11/11/2007

SAINT-EXUPÉRY, PILOTO DE GUERRA

Antoine de Saint-Exupéry foi escritor muito além do estigma de O Pequeno Príncipe, depreciado no Brasil por ser considerado o livro das misses. Garanto que é um bom livro e que vale à pena ser lido e relido.

Abaixo, trecho de Piloto de Guerra (a causa perdida da França no que ela tem de humano, de heróico e de burlesco), que escreveu durante a II Guerra Mundial, em que ele tece considerações sobre a preparação para mais uma das missões aéreas que julgava inúteis, na França dominada.

Ele era escritor e piloto consagrado e por sua idade fora aconselhado a se afastar do campo de operações, mas não lhe agradava a situação de espectador: Que sou eu se não participo?

"O Comandante Alias passa a noite em casa do General a discutir lógica pura. A lógica pura arruína a vida do espírito. Depois, uma vez na estrada, esgotou-se em intermináveis engarrafamentos. Depois encontrou, ao regressar ao Grupo, centenas de dificuldades materiais, daquelas que nos roem pouco a pouco como os inúmeros efeitos de um desmoronamento de montanha que não fôssemos capazes de conter. E, por fim, convocou-nos para nos lançar numa missão impossível. Somos objecto da incoerência geral. Não somos para ele Saint-Exupéry ou Dutertre, dotados de uma maneira particular de ver as coisas ou de não as ver, de pensar, de andar, de beber, de sorrir. Somos partes de um grande edifício cujo conjunto necessita de mais tempo, mais silêncio e mais projecção para se descobrir. Se eu padecesse de um tic, Alias só repararia no tic. E só expediria para Arras a imagem de um tic. No meio da algaraviada dos problemas postos, no meio da derrocada, dividimo-nos a nós próprios em bocados. Esta voz. Este nariz. Este tic. E os bocados não tocam no coração.

E aqui já não se trata de um Comandante Alias, mas de todos os homens. No decurso dos trabalhos de enterro, nós, que amávamos o morto, não nos sentimos em contacto com a morte. A morte é uma coisa importante. É uma nova rede de relações com as idéias, com os objectos, com os hábitos do morto. É um novo arranjo do mundo. Nada mudou na aparência, mas tudo mudou na realidade. As páginas do livro são as mesmas, mas não é o mesmo o sentido do livro. Para sentirmos a morte, precisamos de imaginar as horas em que temos necessidade do morto. É então que ele falta. Imaginar as horas em que teria tido necessidade de nós. Mas ele já não tem necessidade de nós. Imaginar a hora da visita amiga. E, descobri-la, dói. Precisamos de ver a vida com perspectiva. Mas não há perspectiva nem espaço no dia em que o enterramos. O morto está ainda em pedaços. No dia em que o enterraram, dispersamo-nos em impaciências, nas mãos de amigos verdadeiros ou falsos a apertar, em preocupações materiais. O morto só amanhã morrerá, quando houver silêncio. Só então se nos mostrará na sua plenitude, para se arrancar, na sua plenitude à nossa substância. Nessa altura, havemos de gritar que parte sem nós o podermos impedir.

Não gosto das imagens de Epinal relativas à guerra. Deparamos, aí, com um guerreiro rude, que esconde uma lágrima e dissimula a sua emoção com ditos grosseirões. Tudo isso é falso. O rude guerreiro não dissimula nada. Se deixa cair uma grosseria é porque realmente pensa numa grosseria.

A qualidade do homem não se encontra em causa. O Comandante Alias é sensível como qualquer outra pessoa. Se nós não voltarmos sofrerá talvez mais do que os outros. Com a condição de que se trate de nós e não de um somatório de pormenores diversos. Com a condição de que esta reconstituição lhe seja permitida pelo silêncio. Porque, se esta mesma noite, o meirinho que nos persegue obrigar mais uma vez o Grupo a mudar de poiso ou uma roda de um camião se avariar, na avalanche dos problemas há-de adiar para mais tarde a nossa morte. E Alias esquecer-se-á de sofrer com ela.

E é desta maneira que eu, que parto em missão, não penso na luta do Ocidente contra o nazismo. Penso pormenores imediatos, penso em como absurdo é sobrevoar Arras a setecentos metros. Na fragilidade das informações que desejam de nós. Penso ainda na lentidão com que me visto, nessa toilette que se me afigura uma toilette para o carrasco. E depois penso nas minhas luvas. Onde é que diabo vou encontrar as minhas luvas? Querem ver que perdi as luvas!

Não consigo ver a catedral onde moro.

Estou a vestir-me para o serviço de um deus morto".



Saint-Exupéry,
in Piloto de Guerra,
Editorial Aster – Lisboa, 7.ª edição, págs. 25/27.

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