02/03/2008

VÍDEO CACETADAS

Critico tanto os programas de televisão que devem achar que tenho no máximo um aparelho. O pior é que tenho sete... E somos apenas três pessoas(*) em casa... Bem feito!

Nós, brasileiros, não rejeitamos nada, de novelas a comerciais, de enlatados a domingões fastidiosos ou sabadões apelativos.

Há incongruências surpreendentes na crítica especializada, que de especializada não tem nada: é tão ou mais amadora que nossas produções. Por exemplo: os nossos artistas são excelentes. Nossas novelas, idem. Quando há crítica são meramente abonatórias.

Há algum tempo alguém se referiu a Marlon Brando, em seu papel em Apocalipse Now, como uma “figura paquidérmica”.

Nunca vi alguém pegar no pé (ou na barriga) de artista brasileiro por motivo semelhante, com esse tipo de crítica infame e personalíssima, afastada do valor artístico e da qualidade interpretativa do ator. O talento de Marlon Brando sempre independeu de sua obesidade. Os nossos elefantes brancos seguem galantemente intocáveis.

Filmes estrangeiros são criticados e ridicularizados mesmo quando assistíveis. Os nossos são louvados mesmo sendo de terceira categoria. Há dois tipos de critério: um, generoso, para o produto nacional, e outro, bem mais rigoroso, para o estrangeiro. Tanto para os filmes como para os artistas. Têm alguma dúvida? Peguem qualquer jornal de hoje e constatem com seus próprios olhos.

As novelas caricaturizam a maioria dos personagens. Se espelharem aquilo que realmente somos então somos todos idiotas mesmo: da cama à mesa, que são os locais onde a maioria dos problemas é discutido e, obviamente, resolvido. Se na vida real alguém mantivesse com algum interlocutor qualquer dos diálogos elaborados em nossas novelas – quer na entonação, quer no conteúdo – será considerado um exemplo acabado de imbecilidade. Nas novelas, são normais, espertos, aceitos e, às vezes, até louvados.

Houve uma novela de época que narrava a vida da família real portuguesa no Brasil. Os gemidos e manifestações orais das personagens femininas eram tão afetados que, quem só ouvia, imaginava tratar-se de um filme pornográfico [aliás, não sei se repararam, mas isto ocorre também em desenhos, principalmente quando há bruxas e fadas (eu disse fadas) como personagens].

Programas esportivos não vejo, só ouço, com o notebook no colo. Os locutores berram nos lances mais perigosos e então desvio os olhos para a tevê. Os gols são repetidos. Idem com as corridas de Fórmula-1. As transmissões são enfadonhas e o Galvão Bueno torce até nos replays.

Os repórteres só fazem perguntas do tipo “Como é que você se sente...” ou “Foi uma emoção muito grande...(?)” quando não partem já de uma conclusão própria para elaborar uma indagação apenas visando uma confirmação de sua sabedoria, num dirigismo inquiritório que às vezes dói de tanto que sobressai. Nas desgraças e fiascos da vida pessoal a câmera fica estática e o microfone grudado na cara de algum entrevistado aguardando lágrimas. Se não houvesse edição ficaríamos alguns minutos esperando.

Eu pretendia fazer um post sobre o BBB5, mas não vale à pena. Seria obrigado a assisti-lo mais vezes e isto é demais para mim. O que vi na terça-feira já me deixou desconcertado. Há quem discuta a “virada” do professor gay contra a guriazinha eliminada, que seria matematicamente impossível. Veja
aqui.

Fiquei desconcertado por isto: o carinha é eliminado, perde a chance de concorrer a um milhão de reais e sai da casa com a obrigação de ser feliz. É recebido com festa pelos familiares e pela produção. Os que permanecem fingem uma desconstrangida tristeza. Se eu tivesse uma chance em dez de ganhar essa grana e fosse eliminado ficaria puteando todo mundo, bateria porta na cara deles, chutaria os lixeiros que encontrasse, mandaria o Bial prá pqp e repudiaria os familiares que comemorassem minha saída. Deserdaria os filhos, se estivessem lá!

Triste a vida de telespectadores cuja sensibilidade é agredida por esse tipo de mídia e, o que é pior, que não têm como escapar de sua invasão domiciliar através da “janela do mundo”. Somos obrigados a engolir certas babaquices que apenas reafirmam, cada vez com mais vigor, que o melhor invento do mundo, em termos de comunicação de massas, não foi a televisão, mas sim o controle remoto.

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(*) Hoje somos apenas a Ieda e eu, pois o Francisco, que aqui morava na época, está na Alemanha.




Publicada originalmente no Jus Sperniandi,
em 21/01/2005.
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22/02/2008

SOBRE LULAS E SARDINHAS

Missão difícil, hoje. Não sei mergulhar e sou gordo, embora dentro da água pese menos, em proporção à quantidade que desloco e desloco bastante. Não sei nadar, mas não importa. A preocupação é manter o leitor informado. Aluguei um barco, tomei um Dramin – enjôo até em camas d’água – e investi uns cinco metros mar adentro para entrevistar uma sardinha.

Por quê? Porque o Governo criou o
Comitê de Gestão do Uso Sustentável da Sardinha Brasileira. Tive sorte. Encontrei um cardume e uma delas concordou em ser entrevistada:

– Seu nome é Sardinella Brasiliensis, certo?

– Certo uma ova! – ela era mal educada – É Sardinha mesmo e não vem paparicar. Vocês querem é nos comer.

– Como é que a senhora se sente com essa medida do Governo?

– Que pergunta certeira! É difícil um repórter com tanta criatividade. Me sinto uma bosta. O que o senhor sentiria se o obrigassem a ter quinze filhas para depois comê-las? Aqui é pior: querem aumentar o nosso número para poder nos matar em maior quantidade, nos espremer naquelas latinhas e alimentar vocês.

– É! Mas a senhora vai contribuir com o Fome Zero.

– Eu? Ah, ah, ah! Tás tonto? Prá matar a fome tem que comer algo mais substancioso. Fica três dias comendo sardinha! Dá uma caganeira federal. Troca de embuchamento, na certa, depois. Isso é aí é perseguição.

– Como assim?

– Essa, contra nós. Vem de 1556 quando um bispo naufragou nas costas do Ceará, se disfarçou de sardinha e foi comido pelos índios. Desde então nos perseguem e não se contentam em comer: nos socam em presídios superlotados, hermeticamente fechados e a Sociedade Protetora dos Animais não age. Nós não somos vistos. Se fizessem isto com gatos você iria ver o berreiro. Se o Governo liberasse caçar gatos para os tamborins dos carnavalescos ia ser uma grita só. Mas nós vivemos longe dos olhos dos que gostam de bichos. Você já viu sardinha em aquário?

– Não, nunca.

– Porque não existe. Mas em lata sim. Aliás, pelo seu olhar senti que ontem você comeu alguma. Seu sem-vergonha!

– É que vocês têm ômega-3 e fazem bem ao coração.

– Vai nessa! É jogada dos industriais para que nos consumam mais. Sardinha ao óleo com ômega-3? Ah, ah, ah! Só vocês pra acreditarem. Você não navega na Internet? Não leu que a baleia só bebe água, pratica natação, se alimenta de peixes e é gorda? Mas me diga. Quando é que o comitê vai começar a atuar?

– Após o Carnaval.

– Só podia! Tudo no Brasil é depois do Carnaval. Por isto vivem pegando no nosso rabo. Não têm coisa melhor prá fazer?

– Eu fiz o que podia. Sou aposentado. Trabalho de graça porque quero saber da opinião de vocês, que vão ser o objeto de estudo do comitê. Ao que a senhora atribui essa medida?

– Isso é coisa de lula. As lulas são complexadas, feias, cheias de tentáculos, pegajosas, e suas faculdades nutritivas são mínimas. Para se preservar inventam coisas contra nós, que somos limpas e elegantes. As lulas defecam arroxeado, poluem os mares e não se conformam com a nossa beleza. E no mar, nosso maior predador é o tubarão. Lula gosta de fazer média com tubarões. Pronto, falei tudo.

– Que tal uma choradinha para impressionar os telespectadores? Isto pega bem. Talvez ajude a sua causa. Vou vender a matéria para a televisão.

– Chorar dentro d’água? Quem vai ver? Eu sou sardinha e não lula. Lula é que chora por qualquer coisinha. Posso dar uma cagada...

– Não, não, está bom. Mas por que a pressa?

– Vou terminar minha fantasia de Carnaval. Afinal, depois não vou saber onde me meter, com esse comitê aí.

– Então só mais uma perguntinha: qual é a fantasia?

– Eu vou de Lula Deslumbrada e Esvoaçante.



Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 22/01/2005.
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09/02/2008

A IDIOTICE AUTOMATIZADA

Creio que a maioria dos mortais não são detentores de privilégios tais que lhes permitam acessar diretamente os serviços de atendimento ao cliente de seus provedores ou companhia telefônica. É só através dos repugnantes 0800.

A maioria certamente passa pelas mesmas dificuldades que eu quando pretende reclamar sobre irregularidade de transmissão ou queda de linha ou interrupção de conexão. Até há alguns meses essas ligações ocorriam, na melhor das hipóteses, dia sim dia não. Mas há uns três meses não surgiu mais nenhum problema e estou muito preocupado com isto. A experiência recente demonstra que após o recuo do mar pode vir um tsunâmi.

Os 0800 têm o poder de congestionar meus olhos, contorcer minha boca, virar meu nariz para cima e crispar meus músculos. Meus pêlos e cabelos crescem uns dez centímetros. Na lua-cheia, um pouco mais. Para não me expor aos familiares, sempre que vou me transformar em lobisomem me tranco no escritório.

Você disca o número, vem a musiquinha. Na Brasil Telecom uma vez era aquela do lig-lig. Pelo menos era personalizada. Beethoven, se soubesse que a Pour Elise seria usada como música de espera no telefone a teria renegado em vida (há gente que diz que não foi ele que a compôs).

Depois o menu de opções. Se você já decorou a opção que deseja e quiser antecipar o clique, não adianta. O menu não é à prova de idiotas. Em seguida mais música, mensagens sucessivas de “nossos assistentes estão todos ocupados no momento. Aguarde. Dentro de instantes você será atendido”. E mais música e propaganda sobre a facilidade de adquirir o serviço banda larga que você já tem. Até chegar ao atendimento você perdeu uns dez minutos e muito de sua paciência.

Não sei até que ponto isto é economicamente viável para a BT, mas isto é problema deles. Se for nosso, impossível saber. Em tese, o usuário não deveria pagar nada, mas como na conta não vem o extrato de suas ligações você nunca vai tomar conhecimento.

Eu passei por uma experiência circulante, kafkiana, que talvez muitos já passaram. Era usuário do Terra, adquiri um modem da empresa (Terra Networks S.A.) e quase um ano depois ele pifou. Disquei para o 0800 da Brasil Telecom, pois o problema era de conexão. Um técnico da empresa diagnosticou que o modem entrara em loop. O assunto era com o fabricante.

Como estava na garantia procurei solução através do atendimento ao cliente Terra, que vendera o aparelho. Disquei o telefone exclusivo para os usuários de Porto Alegre, o 32871000.

Começaram as várias opções digitais, mas foi difícil encontrar a certa. A gente ingressa no jogo do empurra-empurra virtual sem sair do lugar. Mas depois de ter explicado o problema para cada setor para o qual era encaminhado caí, até que enfim, nas mãos de uma pessoa com alma. Uma voz menos desumana ouviu meu problema e transferiu para o setor competente. Só que lá não era o setor competente. A boa alma demonstrara boa vontade mas se equivocou.

Caí, então, no setor financeiro que só atendia a reclamações relativas ao pagamento do modem. “Mas vou lhe passar para a área técnica”. Quis dizer que já tinha passado por lá mas não deu tempo. Novas explicações. Mas, finalmente, o setor de vendas solucionaria o problema. E me transferiram para lá. Então a mensagem:

“Você é assinante de Porto Alegre. Este telefone é exclusivo para usuários de outras regiões. Por favor ligue 32871000”.

Além do modem, eu entrara num loop também.

Fiz mais umas quatro ou cinco tentativas. Para preservar a garganta gravei o histórico do problema e quando o atendente solicitava que eu o relatasse eu ligava o gravador. Mas nada de solução. Os e-mails que enviei, inclusive ao fabricante, também não surtiram efeito.

Adquiri outro modem, mais barato, que está ativo até hoje, e ajuizei uma ação contra o Terra Networks no Juizado Especial Cível de Porto Alegre (antigo Pequenas Causas) e tudo se resolveu em acordo: me ressarciram dos valores pagos – inclusive despesas de remessa – e devolvi o modem.

Acho que essa é a melhor maneira de se lutar a guerra contra os 0800.




Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 26/01/2005.
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03/02/2008

SÁBADO NA EMERGÊNCIA

A sesta do sábado foi interrompida por dores lancinantes na parte baixa das costas, onde elas começam a perder o nome, lado direito. Urrava de dor. Nunca sentira dor tão forte.

– Ainda não, ainda não! – sussurrou a Ieda, meio dormindo, mas logo acordou de vez e acendeu a luz, assustada.

Consegui sentar e me vi no espelho, branco e suado, com náuseas. Direto para a Emergência. Cheguei às 16,30 horas, fiz o registro, a triagem... A enfermeira:

– Senta na cadeirinha e vamos tirar a sua pressãozinha.

Detesto esta prática que está se disseminando com rapidez em qualquer lugar em que a gente vai para ser atendido: o uso piedoso de diminutivos. Só porque estou dodói e choramingas não significa que voltei a ser criança. Olhei-a com olhos bovinos e inexpressivos mas ela não entendeu.

– Quanto vai demorar o atendimento?

De 40 a 50 minutinhos. A Ieda foi à cabeleireira, pedicure e manicure, voltou e eu ainda não fora atendido. Só às 17,45 fui chamado... Isto num dos mais conceituados hospitais de Porto Alegre, das irmãs de caridade que não fazem caridade nem aceitam pobres, só quem paga.

Enquanto esperava chegou um senhor de sapatos e cinto brancos com uma moça jovem demais para ser sua mulher e velha demais para ser sua filha. A moça fez a ficha, ele foi para os fundos, voltou, levou a moça e foram atendidos. Sapatos e cinto brancos influenciam positivamente o atendimento de urgência dos hospitais. Vou comprar um jogo para mim.

A médica me examinou e adiantou que poderia ser coluna ou cólica renal. Determinou exames para “cercar de todos os lados”. Pensei se não deveria ter levado uma galinha preta. Receitou um analgésico, pediu exame de urina e uma ecografia das vias urinárias. A enfermeira:

– Vamos tomar o comprimidinho.

Quando o vi, fiquei contente por não ser um supositório.

Coleta de urina: peguei o potinho no laboratório. O banheiro é na entrada da emergência. É preciso atravessar duas alas: a dos que esperam atendimento médico – todos meio caidões – e a dos que esperam os que esperam atendimento – mais caidões ainda.

A boca do potinho não era das maiores. Ainda vou inventar e patentear uma mira peniana e enriquecer. Mas as mulheres devem sofrer mais.

Então a volta triunfal. Se na ida dera para disfarçar o potinho, agora era impossível. Ele estava cheio e ficaria feio sair urinando, ainda que por vias não ortodoxas, pelo caminho.

Resolvi pregar uma peça na atendente do laboratório. Coletei “o material” lavei as mãos mas não as sequei. Com as mãos molhadas estendi-lhe o invólucro:

– A médica disse que era para entregar nas suas mãos.

Era uma negra gorda, simpática, que me olhou e sorriu entendendo tudo. Pediu-me que aguardasse, vestiu luvas cirúrgicas e pegou o pote. Eu que fiquei sem jeito.

A ecografia era para as 18,40. Surpreendentemente, às 18,39 fui chamado para o exame. Depois voltei à sala de espera. A médica descartou qualquer problema renal. Ainda bem.

Suspeita de hérnia de cd. É muito atualizada, esta médica. Agora, nesta semana, devo procurar meu ortopedista. Espero que ele faça algum milagre. Afinal, se chama Messias.

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Publicada originalmente no blogue Jus Sperniandi, no sábado 05/12/2004.

02/02/2008

ESTRAVAGARIO - Neruda

Pablo Neruda





Estación inmóvil

Quiero no saber ni soñar.
Quién puede enseñarme a no ser,
a vivir sin seguir viviendo?

Como continúa el agua?
Cuál es el cielo de las piedras?

Inmóvil, hasta que detengan
las migraciones su apogeo
y luego vuelen con sus flechas
hacia el archipiélago frio.

Inmóvil, con secreta vida
como una ciudad subterránea
para que resbalen los días
como gotas inabarcables:
nada se gasta ni se muere
hasta nuestra resurrección,
hasta regresar con los pasos
de la primavera enterrada,
de lo que yacía perdido,
inacabablemente inmóvil
y que ahora sube desde no ser
a ser una rama florida.
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Revista ARGUMENTO n.º 2, novembro/1973, página 125.
Ilustração: Elifas Andreato-73.
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26/01/2008

LIÇÃO DE AUTO-AJUDA

Há algum tempo me telefonou um amigo mais velho. Dois de seus velhos companheiros haviam morrido em pouco tempo.

— Estou preocupado — me disse.

Solícito, tentei confortá-lo dizendo que não se preocupasse, que apesar de ele ter tido apenas três enfartes, estava forte, seguindo mais ou menos o tratamento médico e que iria viver muito ainda. Os três maços de cigarro e o litro de uísque que devorava por dia, na idade dele, já não fariam muita diferença. Retrucou-me:

— Não! Estou preocupado é contigo. São os meus amigos que estão se indo, está pipocando ao meu redor.

A conversa acabou numa boa gargalhada. O meu amigo é muito espirituoso.

A Fibrilini está aqui. Ontem já havia sentido no ar o seu perfume, Digoxina n.º 5 — se não me engano a Marilyn Monroe dormia com algo parecido.

Aos meus amigos: não há motivos para muita preocupação, embora ninguém possa me dar a certeza, por exemplo, de que terei tempo de terminar e postar este texto. Meu caso não é dos mais graves e sei de gente que há muito tempo sofre da mesma coisa. O Sérgio Reis, ao que parece, e um jornalista do Roda Viva, da TV Cultura, Paulo Markun. Aos meus inimigos: lamento!

Ultimamente a Fibrilini me visita mais amiúde. Isto significa, pelo que entendo, a proximidade da cronificação. Um dia ela virá e não mais sairá. Ter uma amante crônica deve ser muito estranho.

No início até livros de auto-ajuda eu li. Fiz cursos de controle mental. Sempre se relacionou o meu problema à tensão emocional. Na verdade é um foco elétrico ectópico que insiste em se sobrepor ao nódulo sinusal, que comanda o ritmo cardíaco. Exemplificando: é um Zé Dirceu se impondo ao Lula na condução deste pais.

Por isto o Brasil está arrítmico. Aliás, o Leonardo Boff disse que a
Terra está arrítmica. Então desculpem a falta de modéstia: vocês, que têm seus corações batendo normalmente, estão doentes. Eu sou saudável, pois acompanho o ritmo da Terra e deveria ser feliz por isto. Mas, às vezes, umas lágrimas teimosas insistem em rolar, caio em depressão, principalmente quando me pergunto: por que eu?

Acabei detestando (não o Lula, ou melhor, não estou me referindo ao Lula ou ao Leonardo Boff, mas aos livros de auto-ajuda). Mas, vamos convir que eles dizem alguma coisa certa também. Por exemplo: não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje.

Mas isto a avó do Arnaldo Jabor já dizia. As minhas também. Minha mãe e dezenas de professores. Mas os livros de auto-ajuda fazem a exortação com uma solenidade tão primorosa que a gente acaba acreditando mais nos próprios familiares mesmo.

Mas é um sábio ensinamento. Por exemplo: sempre gostei de uísque com água de coco. Mas amigos entendedores diziam que isto era um sacrilégio. Sempre o tomei puro, sacrificando meu gosto pela pureza do uísque. Deveria ter misturado. Agora, com a influência que o álcool tem sobre minha fibrilação, já não posso beber. Deixei de libar uma das coisas que gostava. Uísque puro é muito forte.

Não sou nenhum Paulo Coelho, graças a Deus, mas se você tiver vontade de fazer algo que outros considerem um sacrilégio, um crime de lesa-majestade, faça. Se você gosta de cachaça com alho, por exemplo, tome. Além de tudo é um santo remédio contra a gripe.

Mas não exagere no alho. Uma vez exagerei: ingeri dois litros de água de coco com 50 ml de uísque. Como a água de coco tem muito potássio, fez mais mal que o uísque. Minha pressão subiu. Oi foi o gelo.

Pela minha experiência de vida anterior, embora tenha sido sempre um bebericador doméstico e de fim-de-semana, nada palaciano, posso assegurar que, por exemplo, numa caipirinha, o gelo faz muito mais mal do que a cachaça, o limão e o açúcar.


Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 15/12/2004.
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19/01/2008

AS APARÊNCIAS ENGANAM

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O sistema registral brasileiro privilegia o ramo familiar do homem e prejudica o da mulher, que aos poucos vai perdendo seu senso de origem. Mantém-se o patronímico do marido, que passa a ser o familiar, e as raízes maternas vão se perdendo no tempo.

Se fosse o contrário, como nos países de língua espanhola, aconteceria o inverso. As raízes masculinas é que se perderiam.

Não se trata de definir quem tem mais ou menos importância nem existe uma solução para o problema. Se fossem mantidos todos os sobrenomes, masculinos e femininos, um livro acabaria sendo pequeno apenas para a grafia de um nome mais os patronímicos originais.

Há algumas desvantagens. Os homens conservarão o nome do pai e o transmitirão aos filhos e filhas. Os filhos carregarão sempre o mesmo sobrenome e estigmas que ele atrair. Assim, se algum deles fizer alguma besteira maior seus descendentes serão marcados para sempre:

– Olha lá! Aquele é um daqueles Dellandréa que votou no Lula em 2002, lembra?

Com as mulheres isto não necessariamente acontece, pois podem adotar os apelidos do marido ou permanecer com os seus, originais, mesmo casando.

Mas o sistema pode gerar distorções graves. Examine, por favor, seus quatro costados, isto é, a origem de seus avós paternos e maternos. Por detrás de um blasfemo e sangüíneo italiano pode se esconder um teimoso e beligerante alemão. E ainda, infiltrado, algum malemolente sangue índio, negro ou português. Ou de outra fonte.

Sou obrigado a falar de mim porque sou o meu melhor – e pior – exemplo e principal referencial. Apesar de me conhecer muito pouco, ainda sou a pessoa do mundo a quem mais conheço. Sou a única com quem convivo desde que nasci.

Meus avós maternos são de origem alemã: Althoff e Schweitzer, de Alfredo Wagner (no tempo deles se chamava Barracão). Os paternos são Cordeiro e Dellandréa. Se houvesse uma distribuição eqüitativa da vertente sangüínea nas minhas veias e artérias eu seria 50% alemão, 25% brasileiro (pêlo duro, como se diz aqui) e apenas 25% italiano (trentino, para ser mais exato), que é o sobrenome que carrego.

Eu, para resguardar minhas origens conhecidas, deveria me chamar Ilton Althoff Schweitzer Cordeiro Dellandréa. A Ieda, Ieda Dörner Feuser Rodriguez Fernandes. E nossos filhos? Como a Ieda não tem nada de italiano, é 50% alemã e 50% brasileira, ou espanhola, ou portuguesa (esqueci de fazer um levantamento mais acurado quando comecei a namorá-la), há neles uma redução drástica do nível sangüíneo italiano.

Eles têm 50% de sangue alemão, 37,5% de sangue brasileiro e apenas 12,5% de sangue italiano... E o sobrenome.

E os nomes deles? A Clarissa se chamaria Clarissa Dörner Feuser Rodriguez Fernandes Althoff Schweitzer Cordeiro Dellandréa. O Francisco, que já tem um nome quilométrico (Francisco Fernando Fernandes Dellandréa), se chamaria Francisco Dörner Feuser Rodriguez Fernandes Althoff Schweitzer Cordeiro Dellandréa. Eu caparia o Fernando para encurtar um pouco. Isto é, retiraria o segundo nome (Fernando) do nome dele. Isto para ficar só com os nossos (dos pais deles) quatro costados.

Talvez seja por isto que eu, às vezes, nos diálogos comigo mesmo, não me entendo direito. Nem é bom que meus filhos saibam disso tudo. É tanto atravessamento que há o risco de eles se entenderem menos ainda.

Mas a situação de maior perplexidade é a da Ieda, que não tem culpa de nada, e pelo sobrenome que adotou quando casou comigo é, para todos os efeitos... italiana. Ou trentina, para ser mais exato.

E nossos antepassados remotos podem ter até guerreado em lados opostos quando da unificação da Itália.




Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 24/11/2004.
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17/01/2008

TERRA SANTA?

A morte do líder palestino Iasser Arafat me instiga a pensar naquele cantão do Oriente Médio chamado Terra Santa. Judeus e árabes, dentre estes mais especialmente os palestinos, o consideram uma terra sagrada.

Mas não adianta a terra ser sagrada se os homens que a habitam não se toleram, não se aceitam, pregam a destruição uns dos outros, vivem em guerra constante e não declarada, em que pedras servem de armas contra tanques, crianças morrem sem a possibilidade de vir a ser e o terrorismo provém de ambos os lados, oficial ou não.

Terra santa?

A unção com que foi consagrada já deve ter sido lavada pelo sangue de inocentes, de ambos os lados, que jorrou e continua jorrando dos mártires anônimos inocentes que morrem sob métodos aprimorados de matar e que demonstram que barbárie e tecnologia são dois termos perfeitamente atuais e adaptáveis um ao outro.

Os rastros dos santos e profetas que passaram por lá foram também lavados e apagados pela fumaça das bombas, pela poeira da destruição, pelos entulhos dos prédios e santuários demolidos, pelas esteiras dos tanques, pelos estilhaços das granadas e dos mísseis.

O pensamento e a filosofia dos sábios e dos profetas estão apenas nos livros e os livros estão fechados. Na alma dos homens não calam conceitos de paz e tolerância porque as porteiras da mente também estão fechadas.

Uma terra, para ser sagrada, necessita do cultivo contínuo da santidade dos antepassados através da compreensão dos que dela fazem morada hoje.

As sandálias que a pisam devem ser limpas e puras.

A humildade e a tolerância devem iluminar a mente dos que administram o destino das gentes que a habitam e seus pensamentos devem ser dirigidos pela santidade e para a paz.

A terra não é mais santa quando os profetas são profanos e profanadores.




Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi em 11/11/2004,
logo após a morte do líder palestino Iasser Arafat.
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10/01/2008

UM FOTOTESTE...



Para salientar meu imenso sentimento de pura brasilidade vou aprioristicamente refugando responsabilidades. Sou muito volúvel. Se não fosse a Cora Rónai elogiar o Picasa e o Damião postar os seus fototestes, juro que não faria esta – digamos – rateada. Primeiro porque não é bem o meu estilo. Segundo porque não ganho tanto quanto o Ratinho para exibir esse tipo de apelação. Definitivamente, não é minha culpa.

O Picasa eu tinha acessado antes, no Blogspot. Baixei-o e o instalei, mas como sou inseguro com novidades, desinstalei antes de usar. Depois que a Cora, uma especialista, o abençoou, reinstalei-o e concluí que é realmente um ótimo programa. Andou, numa tarde de vento minuano, misturando pastas, tive que desinstalá-lo e reinstalá-lo, mas não alterou os arquivos de imagens do HD.

Com ele descobri fotos que jamais supunha existir.

Essa aí em cima, por exemplo.

Primeiro pensei que tivesse sido plantada no meu micro por algum site de pornografia, mas é muito pudica para isto. E verificando pelo nome do arquivo percebi que foi batida pela minha semi-aposentada Mavica, no Espírito Santo. O número de seqüência é uma prova irrefutável.

Mas não sei quem a bateu.

A Ieda não foi. Eu também não.

O Francisco jura de pés juntos que não foi ele. Como a foto abaixo é dos seus próprios pés (dele) e se consegue visualizá-los, suponho que está sendo sincero.
Mas isto não importa. Alguém bateu e ela esta aí.

Por isto aproveito para propor um fototeste, como faz o Damião com as fotos antigas de Florianópolis. Mas com direito a prêmio...

Aquela que se reconhecer e se identificar como sendo a fotografada ganhará uma caixa de chocolates de Gramado, igual à que enviei para a
Tell.

A comprovação tem que ser convincente. Como tenho falado muito em familiares, por estes dias, fica vedada a participação dos mesmos. Aqui o censor sou eu. Pelo menos aqui. Não conheço todas as bundas da família, embora as conheça mais que a minha, cujo acesso visual é uma impossibilidade física (e quando a vejo no espelho a imagem é invertida), mas tenho certeza de que não é familiar.


Uma dica: pela seqüência dos nomes dos arquivos as duas fotos foram batidas em Guarapari-ES, defronte à Cantina do Curuca, em setembro de 2003.



Publicada originalmente no Jus Sperniandi,
em 27/10/2004.

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06/01/2008

OS CARDEAIS

Elton Saldanha



Não chora menina, não chora
porque foram-se os cardeais.
Se cantavam na prisão
campo afora cantam mais.

Tanta gente anda vagando
sem saber onde pousar,
mas as aves só voando
é que podem se encontrar.

Você ainda não sabe
o que cabe nessa paz:
quando a gente abre as asas
nunca mais, nunca mais.


Era tão triste, menina,
não tinha aceno este cais.
Na despedida eram dois,
depois, depois serão mais.

A gaiola abriu as asas,
porque até a prisão se trai,
e o campo se fez casa
para o canto dos cardeais.

Você ainda não sabe
o que cabe nessa paz:
quando a gente abre as asas
nunca mais, nunca mais.


Tinham as asas de punhais
e levavam os olhos em brasa.
É por isso que estes pássaros
sempre fogem e voltam pra casa.
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31/12/2007

24/12/2007

FELIZ NATAL



Todos de nossa família fazemos votos de que você tenha um Natal sereno e tranqüilo, na medida em que possa sê-lo.

Não a falsa alegria provocada pelo uísque ou pela cerveja que a gente toma para fingir que está tudo bem.

Mas a paz dos momentos alegres que se intercalam entre os fatos tristes de nossas vidas e que, no fim das contas, são os que valem, se tivermos a capacidade de não nos esquecer deles.

23/12/2007

UMA LENDA

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A lenda que segue ouvi há muito tempo em algum curso de controle mental, ou algo parecido, e no Natal de 1999 — quando ainda não tinha blog — a montei caprichosamente na forma de um artigo .pps e a enviei para meus amigos.

A redação é minha. Mas a lenda é antiga. Passo-a como dela recordei há oito anos.

Muito antigamente, aí pelos tempos de Cristo, quando os moradores das cidades se abasteciam das fontes, de uma delas, na entrada de uma vila, cuidava um velhinho. Ali chegou um filósofo exausto e sentou-se para descansar.

Pouco depois chegou um viajante, bebeu da fonte, e perguntou ao velhinho se aquela cidade era boa para se viver.

O velhinho respondeu que era uma cidade normal e indagou do viajante como era a cidade de onde ele provinha.

Ele disse cobras e lagartos a respeito, referiu se tratar de um povo sovina, maledicente e ruim, e que por isto ele estava saindo de lá.

— Pois esta cidade aqui é exatamente igual àquela de onde você vem - respondeu o velhinho.

E o viajante seguiu viagem, revoltado.

Algum tempo depois, outro viajante chegou e fez a mesma pergunta e em resposta obteve a mesma indagação do velhinho: como era a cidade de onde provinha?

O segundo viajante respondeu que era um ótimo lugar para viver, que as pessoas eram honestas, gentis e cordatas e que ele estava saindo dela a contragosto, premido por circunstâncias pessoais.

— Pois esta cidade aqui é exatamente igual àquela de onde você vem - respondeu o velhinho.

E o viajante seguiu para a cidade, contente.

O filósofo, que ouvira tudo, quis saber do velhinho porque para duas perguntas iguais ele dera respostas tão diferentes.

Ele respondeu o óbvio: as pessoas são aquilo que a gente quer que elas sejam, as cidades são todas iguais e gostar delas depende da forma que a gente as enfrente, pois está dentro de cada um a possibilidade de fazer seu ambiente.


Resolvi transcrevê-la aqui não por transmitir alguma grande verdade filosófica. Mas, vamos dizer, uma pequena lição de vida.

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21/12/2007

NÃO VENHAS

[591] — 28-8-1927

Fernando Pessoa










NÃO VENHAS sentar-te à minha frente, nem a meu lado;
Não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado
Quero só dormir.

Dormir até acordado, sonhando
Ou até sem sonhar,
Mas envolto num vago abandono brando
A não ter que pensar.

Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
Pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre urtigas o que era a minha fé,
Escrevi numa página em branco, "Fim".

As princesas incógnitas ficaram desconhecidas,
Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro.
Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
Mas nunca encontrei parceiro.

Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales.
Só quero dormir, uma morte que seja
Uma coisa que me não rale nem com que tu rales —
Que ninguém deseja nem não deseja.

Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo
As esperanças e ambições que tive,
E hoje sou apenas um suicídio tardo,
Um desejo de dormir que ainda vive.

Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,
Como um barco abandonado,
Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
Sem se lhe saber o passado.

E o comandante do navio que segue deveras
Entrevê na distância do mar
O fim do último representante das galeras,
Que não sabia nadar.





Fernando Pessoa
Poesias Coligidas — Inéditas (1919-1935)
in Fernando Pessoa,
Obra Poética, página 509,
Companhia José Aguilar Editora (1974).
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16/12/2007

MÃOS


Há muita gente que sente atração sexual por pés.

Eu gosto de mãos. Elas me atraem mas posso dizer com absoluta certeza de que não se trata de fetichismo, pelo menos de ordem sexual.

As mãos me comovem. Principalmente as mãos pequenas que surgem, naturalmente, de mangas largas, o que lhes acentua a delicadeza.

A revista IstoÉ n.º 1831, de 10/11/2004, traz a foto de uma menina segurando uma vela para Arafat. A menina é linda, a foto é muito bonita, mas aquelas mãozinhas pequenas estendendo-se além de pesadas mangas largas é que me causam maior emoção.

As mãos da Mona Lisa, por exemplo, que publiquei recentemente aqui. São belíssimas. Quem quiser que fique com o seu sorriso meio idiota. Eu fico com as mãos.

Uma das fotos de minha filha que mais gosto é aquela em que ela está com o marido no cume do vulcão Villarrica, no Chile. Publiquei
aqui. Ambos estão mascarados e vocês só sabem que são minha filha e genro porque estou dizendo.




Mas reparem nos detalhes das mãos: ela, aconchegada a ele, a mão pequena junto ao seu corpo, como que pedindo proteção especial. E a manopla dele amparando-a, formando um contraste tranqüilo e que transmite segurança e serenidade.

Há duas fotos dela, quando pequena, que também gosto muito. Numa ela tinha uns três meses e está no colo da Ieda. Noutra, com uns cinco anos, debruçada no espaldar de um sofá.




Aqui em casa há ainda as mãos da Ieda, que pinta com delicadeza seus quadros que já espalhei por aí, neste blog. E as mãos do meu filho que toca piano e enche de sonoridade a casa e a vizinhança.




Chego a gostar narcisisticamente das minhas, pequenas, gordas e sardentas e com polegares indesculpavelmente atrofiados. Mas são as únicas que tenho.

Perdão àqueles que sentem atração, afetiva ou sexual, por pés. As mãos são muito mais comovedoras.

Mas para que não me tachem de parcial e para satisfazer a concupiscência daqueles apaixonados por pés deixo, abaixo, um detalhe de um quadro pintado pelas mãos da Ieda. Ele pode ser visto, inteiro, no Espelho sem Aço.






Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 13/11/2004.
A primeira foto é de Richard Harbus / EFE.

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14/12/2007

SE...

de Rudyard Kipling
(tradução de Alcântara Machado)




Se puderes guardar o sangue frio diante
de quem fora de si te acusar; e, no instante
em que duvidem do teu ânimo e firmeza,
tu puderes ter fé na própria fortaleza,
sem desprezar contudo a desconfiança alheia...

Se tu puderes não odiar a quem te odeia
nem pagar com a calúnia a quem te calunia,
sem que tires daí motivos de ufania;
sonhar, sem permitir que o sonho te domine;
pensar, sem que em pensar tua ambição se confirme;
e esperar sempre e sempre, infatigavelmente...

Se com o mesmo sereno olhar indiferente
puderes encarar a Derrota e a Vitória,
como embustes que são da fortuna ilusória;
e estóico suportar que intrigas e mentiras
deturpem a palavra honesta que profiras...

Se puderes, ao ver em pedaços destruída
pela sorte maldosa, a obra de tua vida,
tomar de novo a ferramenta desgastada
e sem queixumes vãos, recomeçar do nada...

Se, tendo loucamente arriscado e perdido
tudo o quanto era teu, num só lance atrevido,
tu puderes voltar à faina ingrata e dura,
sem aludir jamais à sinistra aventura...

Se tu puderes coração, músculos, nervos,
reduzir da Vontade à condição de servos,
que, embora exaustos, lhe obedeçam ao comando...

Se, andando a par dos reis e com os grandes lidando,
puderes conservar a naturalidade,
e no meio da turba a personalidade;
impávido afrontar adulações, engodos,
opressões; merecer a confiança de todos,
sem que possas contar, todavia, contigo,
incondicionalmente o teu melhor amigo...

Se, de cada minuto os sessenta segundos,
tu puderes tornar com o teu suor fecundos...
a Terra será tua, e os bens que se não somem,
e, o que é melhor, meu filho, então serás um Homem!


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09/12/2007

MERAS CASUALIDADES...

Há certos detalhes da vida que fazem, ou pelo menos permitem, pensar e sorrir. Há alguma coisa assim no casamento da Ieda e meu. Ou dela comigo, ou o contrário. Acho que é dela comigo, porque quando eu apenas iniciava falar de namoro — levei uns dois meses para conquistá-la — ela, que sempre foi muito objetiva e prática, já pensava em casamento e filhos... Quando percebi estava casado. Mas esta é outra história.

É claro que, para o sucedido, tem muita importância o fato de sermos originários de uma cidade, Taió, que naquela época era ainda menor que hoje. Todo mundo se conhecia.

Nos tempos da juventude de nossos pais era ainda menor, mas menor do que aquilo é quase impossível admitir que pudesse ser, embora não estivéssemos lá para conferir.

Mas em determinadas épocas da vida deles, antes de se casarem, meu pai namorou a mãe da Ieda e o pai da Ieda, por sua vez, namorou minha mãe. Todos eram meio dançadores — naquele tempo quem não o fosse tinha chances enormes de permanecer solteiro — e havia bailes e domingueiras nos quais os jovens se encontravam. Desses encontros surgiam esses namoricos.

Não foram namoros daqueles que prenunciavam a superveniência de um casamento até que a morte os separasse, mas apenas flertes, bem mais comportados e comedidos do que os ficar de hoje. Naquele tempo flertes e namoros eram — digamos — mais respeitosos, para usar termo da época.

Mas houve alguma coisa entre eles, alguma química — já usando um termo mais atual — que provocou esses namoros de través.

Há outra circunstância também interessante.

Minha mãe trabalhava com um tio meu, casado com uma de suas irmãs mais velhas, num pequeno negócio de secos e molhados que ele mantinha na parte frontal da residência. Foi lá que meu pai conheceu minha mãe, depois namoraram e casaram.

Anos mais tarde os pais da Ieda moraram naquela casa, por pouco tempo, mas o suficiente para que eu a conhecesse e passasse a namorar com ela. Então, na mesma casa em que meu pai conheceu minha mãe eu conheci a Ieda...

Haverá algum desígnio enigmaticamente superior que dirigiu aqueles pontos de luz (nossos pais) e suas linhas de vida em intersecções atravessadas que depois se desfizeram, se refizeram nos limites dos dois casais que casaram e geraram, entre outros, dois filhos que um dia se encontraram, casaram, e tiveram seus próprios filhos?

Seria isto uma continuidade da química afetiva que uma vez os atraiu, primeiro provisoriamente, depois, alterados os sujeitos da relação, com definitividade, ou são detalhes que podem ser jogados na vala comum do acaso?

Eu não sei explicar essas casualidades. Talvez a
Giorgia... Sou bastante cético e acho mais simples crer que foi mera coincidência.

Pode não ser nada transcendental, mas pelo menos é um tema agradável a ser discutido numa roda de amigos quando, depois de esgotados os assuntos fúteis, aquele silêncio constrangedor cai estrondosamente no ambiente e as mentes, obliteradas pelo vinho, a censura de guarda baixa, permitem falar de coisas sérias.

E se aquela casa em que a gente se conheceu ainda estivesse lá eu a compraria. Ah, compraria! Desde que, antes, ganhasse na mega-sena.

Mas ela foi demolida e ergueram no local um posto de gasolina. Não poderia ser mais desestimulante. Só o combustível me interessaria. O posto não.




Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 11/10/2004.

01/12/2007

APRECIE COM MODERAÇÃO

Ontem, para comemorar o fato de não termos mais crianças em casa, demos um presentinho para o Francisco, que tem 19 anos, e depois voltamos ao quarto para chorar. Quando as crianças crescem mais do que os pais se comemora assim.

Depois, conformados, telefonamos para uns casais, daqueles que compartilham a mesma situação estrutural, para tomarmos alguma coisa e esquecer que estamos transpondo a ponte do Tempo. O pior é constatar que o trajeto é mais extenso às nossas costas do que à frente. A ponte é pênsil, as travessas vão rompendo a cada pisada, e não se tem como voltar.

Estamos numa fase em que somos muitos velhos para ter filhos pequenos e muitos jovens para ter netos, embora a Clarissa, se quisesse, já poderia ter uns dois ou três filhos. Sei não, Tibério (Tibério é o marido dela). Às vezes imagino que devêssemos educar os filhos com menos ponderação. Ela pretende antes se estabelecer bem na vida. Se nós tivéssemos pensado assim ela ainda não teria nascido. Nem o Francisco.

Os amigos chegaram – graças a Deus, porque este papo estava se tornando muito lamentoso –, passamos numa revendedora de bebidas, compramos um barril de chope, e fomos para a sede campestre da AJURIS. Sempre fui muito consciencioso e atendo aos apelos cívicos com muita abnegação. Por isto chamei a atenção de todo o mundo:

– Aqui, ó! – estou ficando meio agauchado – Não se esqueçam da orientação do Ministério da Saúde: apreciem com moderação.

Os anúncios de determinada cerveja, após sugerirem autênticas bebedeiras, terminam com essa cândida mensagem, ditada por ordem legal: aprecie com moderação.

Um ou dois torceram o nariz. Estávamos em oito. Nenhum dos demais era ou fora juiz. Juízes geralmente são muito chatos quando se reúnem, só falam de direito, justiça e processos. Alguém murmurou “ele está aposentado, mas vive cagando regras como se fosse juiz e nós réus”. Eu não ouvi nada.

Acomodamos a serpentina com gelo e sangramos o barril enquanto na churrasqueira preparava-se o salsichão. É! Depois de 22 anos de convivência sou obrigado a reconhecer: estou me agauchando mesmo. Mesmo assim, não entendo porque o gaúcho chama uma lingüiça anã de salsichão. Além de desprezar a natureza componencial do recheio usa um aumentativo para indicar uma coisa pequena. Vou pensar nisto com mais profundidade outro dia. Em Santa Catarina, pelo menos em Taió, dizemos “lingüicinha”, com maior propriedade.

Filosofamos um pouco, no início, mas logo veio a euforia e concluímos que casais sem filhos pequenos e ainda sem netos não passam de crianças. Então aquele era o nosso dia, nos alegramos, e aproveitamos para festar. Pelas 16,00 horas o barril secou.

O chope não era dos melhores. Por isto, embora tivéssemos bebido tudo, o apreciamos apenas com moderação e nos orgulhamos por ter obedecido à sábia orientação do Ministério da Saúde.

“Aprecie com moderação” não é uma exortação a que você beba menos, mas sim a que você aprecie menos, mesmo bebendo bastante. Ou tudo. Embora aparente, não há contradição alguma.



Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 13/10/2004, um dia depois do Dia da Criança.

29/11/2007

A Busca do Tempo Anterior

Ilton Carlos Dellandréa


IV – CANTATA
Soneto: allegro moderato e patético



Eu sinto saudades de alguém de quinze anos
Que partiu num mês do ano que não terminou.
Desconjuntaram-se os meus mais belos planos
Nem consigo interpretar o que de mim restou.

Eu sinto saudades de alguém de quinze anos
que mesmo que retorne hoje não voltará jamais.
Não parte quem caminha por caminhos estranhos,
Mas entalha em quem fica desencontrados sinais.

Como voltará quem existiu e não existe e existe,
que partiu e não partiu e nem nunca partiria
e esteve longe e perto e nunca e sempre aqui?

Como explicar à minha alma assombrada e triste
que o que não passou não passou mas passaria
e que eu viveria um grande amor – e não vivi?

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25/11/2007

DETESTO EM FILMES

Partos explícitos com mulheres berrando. Na vida real nem todas gritam. Não sei por que a maioria dos diretores acha criativo inserir este tipo de cena em seus filmes. Já foi criativo uma vez. Hoje é banal e irritante. O pior é quando a criança nasce com as feições de quem tem um ano de idade, pele lisinha e cor normal, quando se sabe que elas nascem feias, vermelhas e enrugadas. Em alguns casos tem-se a impressão de que se o parteiro não cuidar o recém-nascido sai saltitando ventre afora.

Em documentários cansei de cenas de predação de animais mais fortes por mais fracos, ainda que justificadas pela lei da sobrevivência e pelo equilíbrio ecológico. Tornaram-se banais, são carnificinas, e às vezes sem sentido no contexto em que veiculadas. Se o leão mata o veado e a hiena se aproveita dos restos e os corvos dos restos dos restos e isto faz parte da lei de sobrevivênvia, tudo bem. É assim mesmo. Mas mostrar todos os dias chateia!

Também não gosto de certos exageros nos filmes que abordam o nazismo. Foi uma página negra na história mas há que se levar em conta que, apesar de toda a lavagem cerebral aplicada por Hitler e seus asseclas, havia oposição na Alemanha e nem todos os alemães aprovavam a política do ditador. O pior é quando, mesmo nos filmes sérios, caricaturizam esse povo que já pagou por seus erros e é um dos mais cultos do mundo, que nos deu Bach, Mozart, Beethoven, Brahms, para ficar só no campo da Música.

Estão agora criticando um filme que exibe Hitler acariciando animais e atencioso com crianças. Não há nada demais. Se ele fosse bandido desde pequeno não teria chegado onde chegou. Só no Brasil é que quem já foi condenado pode voltar a concorrer em eleições, mesmo pendente contra ele ordem de prisão. Aliás, entre 3 e 5 anos de idade Hitler devia ser uma gracinha, como qualquer criança. Depois é que veio a insanidade. Além disto, conheço muita gente que chama cachorro de filho e filho de cachorro e que é considerada boníssima...

Não gosto de cenas de sexo sobre a mesa ou o balcão da cozinha. Que mau gosto! Sem contar o perigo de alguém machucar-se numa faca, espetar-se num garfo, lambuzar-se de catchup ou mostarda, levar um choque na torneira elétrica, queimar-se numa das bocas do fogão ainda quente... Porque essas cenas ocorrem sempre com avidez, com pressa, com sofreguidão. Não deve ser agradável passar a mão numa bunda suja de água de louça ou ensebada de margarina.

Não posso deixar de fazer uma comparação. Hoje, mesmo as mulheres que transam a cada minuto num filme nunca engravidam. Antigamente um beijo engravidava. Viva a pílula!

Também não gosto de crianças fazendo papel de adultos ou de adultos fazendo papel de crianças. Não há nada mais ridículo do que um guri almofadinha, de óculos, terno e gravata, imitando um executivo.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 21/09/2004.

17/11/2007

Chove na Minha Capacidade Mental

A minha mentalidade é tacanha. Não consigo entender certas coisas, por mais que me esforce. Acho que é uma dificuldade natural de absorver idéias. Nem sei como fui aprovado no concurso para Juiz. Acredito, até, que se algum advogado mais atilado resolver tomar alguma providência poderá anular as sentenças que prolatei argüindo minha incapacidade mental.

Hoje, por exemplo, alguém teve a idéia de fechar o trânsito de automóveis na avenida João Pessoa para conscientizar os motoristas sobre a poluição. Mas o dia acordou com chuva torrencial, acho que foi a manhã mais chuvosa do ano. Resultado: engarrafamento, gente chegando tarde ao trabalho e muita irritação. Certamente não vai produzir o menor efeito.

Vão dizer que o fechamento estava programado e que integra uma campanha mundial. Tudo bem. Mas não haveria ninguém com autoridade para, nessas circunstâncias especiais, adiar o evento? Os motoristas, fechados em seus veículos, com pouca visibilidade, sequer poderiam adivinhar os motivos da paralisação. Debaixo da chuva não apareceu ninguém para divulgá-los...

Há alguns anos, no centro, presenciei uma cena deplorável: dezenas de deficientes mentais (outrora chamados de mongolóides) foram reunidos na praça defronte ao antigo Palácio da Justiça e conclamados a se darem as mãos e “abraçar a praça”...

Não sei de qual mente luminosa partiu a idéia, não sei dos motivos nem do resultado. Nem quem idealizou tal abraço. Os deficientes jamais teriam esse tipo de iniciativa.

Estava quente e pouco depois alguns começaram a se sentir mal, desmaiaram, vomitavam, e a brilhante manifestação foi interrompida.

Acabaram protestando contra seus mentores da melhor forma possível: sentindo-se mal e desmaiando, ainda que não tivessem consciência de que isto era um modo muito peculiar de protestar.

Essas são coisas que não consigo entender.

Na próxima manifestação de deficientes vou participar, dar as mãos a eles, abraçar a praça e vomitar nos pés dos organizadores. Acho que ali é o lugar adequado para mim. Os deficientes têm suas limitações mas sabem que certas coisas são impraticáveis: vomitar para o alto, por exemplo, é contraproducente.

Assim como fechar uma avenida movimentada em Porto Alegre, num dia de chuva torrencial, para alertar motoristas de que há poluição em São Paulo.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 22/09/2004.

11/11/2007

SAINT-EXUPÉRY, PILOTO DE GUERRA

Antoine de Saint-Exupéry foi escritor muito além do estigma de O Pequeno Príncipe, depreciado no Brasil por ser considerado o livro das misses. Garanto que é um bom livro e que vale à pena ser lido e relido.

Abaixo, trecho de Piloto de Guerra (a causa perdida da França no que ela tem de humano, de heróico e de burlesco), que escreveu durante a II Guerra Mundial, em que ele tece considerações sobre a preparação para mais uma das missões aéreas que julgava inúteis, na França dominada.

Ele era escritor e piloto consagrado e por sua idade fora aconselhado a se afastar do campo de operações, mas não lhe agradava a situação de espectador: Que sou eu se não participo?

"O Comandante Alias passa a noite em casa do General a discutir lógica pura. A lógica pura arruína a vida do espírito. Depois, uma vez na estrada, esgotou-se em intermináveis engarrafamentos. Depois encontrou, ao regressar ao Grupo, centenas de dificuldades materiais, daquelas que nos roem pouco a pouco como os inúmeros efeitos de um desmoronamento de montanha que não fôssemos capazes de conter. E, por fim, convocou-nos para nos lançar numa missão impossível. Somos objecto da incoerência geral. Não somos para ele Saint-Exupéry ou Dutertre, dotados de uma maneira particular de ver as coisas ou de não as ver, de pensar, de andar, de beber, de sorrir. Somos partes de um grande edifício cujo conjunto necessita de mais tempo, mais silêncio e mais projecção para se descobrir. Se eu padecesse de um tic, Alias só repararia no tic. E só expediria para Arras a imagem de um tic. No meio da algaraviada dos problemas postos, no meio da derrocada, dividimo-nos a nós próprios em bocados. Esta voz. Este nariz. Este tic. E os bocados não tocam no coração.

E aqui já não se trata de um Comandante Alias, mas de todos os homens. No decurso dos trabalhos de enterro, nós, que amávamos o morto, não nos sentimos em contacto com a morte. A morte é uma coisa importante. É uma nova rede de relações com as idéias, com os objectos, com os hábitos do morto. É um novo arranjo do mundo. Nada mudou na aparência, mas tudo mudou na realidade. As páginas do livro são as mesmas, mas não é o mesmo o sentido do livro. Para sentirmos a morte, precisamos de imaginar as horas em que temos necessidade do morto. É então que ele falta. Imaginar as horas em que teria tido necessidade de nós. Mas ele já não tem necessidade de nós. Imaginar a hora da visita amiga. E, descobri-la, dói. Precisamos de ver a vida com perspectiva. Mas não há perspectiva nem espaço no dia em que o enterramos. O morto está ainda em pedaços. No dia em que o enterraram, dispersamo-nos em impaciências, nas mãos de amigos verdadeiros ou falsos a apertar, em preocupações materiais. O morto só amanhã morrerá, quando houver silêncio. Só então se nos mostrará na sua plenitude, para se arrancar, na sua plenitude à nossa substância. Nessa altura, havemos de gritar que parte sem nós o podermos impedir.

Não gosto das imagens de Epinal relativas à guerra. Deparamos, aí, com um guerreiro rude, que esconde uma lágrima e dissimula a sua emoção com ditos grosseirões. Tudo isso é falso. O rude guerreiro não dissimula nada. Se deixa cair uma grosseria é porque realmente pensa numa grosseria.

A qualidade do homem não se encontra em causa. O Comandante Alias é sensível como qualquer outra pessoa. Se nós não voltarmos sofrerá talvez mais do que os outros. Com a condição de que se trate de nós e não de um somatório de pormenores diversos. Com a condição de que esta reconstituição lhe seja permitida pelo silêncio. Porque, se esta mesma noite, o meirinho que nos persegue obrigar mais uma vez o Grupo a mudar de poiso ou uma roda de um camião se avariar, na avalanche dos problemas há-de adiar para mais tarde a nossa morte. E Alias esquecer-se-á de sofrer com ela.

E é desta maneira que eu, que parto em missão, não penso na luta do Ocidente contra o nazismo. Penso pormenores imediatos, penso em como absurdo é sobrevoar Arras a setecentos metros. Na fragilidade das informações que desejam de nós. Penso ainda na lentidão com que me visto, nessa toilette que se me afigura uma toilette para o carrasco. E depois penso nas minhas luvas. Onde é que diabo vou encontrar as minhas luvas? Querem ver que perdi as luvas!

Não consigo ver a catedral onde moro.

Estou a vestir-me para o serviço de um deus morto".



Saint-Exupéry,
in Piloto de Guerra,
Editorial Aster – Lisboa, 7.ª edição, págs. 25/27.

03/11/2007

ANÃO GIGANTE EXISTE...

Em princípio, nada tenho contra as Olimpíadas. Servem, até, para quebrar a monotonia televisiva nossa de cada dia, apesar dos lugares comuns: a falta de criatividade faz com que os repórteres rebusquem coisas velhas nos seus baús e tentem nos impingir como novas.

O Arnaldo Jabor falou do Jesse Owens e da humilhação que em 1936 infligiu a Hitler, que por puro despeito teria se retirado do estádio, o que, a bem da verdade, não foi comprovado. O mundo não precisa mais dessas forçadas. Certas coisas não precisam ser sempre lembradas. As más lembranças podem induzir fatos negativos.

Ainda bem que não mostraram – pelo menos não vi – aquela alemã cambaleante, retorcida e descoordenada na linha de chegada de uma corrida como exemplo de superação. Aquilo foi a mais pura demonstração de desrespeito ao próprio corpo e à própria saúde.

Mas há a possibilidade de enriquecimento cultural. Com o Sílvio Luiz e a Magic Paula aprendi, por exemplo, que a Nova Zelândia fica na Europa... Logo em seguida eles corrigiram o erro.

Eu vi o Brasil conquistar sua primeira medalha de bronze, no judô. Foi uma luta sem graça, um agarra-agarra que não saiu da tentativa, parecia até que um estava tirando o outro para dançar mas não chegavam a um acordo sobre quem faria o papel da moça e quem o do varão. O brasileiro ganhou pelas punições que o adversário sofreu e não por algum golpe mais vistoso de sua iniciativa.

Eu fiz duas aulas de judô, no tempo da faculdade, no prédio da Medicina, situado na praça do "Kioski", que o Carlos Damião vem mostrando no seu blog. O professor era um Aducci, cujo prenome não lembro.

Experimentei então uma das minhas mais gloriosas realizações esportivas. Aquilo é que foi superação! Tinha que correr, apoiar as mãos no chão, virar, rolar, levantar e sair correndo novamente. Nunca conseguira fazê-lo antes, por isto exagerei na impulsão e cai de bunda. O choque foi tão forte que até o lustre estremeceu. E o piso era de concreto... Se o Aducci for muito persistente deve estar ainda hoje me esperando para a terceira aula.

Eu sei que é querer demais, mas preferiria que vencessem os naturalmente mais fortes. Aqueles a quem a natureza dotou de dons, força e talento superiores e não aqueles que os conseguem através de hormônios ou outras drogas. Os resultados que temos aí parecem artificializados através dessas substâncias e isto não pode servir de parâmetro para a história da fisiologia humana – se é que alguém busca algum estudo científico nas olimpíadas.

Vencem os que usam drogas cada vez mais elaboradas, recebem preparação especialíssima e são criados em viveiros com finalidade predeterminada. Como os nadadores. Li, numa reportagem sobre o Ian Thorpe, o australiano, que as drogas que tomava para reforçar sua massa muscular lhe davam aquelas feições de rosto e nariz compridos. Passei a perceber que com outros nadadores ocorre o mesmo. Daqui a uns tempos vai ser difícil distingui-los quando estiverem juntos no tablado de largada.

No final, a sensação de que foram quebrados mais recordes mas, pelos métodos empregados, que os novos limites superados foram sempre os artificiais e não os naturais do homem. Apesar de não se poder esquecer do treinamento a que se dedicam.

De resto, devo um pedido de desculpas ao meu filho. Sempre procuramos educar nossos num clima de absoluta sinceridade. Mesmo quando ele teve que tomar uma benzetacil e perguntou se ia doer eu respondi que sim, e bastante.

Quando contava com 8 ou 9 anos de idade me fez uma pergunta que só da mente infantil pode brotar:

– Pai. Existe anão gigante?

Respondi que não, que seria um contra-senso, um anão gigante seria uma pessoa adulta normal.

Mas numa prova de levantamento de pesos vi um anão gigante oriental, não sei de que país, lutando contra seus flatos para erguer os halteres. Não deve ter passado das provas preliminares, porque não mais apareceu.

Então, meu filho, segue a retificação e o meu pedido de desculpas, embora com 10 ou 11 anos de atraso: anão gigante existe.





Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 26/08/2004, tempo de Olimpíadas em Atenas, Grécia.

31/10/2007

SONHOS, de Akira Kurosawa

Há filmes mais ou menos marcantes e isto depende muito da personalidade e do sentimento de cada um.

Quando vi SONHOS, de Akira Kurosawa, meus conceitos sobre a sétima arte se alteraram profundamente e percebi, com muita clareza, que Hollywood é principalmente uma fábrica de filmes e não de cinema.

Dividido em oito episódios, nem todos guardam a mesma qualidade e um ou dois, mesmo, chegam às raias da pieguice (como Monte Fuji em Vermelho, sobre explosões nucleares tendo como fundo o Monte Fuji). Mas não deixa de ser um alerta sobre uma possibilidade chocante e, esta sim, nada piegas.

O Pomar de Pêssegos é uma instigante incursão nos mistérios da mente infantil: um menino febril segue uma menina que não existe, mas que viu na companhia de suas irmãs, e chega aos fundos da residência onde outrora existia uma plantação de pêssegos, derrubada pela família, e é julgado pelos espíritos das árvores...

É um verdadeiro achado, no capítulo Corvos, sobre Van Gogh, a justificativa do pintor sobre a extirpação da própria orelha, e que demonstra, na visão do diretor, que todo o sacrifício é válido por amor à arte.

A poesia de O Povoado dos Moinhos é comovedora e a fotografia e a própria música sobressaem — principalmente uma, singela e percussiva, que abrilhanta um funeral sereno e festivo, incompreensível para os ocidentais —, talvez superiores mesmo aos diálogos, nem por isto menos importantes. Cinema é uma arte visual e as tomadas dessa seqüência são magníficas.

Mas o episódio mais inquietante e profundo é, a meu ver, O Túnel, sobre o soldado que, a caminho do lar de seus pais, precisa ser convencido de que, com seus companheiros, foi morto numa batalha em que o único sobrevivente foi seu comandante.

Poderá haver algo mais aterrador do que alguém precisar ser convencido de que está morto?




Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 19/06/2004.

28/10/2007

DAIANE E OS CHORÕES

Noutro dia estava defronte à tv manuseando esse aparelho que, sem dúvida nenhuma, é um dos mais importantes da era da comunicação de massas: o controle remoto.

Vi o Alexandre Frota chorando. Não sei porque, pois mudei de canal. Mas imagino que tenha feito alguma coisa do mal, senão não faria sentido. O pranto, em certas fachadas, soa surrealista como a maquiagem triste na cara alegre de um palhaço.

Noutra ocasião vi o Romário lacrimejando. Também ignoro os motivos. Acho que foi por não ter sido, mais uma vez e injustamente, segundo ele, convocado para a seleção. Foi na Globo.

O Pelé é um chorão contumaz. Não pode ver um microfone que já vai se debulhando. Se eu fosse um comediante impediria o Pelé de entrar nos meus shows. Acho que até piadas lhe provocam lágrimas.

Não há nada que desabone a dignidade de um homem que chora, independentemente de sua corporatura. Mas não é preciso chorar sempre ou por ninharia. Isto desmoraliza o instituto emocional do pranto.

Já a nossa querida Daiane, que teria motivos muito mais do que os desses aí somados, não vai chorar. Não por falta de provocações. Numa entrevista ela foi tetra-assediada (veja aqui).

Acho que o assédio lacrimal, assim como o sexual, deveria ser elevado à categoria de crime. Ou, pelo menos, de contravenção – sem querer, obviamente, censurar a imprensa.

Mas ela desenganou repórteres de rapina lacrimal:

"Eu não entendo essa coisa de chorar. Claro que fiquei com raiva. Você acha que não fiquei com raiva? Não foi raiva de ninguém, mas de mim mesma: poxa, quem errou fui eu. Eu sabia que poderia ter conseguido e não consegui uma medalha. E você sabe o quanto isso é importante não só para você, mas para milhares de pessoas que estão te assistindo e milhares de pessoas que trabalharam com você. Mas, mais importante do que para todo mundo, é para você que treinou. Imagine como você se sente, se poderia ter sido campeã olímpica e não foi? Óbvio, eu poderia ter me derretido chorando, mas não, não chorei. (...) Estou com muita raiva mesmo, estou puta da cara porque não consegui, mas não vou chorar, e acho que é mais porque as pessoas querem que eu chore. E eu não vou chorar e acabou".

Ela mede só 1,45 m. Mas cresce alguns metros quando dá essas lições. Atentem: ela vai fazer escola e ser logo imitada...

Disso tudo, temo duas coisas: que o Lula edite uma medida provisória obrigando-a a chorar ou que seja colocada no limbo e não mais entrevistada. Como disse outro dia, a televisão não gosta de gente autêntica. Na busca do emocionar, emocionar e emocionar o objeto do repórter tem que derramar lágrimas.

Para evitar isto, sugiro que o próximo entrevistador a assediar a Daiane use um microfone com essência bem forte de cebola. Talvez então ela chore, ainda que não naturalmente.

Se o repórter também chorar a emoção será dobrada. Quem sabe renda pontos no ibope e abra caminho para uma nova modalidade midiática: o choro conjunto e participativo. Entrevistador e entrevistado poderiam se abraçar e chorar copiosamente.

Haja coração!

Se acatarem a idéia, dispenso os royalties. Hoje estou muito generoso e disposto a colaborar desprendidamente para o sucesso alheio.



Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 28/08/2004.

25/10/2007

OUTROS terão...

[552] - 13-1-1920
Fernando Pessoa



OUTROS terão
Um lar, quem saiba, amor, paz, um amigo.
A inteira, negra e fria solidão
Está comigo.

A outros talvez
Há alguma coisa quente, igual, afim
No mundo real. Não chega nunca a vez
Para mim.

“Que importa?”
Digo, mas só Deus sabe que o não creio.
Nem um casual mendigo à minha porta
Sentar-se veio.

“Quem tem de ser?”
Não sofre menos quem o reconhece.
Sofre quem finge desprezar sofrer
Pois não esquece.

Isto até quando?
Só tenho por consolação
Que os olhos se me vão acostumando
À escuridão.




Fernando Pessoa
Poesias Coligidas – Inéditas (1919-1935)
in Fernando Pessoa,
Obra Poética, página 494,
Companhia José Aguilar Editora (1974).

21/10/2007

Uma História de Vida?

Eu nasci em junho e entrei na aula com seis anos. Sempre fui muito estudioso. No segundo ano do Primário tirei o 1.º lugar do colégio inteiro e recebi, como prêmios, o direito de assinar o Livro de Ouro e o livro Ben-Hur em edição condensada.

Os professores me elogiavam e os que ainda vivem devem estar frustrados com minhas realizações. Sei que esperavam muito mais. Como disse outro dia, eu poderia ter sido presidente da República, mas – e olho para as mãos – continuo com os dez dedos íntegros.

Num aspecto a vida me acostumou mal: fui, por muitos anos, sempre o aluno mais novo da turma.

Completei o 4.º ano com 10 anos e tive que cursar o 5.º, ou Admissão, porque só poderia entrar no Ginásio com 11 completos. Por sugestão de um inspetor escolar meu pai me internou no Colégio Dom Bosco, de Rio do Sul. No 1.º ano do Ginásio lá estava como o mais novo da classe.

Mas no 2.º, a decepção. Vi quando ele entrou na sala. Uma criaturazinha desprezível, pequena, cara de rato branco, raquítica. Logo pensei: é mais novo do que eu. E era. Foi a primeira frustração de minha vida. Depois descobri que ele nascera apenas 9 dias antes de mim. Certamente um prematuro. Nem fiz bem o restante do Ginásio, apenas o suficiente para passar.

Já no Magistério voltei a me aplicar, até para impressionar a Ieda, que estudava comigo. Elaborei um jornalzinho mimeografado que não passou da segunda edição porque critiquei o Prefeito Municipal que queria expulsar a ACARESC de Taió. Quase que o expulso fui eu. Até meu pai foi contra mim. Meu pai nunca quis que eu fosse advogado ou aviador. Fui advogado. Talvez tenha sido uma vingança inconsciente.

Na Faculdade de Direito era um dos mais novos. Nada demais. Lembro dos mais velhos, uns policiais federais que – comentava-se à boca pequena, mas pequena mesmo – entravam na universidade sem prestar Vestibular. Não sei se para aprimorar seus conhecimentos humanísticos ou para vigiar a política estudantil da época. No Básico estudou comigo um elemento perigosíssimo, terrorista cruel e visionário que já fora preso em Ibiúna. Depois se formou em História, foi professor da UFSC, candidato a senador e hoje é aposentado e tem casa na Barra da Lagoa. Mas, pelo que sei, não anda por lá de sunga de crochê. Acho que ele era vigiado de perto.

Formado, de volta a Taió, fui o advogado mais novo da Comarca. Mas então não considerava isto uma honra expressiva porque éramos apenas três...

Quando ingressei na Magistratura era um dos mais jovens juízes do Estado. Então algo foi mudando. Ser juiz seria a minha vida. Findou a era da provisoriedade e chegou a do definitivo. Em poucos anos havia dezenas de juízes mais novos. Comecei a envelhecer.

Foi duro, como desembargador, descobrir que, depois de algum tempo, não passava de uma mera expectativa de vaga para os que vinham depois.

Mas o pior sinal desse processo inexorável foi quando, em Santa Catarina, encontrei uma moça conhecida e fui cumprimentá-la efusivamente, com o peito inchado de euforia, e descobri que ela era filha daquela que eu pensava estar cumprimentando...

Semana passada mais um golpe: recebi um convite para participar do programa do jornalista Joabel Pereira, o “Justiça Gaúcha: Histórias de Vida”. O nome dispensa explicações. Geralmente eles convidam pensando: “Vamos fazer logo antes que o cara, aquele, morra”.

Quis desconversar, disse que fui um juiz comum, sempre afastado da mídia, que inventei até uma viagem ao Recife, em 1986, para driblar o Lauro Quadros que queria uma entrevista sobre a sentença do beijo – ele foi mais obstinado que cavalo de padeiro e aguardou o meu falso retorno – mas não adiantou! A Marta, a simpática assessora do Joabel, me convenceu.

Afinal – pensei conformado – quem conta com 35 anos de idade tem alguma coisa a dizer. Senão não estaria escrevendo este blog.





Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi, em 10/09/2004.