PARA NÃO MORRER

Ferreira Gullar


Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.




Ferreira Gullar
Toda Poesia (1950/1980)
[Dentro da Noite Veloz]
Círculo do Livro S/A,
Página 286.

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23/08/2008

CRISE DE IDENTIDADE

Ilton Carlos Dellandréa

Estou tão perdido que nem sei se posso me considerar normal. Parte dessa confusão é provocada exatamente pelo fato de me considerar normal sem saber ao certo o que isto significa. Vejo tantos normais dizendo tantas besteiras com tanta certeza – acho que estou parodiando Fernando Pessoa – que nem mais ao certo sei o que sou. Estou sentindo saudades do tempo do primário, em que eu era gordo, ruivo e sardento e motivo de gozação dos colegas mas tinha como reagir.

Se eu fosse mulher e o Iedo me batesse poderia recorrer a uma delegacias especializadas em atender mulheres agredidas pelo marido. Agora a lei é mais severa para eles do que era, por exemplo, ao tempo em que eu era juiz, quando preponderava o entendimento de que se o processo crime era fruto de briga do casal o papel do juiz era apaziguar. Caso verificasse, no final, a reconciliação, a política criminal sugeria a absolvição para não marcar negativamente o relacionamento. Hoje não. Hoje o cônjuge deve ser punido mesmo que haja reconciliação. Os dois devem conviver com a marca que ficou. Quer dizer, ambos são, de certa forma, condenados...

Se eu fosse mulher teria, ainda, direito a cota especial nas eleições... Bastaria me inscrever em um partido e pleitear inscrição como candidata com base nos 20% criados para elas.

Estou desconversando. Sou homem e não há uma Delegacia especial que me atenda em caso de uma agressão feminina. Ainda bem que faz tempo, uns 36 anos (a conheço há 35), que a Ieda não me bate. Não me surra, eu quiser dizer. Também perdi o gosto pela política e as cotas de reserva não me atraem.

Se eu fosse negro teria, também, se tudo der certo, alguma vantagem para ingresso na faculdade. O Ministério da Educação parece que vai impor cotas para ingresso de negros e índios nas faculdades mesmo que eles não se classifiquem tão bem quanto um branco. Não existe discriminação contra branco. Então, estão querendo introduzi-la no nosso sistema social.

Mas também não sou negro e já ultrapassei a fase de ingressar em faculdade. Meus filhos também. Então, isso daí de nada me aproveita. É uma vantagem da qual não posso usufruir.

Se eu fosse gay talvez pudesse gozar algum privilégio. Retirem, por favor, a conotação sexual do verbo gozar. Não foi isto que eu quis dizer. Eu quis dizer que os gays, hoje, têm, em alguns aspectos mais privilégios do que um... normal (?). Vocês viram o Jean Wyllys no BBB5? Bastou apregoar sua condição de gay, fazer um choramingo, e venceu levando a recompensa de R$ 500.000,00. Escreveu um livro que está entre os mais vendidos e de vez em quando aparece na tevê chateando a gente com sua afetação. Jimi Hendrix foi dispensado do Exército porque
fingiu ser gay...

Mas não sou gay. Minha predileção sexual sempre foi pelo sexo oposto. Tanto que casei com uma mulher.

O pior é que sou aposentado. Poderia ser pior? Não, porque a minha aposentadoria é por invalidez. Não tenho ainda 60 anos e por isto posso estar caindo aos pedaços numa fila de Banco que alguém com 60, mesmo saudável, pode passar na minha frente.

Os deficientes físicos têm lugares especiais para estacionar em certos locais. Às vezes, quando estou fibrilado, gostaria de ter a mesma facilidade. A fibrilação tolhe seus movimentos, você dá cinco passos e tem que descansar, fica tonto com facilidade mas é considerado, para fins de estacionamento, um... normal (?).

Nunca vi fantasmas nem anjos nem um único duende. Nem discos voadores. Nunca patrocinei um sopão para os pobres. Nada do que possam eventualmente falar ou praticar contra mim pode ser considerado politicamente incorreto (talvez este texto). Às vezes, assim como sou, me sinto mais discriminado do que um negro, do que um gay, do que uma mulher, do que um deficiente físico...

É nessas horas que fico perdido diante da realidade que me cerca. Sinto tristeza e ganas de consultar um psiquiatra e exigir um atestado de que sou normal (?). Para meu convencimento.




Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 09/08/2005.

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21/08/2008

A INEXORABILIDADE DO TEMPO

Ilton Carlos Dellandréa




Há muitas situações em que você sente que alguma coisa ocorreu (ou correu?) no seu tempo, digamos, de vida. Ou seja, que você está ficando velho. Alguns exemplos – certamente há mais – muito particulares:

Quando percebe que apresentadores, artistas, repórteres, cantores, enfim, a maioria daqueles que freqüentam a telinha, são mais novos que você. Lembra que há uns 30 anos todos eram mais velhos? O mesmo ocorre em outros setores da atividade humana. Se seu chefe, por exemplo, for mais jovem é sinal que você já caminhou um bocado...

Quando você completa quarenta anos e constata que, daí por diante, cada ano vivido será em década com final enta: cinqüenta, sessenta, setenta e, com boa sorte, oitenta e noventa. Cem é miragem. Inte e inta, nunca mais!

Quando tem que convencer os mais jovens de que, quando criança, você ganhava revólveres de brinquedo com espoleta para brincar de caubói e isto era considerado normal. Mais: convencê-los de que nenhum de seus amiguinhos da época virou bandido ou assaltante. E que você, apesar disso, é juiz esperando promoção para desembargador.

Quando você percebe que já tinha nascido quando o Brasil conquistou a primeira Copa do Mundo, ficou ansioso para que quatro anos passassem rápidos para curtir a seguinte e desde então foram jogadas 17 e agora você não tem nenhuma pressa de que chegue a próxima.

Quando você tem que esclarecer aos mais jovens que o cantor sertanejo Sérgio Reis fez parte da Jovem Guarda, com Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléa, Rosemary e outros de quem nunca ouviram falar nem você lembra mais, como Martinha e Os Vips.

Quando você se esmera preparando aquela viagem de férias e percebe que seus filhos não são mais crianças porque preferem ficar em casa e curtir a companhia dos amigos. Mas depois telefonam, às vezes de hora em hora, para saber como se cozinha um ovo ou como se acende o aquecedor a gás do banheiro que, aliás, é automático e não precisa ser ligado. O do ovo telefona depois reclamando que o mesmo está na água fervente há mais de meia hora e a casca ainda não amoleceu...

Quando você precisa convencer seus filhos de que na sua juventude havia domingueiras ou matinês dançantes, explicar que eram aos domingos à tarde, e eles acham um absurdo porque se dançava de dia. Pior: não consegue convencê-los porque está naquela idade em que os filhos não acreditam mais nos pais.

Quando você vê um Monza 2.0 parecido com o que teve há muito tempo e o acha feio, com linhas desgraciosas e retas, as lanterninhas traseiras quadradas e toscas, e lembra que quando adquiriu o seu ele era um carro lindíssimo e elegante, seu mais caro objeto de desejo.

Quando você participa de um encontro com antigos colegas de trabalho, como os do ex-CPD da Telesc, e observa que a maioria está grisalha e separada de seus cônjuges da época. Um deles, só porque você não embranqueceu, insiste em voz alta que você pinta os cabelos. Sem contar os que o chamam de tarado por viver ainda com a primeira mulher.

Quando você chega numa cidade pequena, como Taió, onde viveu trinta anos, percorre as ruas de carro e brinca de qual será o primeiro conhecido que vamos ver?, atravessa a cidade e não reconhece ninguém. Alguns rostos enrugados, velhos, com cabelos brancos, lhe parecem familiares mas você não lembra de quem são. Dá vontade de chorar!

Quando você repara, num aglomerado de pessoas, uma amiga que não via há mais ou menos vinte anos, vai cumprimentá-la, possivelmente abraçá-la, e descobre, surpreso e vexado, que, na verdade, se trata de uma filha dela.

Quando a casa em que mora, que você se queixava que sempre foi pequena demais, se torna imensa porque os filhos casaram, foram morar longe, deixando-a vazia, apenas com um casal de pais – sou bondoso comigo mesmo e não vou dizer de velhos – morando nela. Talvez esta seja a mais dolorosa de todas...
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18/08/2008

JORGE LUÍS BORGES

Jorge Luís Borges







New England, 1967


Mudaram as formas de meu sonho;
agora são laterais casas vermelhas
e o delicado bronze das folhas
e o casto inverno e o piedoso lenho.
Como no dia sétimo, a terra
é boa. Nos crepúsculos persiste
algo que quase não é, ousado e triste,
um antigo rumor de Bíblia e guerra.
Breve (nos dizem) chegará a neve
e América me espera em cada esquina,
mas sinto na tarde que declina
o hoje tão lento e o ontem tão breve.
Buenos Aires, eu sigo caminhando
por tuas esquinas, sem por que nem quando.


Cambridge, 1967


Jorge Luís Borges,
elogio das sombras/perfis
Editora Globo - Porto Alegre
página 11.
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13/08/2008

ORA ATÉ que enfim...

Fernando Pessoa
Álvaro de Campos


[523]

ORA ATÉ que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.

Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução,
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...


Fernando Pessoa
Ficções do Interlúdio — Álvaro de Campos
in Fernando Pessoa,
Obra Poética, página 410,
Companhia José Aguilar Editora (1974).
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09/08/2008

SOBRE MODA

A PROPÓSITO DA
SÃO PAULO FASHION WEEK DE 2005



Nunca entendi de moda, estou longe de ser um expert no assunto, mas uma coisa sempre me chamou a atenção: por que os chiques modelos desenhados por estilistas famosos não é usado nas ruas ou pelas mulheres, de qualquer classe social, nos eventos do dia a dia ou nos de noite a noite? Para que serve esse processo de criação de roupa descartável antes mesmo de ser usada?

Já me interessei por isto. Após ver noticiário sobre algum desses eventos fashion saía às ruas prestando atenção nos trajes das mulheres. Minhas pesquisas começaram em Florianópolis, quando era estudante. Nenhuma das minhas colegas de faculdade ou de serviço, ou as que usavam o ônibus da Bela Vista, usavam daqueles modelos.

Há algum tempo um estilista inventou um modelo conservador, se visto de frente: recatado, sem decote, abaixo do joelho, mangas três quartos. Mas atrás apresentava um corte oval na bunda das modelos, digo, na altura da bunda das modelos, que ficavam expostas. Percebi, naquele traje, um objetivo utilitário: a desnecessidade de as mulheres levantarem o vestido ou baixarem as saias ao usar o vaso sanitário. A moda não pegou. Deve ser porque as mulheres usam roupa para se vestir e não apenas na hora de ir ao banheiro.

Aqui em Porto Alegre nunca vi uma guria usando um vestido daqueles. Viajei, na época, para Salvador, Vila Velha, Florianópolis, Joinville. Em Taió perdi definitivamente a esperança de poder apreciar aquela moda. Mas continuo pesquisando.

As moças das portas das boates da Avenida Farrapos, em Porto Alegre, usam roupas parecidas, algumas de bom gosto: saias curtinhas, decotes generosos, botas altas... Já as que fazem ponto no Parque da Harmonia ou na rua Anita Garibaldi, mais polpudas, não têm o mesmo esmero. Mas nem umas nem outras usam esses modelitos desenhados e aplaudidos nos desfiles fashion.

Finalmente a luz. A Mônica Waldvogel me iluminou. Nada como o ensinamento de quem sabe e, como se sabe, os jornalistas sabem de tudo. De tudo um pouco, porque sua profissão assim o exige. É certo que às vezes dão mancadas, como da Marília Gabriela em 1982 (eu apreciava seu programa de entrevistas). Foi uma gafe imperdoável.

Ela transmitia a abertura ou encerramento da Copa do Mundo e anunciou que os três tenores iriam interpretar uma ária de... (ela gaguejou) Nabuco e Giuseppe Verdi, intitulada (e deu o nome da peça, que não lembro). Na verdade, era uma peça da ópera Nabucco, de Verdi, mas ela, que sempre demonstrou uma erudição profunda nos seus programas, não sabia disto. Fiquei decepcionado.

Não sou um profundo conhecedor de música erudita, mas até por ouvir bastante e ler livros a respeito, sei que o Tema de Lara, por exemplo, não foi composto por Mozart.

– Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! – como diria o Clodovil, me fazendo voltar ao assunto principal.

Segundo a revista Época de 04/07/2005, página 15, a Mônica Waldvogel explicou a moda de Alexandre Herchovitch para José Serra durante a São Paulo Fashion Week, assim:

– Prefeito, não é roupa de usar na rua. É para entender o conceito!

Meu Deus, nem eu desconfiava que era tão ignorante. Algo tão elementar e eu desconhecia: a roupa fashion é uma roupa conceitual...

Então tá. Obrigado, Mônica. Sou-lhe muito grato. Você me abriu horizontes. Vejo o mundo da moda com olhos complacentes e admirados. Finalmente entendi.

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Será que entendi mesmo?



Publicado no blog Jus Sperniandi,
em 04/07/2005.
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06/08/2008

ASSÉDIO

Alberto Cohen


A poesia espreita o solitário,
quieto no bar, num canto, pela rua,
reconhecível pelo mesmo olhar
dos que esperam sem encontro marcado.
É num arroubo que ela se oferece,
imprevisível, dona, dissoluta,
nas carícias rimadas e medidas
negaceia e se dá, jamais inteira.
Depois, sacode a vasta cabeleira,
recolhe pelo chão os seus mistérios,
e parte, insatisfeita como sempre,
atirando metáforas na cama.


Alberto Cohen
Poemas sem Dono
II Prêmio Literário Livraria Asabeça - 2003
página 17.

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02/08/2008

OIGALÊ, FRIO DESGRANIDO!

Brrrr! Como faz frio em Porto Alegre hoje. Está úmido, sopra um ventinho fraco mas não me atrevo a chamá-lo de brisa. A brisa é mais aconchegante e apropriada ao calor. Brisa gelada é um contra-senso. Definitivamente não combina. É vento, fraco no sopro mas forte no efeito enregelante. O céu está forrado e não vou estranhar se, de madrugada, ao espiar pela janela, ver flocos de neve.

Os gaudérios, charlando nos galpões do pampa afora, diriam que esse frio é de renguear cusco. Traduzindo: o frio é tão forte que faz até cachorro mancar. Charlar é jogar conversa fora nas rodas de chimarrão, ao redor de um fogo-de-chão.

Fogo-de-chão ou fogão é um grande fogo que se prende em lenha grossa no chão batido dos ranchos para preparar mate e churrasco e no inverno para aquecer a charla. Prender fogo é acender o fogo mesmo.

Os gaúchos modernos diriam, numa linguagem mais compreensível, que hoje está mais frio do que abraço de sogro.

Aureliano de Figueiredo Pinto, um poeta gaudério que em vários poemas aborda o frio, inicia um deles (Recuerdos de Tapejara, depois musicado por Noel Guarany) assim:

Já nem sei porque é que Deus
Tanto ao herege e ao fiel,
Nos manda um frio tão cruel,
Vento e neve em redoblona,
Que a perna velha quebrada
E esta costela emendada
Se param mais delicadas
Do que teclas de cordeona
.

Em seguida usa o verso que usei como título do post. Redoblona significa, aqui, ao mesmo tempo. O se param é se tornam e isto parece óbvio. Oigalê é uma interjeição que exprime admiração.

Li, há pouco, que o Jô Soares vai entrevistar Roberto Jefferson. Falta de imaginação! A atração – como sempre – vai ser o Jô. O Jefferson todo mundo sabe o que vai dizer.

Não posso deixar de relacionar a gargalhada que ele deu ao final de suas declarações à CPI dos Correios, ao narrar a origem de seu olho roxo, com o frio. Aquela gargalhada gélida até hoje ecoa pelos corredores e esquinas do Congresso e, dizem, até do Palácio da Alvorada. Ela retumba no peito de alguns parlamentares como a risada da bruxa malvada dos desenhos animados no coração temeroso das crianças.

Ouvi, agora, na Band, que uma brasileira está envolvida num esquema de fraude na Volkswagen, na Alemanha. Ela é amante de um dos diretores. Estamos exportando corrupção. Deve ser por isto que nosso PIB está aumentando...

Noutro poema sobre o frio (Aqui estou, senhor Inverno!), diz o mesmo poeta:

Sei que vens vindo... Não me amedrontas!
Fiz provisões de sábias quietudes
e de silêncios – que prevenido!
Vão-se-me os olhos nas folhas tontas
como simbólicos ataúdes
rolando ao nada do teu olvido
.

Estou assim hoje. Alternando poesia com política. Uma mistura que só é menos incongruente que eu. Deve ser o frio!

Mas já tomei minha decisão. Tenho uma televisão colocada num vão de parede exatamente sobre uma lareira. Já prendi fogo na lareira (acima). Vou ligar a televisão e, como sempre, ficar apreciando o fogo.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 05/07/2005.

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26/07/2008

INCURSÃO NO FUTEBOL

MÉXICO X ARGENTINA: A PLATÉIA FOI INTERESSANTE

Não sou fanático por futebol e tenho meus próprios critérios de torcedor ocasional. Já me flagrei, certa ocasião, torcendo contra o Brasil tamanha a debilidade do time adversário, se não me engano um africano. Não gosto de quem tripudia sobre a fraqueza alheia. Tenho uma espécie de compulsão que me leva a torcer pelo mais fraco.

Também não assisto a jogos. No máximo ligo a tevê e fico navegando, vendo os lances mais importantes, principalmente os replays. Os locutores, com seus berros insanos, servem pelo menos para chamar a atenção para isto.

Mas ontem, de ressaca após uma crise de fibrilação, por isto um tanto fraco e indisposto, resolvi me acomodar e ver o jogo entre México e Argentina, pela BandSports, o canal esportivo da Bandeirantes na DirecTV.

Primeiro, a satisfação de fugir ao padrão Globo de qualidade: a histrionice do Galvão Bueno, a insegurança do Cleber Machado, os comentários chatos do Casagrande (que às vezes se esganiça e parece o Barney, dos Flintstones), os atropelos do Falcão que parece desconhecer que na linguagem falada também se usa vírgulas e pontos na forma de pausas mais ou menos longas, o Arnaldo César Coelho defendendo o juiz que assinalou um pênalti inexistente porque, antes, marcara um contra o outro time, o que qualifica de coerência...

O locutor Sílvio Luiz esteve melhor que outras vezes. Suas tiradas estão meio gastas e seu chavões já cansam, mas num jogo de poucos gols, em que não é preciso ouvir a cantoria que então ele faz, até que dá para suportar. O comentarista, cujo nome não gravei, discreto e sem criações mirabolantes, foi muito eficiente. Coloca no chinelo qualquer um desses grandes que enchem o saco nos programas esportivos dominicais.

Mas o jogo foi interessante por outro motivo. Pela Argentina jogou um tal de Coloccini, n.º 16, que distribuía coices e manotaços e parecia um cavalo redomão de crinas mal aparadas. A certa altura agrediu um mexicano acertando-lhe o rosto com os punhos fechados, abrindo-lhe um dos supercílios e forçando sua substituição.

O juiz, um italiano (Roberto Rosetti) deveria tê-lo expulsado imediatamente. Mas, meio banana, aplicou-lhe apenas um cartão amarelo. Uma punição extremamente branda.

Então o público chamou para si a função punitiva. Cada vez que o Coloccini tocava na bola, uma vaia estrepitosa. O jogador foi se encolhendo, fugiu de jogadas importantes, não cometeu mais faltas, se livrava da bola de primeira e literalmente se apagou em campo. Acabou contribuindo para o gol do México, desviando a bola para os fundos de seu próprio gol.

Os espectadores tiveram a atuação mais influente do jogo e aplicaram a pena que o juiz covarde não teve discernimento de aplicar. A vaia foi uma punição eficientíssima.

Sinto muito que no universo social não há como aplicar esse mecanismo. Há magistrados – felizmente não todos – que interpretam a lei com excesso de benevolência e os bandidos, por isto, se sentem encorajados a reiterar atos criminosos, em detrimento de todos nós. Reunir bandidos em praça pública e vaiá-los é impossível. Nem surtiria resultado.

Pena que o Conselho Nacional de Justiça não vai resolver esse problema, que é institucional e depende de leis mais rígidas para ser resolvido. O caminho que se aponta é exatamente o inverso: o ministro da Justiça defende o abrandamento de certas penas porque os presídios estão superlotados.

Já que não podemos vaiar os bandidos em praça pública talvez devêssemos vaiar as autoridades que defendem esse estado de coisas. É mais fácil e viável e talvez dê resultado.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 27/06/2005.
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19/07/2008

POLTERGEIST - O FENÔMENO

O problema de você assistir a uma comédia é que perde a graça reassisti-la: as piadas e situações engraçadas já são conhecidas e tornam-se absolutamente comuns. É a melhor forma de se transformar uma comédia num drama.

Na minha adolescência, em Taió, eu ia ao cinema sempre que podia. Mas quando era comédia já saía rindo de casa porque sabia que o Lotário iria também. Ele gostava de comédias e quando achava alguma cena engraçada soltava sonoras gargalhadas que contagiavam todos os presentes. A gente achava graça de cenas que poderiam nem ser tão hilárias assim. Ele era mais engraçado que muitas cenas.

Tenho visto poucas comédias e nem que quisesse poderia contar com a participação estimulante do Lotário porque ele morreu, ainda jovem, se não me engano aqui no Rio Grande do Sul, quando trabalhava no Pólo Petroquímico.

Bem. Tudo isto para dizer que ontem revi Poltergeist, O Fenômeno, aquele aterrorizante filme, um dos primeiros do Spielberg, e tive a impressão de que assistia a uma comédia sem graça.

Esse é um dos males de se viver no Brasil. Nossa situação social e política é tão terrificante e sobrenatural que um filme de terror não assusta mais ninguém.

Não lembrava de detalhes porque o vi há muitos anos. Mas sabia que a casa da família assediada fisicamente por espíritos do além fora construída sobre um cemitério.

Não sei porque, mas só depois da casa construída e de a família nela residir há algum tempo é que os mortos se revoltaram. O Spielberg também não explica como é que os fundamentos da casa puderam ser lançados sobre um cemitério com mortos enterrados a sete palmos quando se sabe que micro-estacas ou pilares geralmente exigem acomodação bem mais profunda. Mas isto deixa prá lá.

O filme começa com o The Star Spangled Banner, hino dos Estados Unidos, com toda força, no encerramento da programação da tevê. Uma das vantagens do sistema Dolby Surround é que você ouve o som com uma plenitude até irreal. Logo a menininha, Carol Anne, invoca espíritos que aparecem invisivelmente na telinha. Mais tarde acaba sendo tragada por eles e a tevê passa a ser o meio de comunicação entre a menina e seus desesperados pais, que se valem de uma parapsicóloga e seus assistentes e depois de uma clarividente para puxá-la de volta com uma prosaica corda.

Lamento, mas enquanto assistia, comecei a cochilar e acabei dormindo. Não vi o filme inteiro e não tive ânimo, depois, de voltar o devedê para revê-lo.

Quando acordei a família inteira estava no interior do carro, tentando fugir, a casa desmoronando e desaparecendo sob uma tempestade e efeitos especiais. A fuga foi exitosa e a família se acomodou num motel.

Numa das últimas cenas o pai coloca a televisão na rua. Pudera! Depois de todos os infortúnios era a melhor coisa que poderia fazer.

Talvez seja essa mesmo a mensagem do filme. A televisão não presta nem para crianças nem para adultos. É algo terrível e, a seu modo, aterrorizante. Transmite horrores como Pânico, Gugu, Fausto Silva, Hebe, por aí afora. Stanislaw Ponte Preta dizia que é uma máquina de fazer doidos.

No caso do filme, uma máquina de transmitir mensagens de espíritos loucos do lado de lá para o lado de cá. O que, no fim das contas, é a mesma coisa.


Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi, em 29/06/2005.

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12/07/2008

TAMBÉM QUERO MENSALÃO

Ouvi, hoje, que no Rio de Janeiro, uma universitária recebeu indenização por dano moral por ter sido chamada de “gorda” por um professor de Direito.

Ela saiu da sala, deixou o gravador ligado, e ao voltar percebeu que riam dela. Depois ouviu na gravação que o professor comentou que o gravador representava a inteligência artificial usada para o estudo, enquanto a dona saia da sala para ir à cantina comer alguma coisa e engordar.

Não achei tão ofensivo assim. Foi um comentário infeliz, talvez. Mas atualmente tudo é motivo para exigir reparação a esse título. A cartilha do Nilmário Miranda sobre o politicamente correto foi adotada oficiosamente. Li, até, que os deputados do PL vão entrar com uma ação de indenização por danos imorais, digo, morais, contra o deputado Roberto Jefferson, que os acusou de participar do esquema mensalão.

Aliás, Roberto Jefferson já foi gordo, lembram? Fez uma cirurgia de redução do estômago e emagreceu 60 quilos. Foi seu maior erro. Os gordos são geralmente confiáveis e até por injunção física não podem se dedicar a certas atividades facinorosas com a mesma desenvoltura de um magro.

Nunca julguei um ladrão gordo que tivesse praticado um furto mediante escalada – por exemplo – e os batedores de carteira geralmente também são magros: precisam de preparo físico para correr caso sejam flagrados.

Aliás, condenei um gordinho, certa vez. Ele tentou arrancar a bolsa de uma mulher, que reagiu com a eficiência de toda mulher, isto é, aos gritos, assustando-o. Ele correu e ao atravessar a rua foi pego por um veículo que por acaso era de um Delegado da Polícia Federal... Além de gordo, azarado. O dano maior foi no capô do carro.

Eu sempre fui gordo, desde a infância, e além de gordo, ruivo e sardento. Em resumo, feio! Essas características motivavam gozações de colegas, algumas humilhantes. Se fosse cobrar pelos constrangimentos sofridos estaria riquíssimo.

Certa ocasião voltava da aula, assobiando, e na minha frente iam dois empregados da oficina mecânica de meu pai. Ouvi um dizer alto, após me ver:

– Hoje vai chover. Tem bugio assobiando. E quando bugio assobia na serra é sinal de chuva. Se o bugio é gordo, é trovoada na certa!

Para quem não sabe, bugio é um símio de pêlo avermelhado e aquela observação doeu fundo.

Noutra, ainda, eu tinha vestido calção para jogar futebol e o tio de um colega observou:

– Puta que o pariu! Olha só as pernas desse animal!

Eu era gordo do tipo pícnico e minhas pernas eram muito grossas. Envergonhado, corri para casa e nunca mais usei calção. Desisti do futebol, eu que tinha planos de me profissionalizar. Poderia ter jogado tranqüilamente até à Copa de 1982 e não deixaria o Paulo Rossi fazer o que fez com nossa seleção. O Brasil perdeu um grande jogador. Bem feito!

A obesidade é um problema mais de ordem psicológica do que física na infância e na adolescência. Na universidade eu havia superado esses traumas. Mas nem todos conseguem. Ontem, ainda, o presidente Lula, ao receber o Ronaldinho, usando da sensibilidade paquidérmica que lhe é peculiar, comentou que o atleta está mais gordo que ele... Mais tarde, pronunciando-se a respeito da corrupção galopante no governo, que eclodiu com as denúncias do ex-gordo Roberto Jefferson, disse que, se for preciso, na apuração das irregularidades, “cortará na própria carne”.

Não é preciso, presidente! Um bom programa de reeducação é suficiente para enxugar adiposidades maléficas. Estou falando de reeducação alimentar para emagrecer. Eu emagreci 21 quilos!



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 08/06/2005.
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05/07/2008

MENSAGEM AO TÚLIO

Há muito tempo prometi uma mensagem para o Túlio, que era freqüentador mais ou menos assíduo do blog. Deixou comentários. Nunca mais se manifestou. Em todos os casos, aqui vai:

Caro Túlio. Meus dois filhos são mais velhos que você. Por isto vou apenas lhe repassar algumas das orientações que passei a eles. É claro que eles fizeram exatamente o contrário daquilo que ensinei. Mesmo assim, talvez até por isto, estão se dando bem, estão bem encaminhados dentro daquilo a que se propuseram e ressalvadas as fases de vida de cada um.

Não acredite naqueles que, com ar professoral, lhe ensinam verdades padrões e definitivas. Por qualquer meio: acadêmico, livros e até por blogues. Procure a sua própria verdade e siga a vida desconfiando de dogmas. Desde o início da vida do homem estamos vindo aos trancos e barrancos e ao sabor do acaso, por mais planejado que seja. Apenas o aperfeiçoamento das coisas é mais ou menos consciente.

Desconfie de quem propaga a própria humildade. Quando alguém inicia um discurso dizendo É com humildade que reconheço... a humildade já foi estropiada. Dizer-se humilde é a mais evidente prova de soberba.

Não creia quando alguém diz: “Fulano é muito inteligente”. Primeiro, porque ainda não se encontrou um meio eficaz de medir a inteligência. Aliás, há dúvidas sérias inclusive quanto àquilo que poderia integrar seu conceito. Depois, é prepotência alguém ser capaz de julgar alguém muito inteligente. Importaria que o julgador fosse mais inteligente do aquele a quem está julgando: só quem é mais inteligente pode julgar a inteligência dos outros.

Nunca busque a felicidade. Primeiro, porque aquele que busca a felicidade é confessadamente infeliz. Ninguém busca o que já tem. A felicidade que os infelizes procuram é utopia. Nossa vida é feita de acontecimentos alegres e de momentos tristes e nem sempre somos capazes de lembrar apenas as coisas boas e esquecer as ruins, como deveria ser, para nosso próprio bem. Aproveite com intensidade os momentos de paz e serenidade que se intercalam entre os momentos tristes de nossa vida, mas que, no final de tudo, é o que conta se não nos esquecemos deles.

Nada na vida é sério. Leve-a com bom humor e sem inquietações. Namorar, casar, ter filhos, tudo isto no início fazia parte da vida como fatos normais e lúdicos. Os homens é que vestiram essas coisas com muita seriedade. Às vezes acho que o amor, nos termos em que existe hoje, foi uma invenção de laboratório. Amor é uma coisa bem menos complicada.

Não espere respostas padronizadas da vida. Não há um código que possamos seguir para viver porque ela é essencialmente dinâmica e ninguém é igual ou semelhante a ninguém. Não é possível codificar a diversidade comportamental. Cada pessoa é uma individualidade própria e auto-suficiente.

Lembre sempre que não existe um período só da História que sirva de exemplo. Toda ela é recheada de horrores e perseguições, de lições nada edificantes de como viver e sobreviver explorando e subjugando o próximo. Talvez, embora longe do ideal, este seja o melhor momento da História da humanidade. Mesmo que não seja, é bom, para nosso bem, que acreditemos que seja. Afinal, precisamos cultivar com serenidade essa bendita teimosia que faz que com que a raça humana sobreviva e não esteja em extinção. Ainda.

Finalmente, leia poesia. Ela agrada ao espírito e os poetas quase sempre dizem coisas mais importantes que os cientistas. Guilherme de Almeida, o príncipe dos poetas brasileiros, terminou um poema dizendo: Caminha e esquece.

Faça isto. Inclusive – e principalmente – em relação ao que foi escrito aqui.

Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi, em 27/05/1005.

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