02/11/2020

VIVA LA MUERTE!

Há algum tempo vi um filme em preto e branco em que os personagens acabam no México, em pleno carnaval. Bem, carnaval era o que eu pensava. Havia música, desfile, fantasias (que achei um tanto macabras), mas o desenrolar me esclareceu que se comemorava el dia de los muertos.

Os mexicanos, principalmente os nativos, entre o fim de outubro e início de novembro recebem seus parentes e amigos falecidos que voltam à terra para confraternizar. Não sei como se dá, exatamente, esse encontro mas, em todos os casos, revela uma faceta peculiar de se encarar a Velha-da-Foice que está numa das esquinas, aí pela frente, esperando cada um de nós para o seu rebanho.

O escritor mexicano, Nobel de Literatura, Octavio Paz disse: A morte não nos assusta porque a vida já nos curou dos medos. E: A confusão incongruente de atos, arrependimentos e esperanças, que é a vida de cada um de nós, encontra na morte não sentido ou explicação, mas um fim.

Essa tradição pré-hispânica não tem origens claras e perdeu genuinidade com a intervenção da Igreja Católica, sempre pronta a impor sua crença a ferro e fogo e muita morte, não tão bem humorada. Houve necessárias adaptações.

Simone Andréa Carvalho da Silva, coletando dados para sua tese de doutorado, escreveu interessante artigo numa revista Planeta:

A familiaridade com que o mexicano trata a morte não o isenta de temê-la, mas o ajuda a conviver e sobreviver a esse medo. Desde cedo as crianças devoram avidamente as caveirinhas feitas de açúcar, bala de goma, chocolate ou amaranto, pães dos mortos e todo tipo de guloseimas servido a um fausto banquete de vivos e mortos. Assim, acostumam-se ao contato com uma morte brincalhona e companheira, personificada em bonecos-caveiras de papel machê.

A vinda dos mortos é disciplinada. No dia 30/10 voltam os suicidas, no dia 31, os acidentados, em 1.º de novembro as crianças e dia 2 os adultos. Coloca-se uma jarra de água e uma tolha na entrada da casa para o morto se refrescar de sua longa viagem ao mundo dos vivos. Nos banquetes, os falecidos têm preferência e se servem primeiro.

Há dança, música, representações teatrais, concursos de altares, comilança e beberagem. E um costume que acho que seria aplicável com muita propriedade no Brasil: as calaveras políticas, tradição que consiste em escrever epitáfios humorísticos de políticos e pessoas públicas.

Não me contive e escrevi alguns. Lula: Foi presidente do Brasil e nunca soube. Zé Dirceu: Morreu antes de ter morrido. Olívio Dutra: Aqui se espraiam os restos da minha cidadania. Teria outros, mas o espaço é curto.

No final do fandango os mortos voltam a seus lugares. Os vivos os acompanham para evitar que fiquem vagando para sempre neste mundo cruel ao qual, certamente, não mais se adaptariam. Pois, como dizem lá: ao vivo, tudo lhe falta; ao morto, tudo lhe sobra.



Publicado no blog antigo em 02/11/2005

 

08/07/2020

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Ilton Carlos Dellandréa      

Protestos estudantis no mundo inteiro.
A Revolução dos Jovens!
hoje velhos conformados.
O caos, a mudança, uma nova ordem
tão arcaica quanto a primeira
  e os sonhos inacabados.

Martin Luther King:
a noite ficou mais brilhante,
mais uma estrela no céu
e um diamante na fronte.

A Primavera de Praga:
os tanques pisando em flores,
as ruas silenciosas
redesenhadas sem cores.

Vietnã do Norte:
o engodo apoteótico da vida
capitulando à morte.

Tropicalismo e AI-5!
Inconformismo dualista
de um país de verdades-mentiras
que se convergem nas mentes:
mesmos felinos traiçoeiros,
de olhos ruins,
de bocas tortas,
ron-ros-nando,
arreganhando dentes.

Nunca perdoarei Zuenir!

Ah! as precipitações insondáveis
dos que não escrevem o amor,
dos que se levam a sério
e esquecem das verdades simples.

As coisas grandes da vida
são coisas pequenas na Arte:
1968 não terminou
simplesmente porque tu partiste.
E nunca voltaste.

04/04/2020

EM BRASÍLIA SEM LULA, MAS COM GLAUCO E FAMILIARES


Definitivamente, estive em Brasília e saí do aeroporto. A imagem aí em cima é prova cabal disto. Quem não vai ao Bar Brasília nem come as trufas da dona Cirônia jamais poderá dizer que esteve lá. Mesmo que encontre Lula e todo o seu staff, o secreto e o visível.
Fomos recebidos – a Ieda e eu – pelo Glauco e por meu genro. Este levou nossas malas para o apartamento e o Glauco levou as outras, digo, levou-nos a um tour pela Capital no seu carro especialmente preparado para nos receber, reluzente a ponto de produzir nas nuvens da cidade o reflexo iridescente captado abaixo.  Aliás, o céu de Brasília é de um azul magnífico, daqueles que você não precisa regular a máquina fotográfica para ele parecer realmente azul.
Visitamos o memorial JK, passamos pela Esplanada dos Mistérios – onde se enfileiram os enigmáticos ministérios criados para resolver nada, exceto aquilo que se resolve sem intervenção governamental – e, finalmente, a Praça dos Três Poderes. Peguei no cabo da espada da Themis e o Glauco me fotografou para que meus descendentes tenham uma prova de que fui magistrado. 
A Themis – para quem não lembra, a deusa grega símbolo da Justiça, com venda nos olhos e segurando uma balança na mão esquerda e uma espada na direita – me pareceu tristonha e aflita: está sentada e com a espada estendida no colo, sem demonstrar intenção de usá-la adequadamente. A balança, ao que consta, foi furtada. Acho que aí reside a principal causa da impunidade no Brasil.
Depois, com meu genro, fomos ao Bar Brasília, do luminoso lá em cima. Foi desenhado pelo Ziraldo. Petiscamos e, logo em seguida, partimos para o que foi a principal e mais aconchegante atividade do dia.
Gosto de encontros pessoais mais do que de lugares. Por isto, cientificado que depois conheceríamos a mãe do Glauco e sua irmã, suportei com satisfação o passeio pela cidade.
Fomos à casa do Glauco para a sobremesa. Foi uma recepção calorosa. Lídia Valéria, a mãe dele, é uma senhora agradabilíssima. Nem havíamos entrado na residência e já nos sentíamos íntimos, no bom sentido. Sua irmã, Stella, que é médica renomada no ramo da Eletrocardiografia, chegou logo depois e me senti mais tranqüilo (ela é muito bonita e mais, por discrição, não digo).
Ofereceram-nos os doces da dona Cirônia, entre eles trufas generosas e lindíssimas. Fui polidamente mal-educado recusando prová-las porque evito, à noite, alimentos estimulantes, como o chocolate. Mas experimentei outros doces. Minha má educação aumentou quando o Glauco preparou, na hora, taças de um café expresso que me pareceu muito saboroso. A Ieda e meu genro confirmaram. Mas consegui me recuperar da falta de educação, sendo mais mal-educado ainda: aceitei algumas trufas, levei-as para o apartamento à moda farnel, e provei-as no dia seguinte. Caso contrário, não poderia atestar sua excelente qualidade. 
Lula não encontrei, apesar de o Glauco ter comentado o contrário no post anterior. Intriga! Ele deve ter um sentimento latente de simpatia pelo Lula e está tentando transferir responsabilidades.
O Glauco fez uma observação muito adequada quando estávamos na Praça dos Três Poderes: quem vê a beleza peculiar de Brasília chega a esquecer as trampolinagens que lá acontecem. É algo que nem o PT conseguiu estragar.
Foi bom não ter encontrado Lula. Nada estragou o meu dia, ou meio-dia, como queiram, que foi maravilhoso do jeito que foi. Ele não estava em Brasília, mas num de seus comícios no Rio. O que confirma o que é voz corrente por lá: se você quiser encontrar o presidente, fique na sua cidade que mais hora menos hora ele aparece.
Estou pensando em transferir residência para Brasília...



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 28/02/2008

08/03/2020

PARABÉNS, MULHERES!


Hoje é o dia de vocês, assim como foi ontem e como será amanhã. Mas hoje é diferente: hoje se comemora o dia de vocês.
Bem feito! Quem precisa de um dia comemorativo é porque nos outros dias é esquecido.
Não! Não é bem assim, é assim só um pouco. Como o dia das Mães. Como o Natal. Como a Páscoa. Como o dia dos pobres, isto é, dos aposentados.
O dia dos aposentados existe. Não se criou até hoje um dia dos pobres, especialmente dedicado a eles (o dos aposentados não supre a omissão), por falta de perspectiva de retorno financeiro. Qual é o rico que vai comprar presentes para dar aos pobres? Rico não paga nem salário decente às empregadas domésticas ou aos empregados de suas empresas, quando mais dar um extra no dia dos pobres.
Dia dos ricos também não existe. Como um rico iria comemorar um dia só deles? Só se fizessem demonstrações públicas de riso à toa! Eles não precisam disto. Já têm tudo o que nós, mortais comuns, julgamos necessidades básicas e não básicas, e riem à toa, vivem de férias, e se incomodam, é claro. Mas eu trocaria a metade dos incômodos de um Bill Gates, por exemplo, pelo dobro de sua fortuna. Sem pensar duas vezes.
Os ricos, principalmente os da indústria e comércio, precisam de datas comemorativas de todo mundo para faturar ainda mais.
Mas como sou muito comum e sem criatividade vou embarcar nessa onda comercialista e deixar aqui um beijo homenageando todas as mulheres do mundo, mesmo aquelas que não têm nada com isto.
Peço que cada uma, no seu íntimo, receba este cumprimento de acordo com suas crenças, seus sentimentos e o que pensa disto tudo. Estou fazendo de conta que todas aniversariam hoje. O aniversário é uma data legítima para parabenizar alguém.
Então, além do beijo, meus parabéns pelo Dia Internacional da Mulher. Que ele se repita todos os dias! Tenham certeza de que vocês merecem muito mais do que isto.

28/02/2020

UM MONGE

Ilton Carlos Dellandréa





Ontem, quando te vi,
na Praça da Matriz,
com tua roupa branca,
teus cabelos brancos e reluzentes
puxados para trás,
teus dedos brancos
e sapatos enormes, pretos,
tive pena de ti.

Tua batina branca colada ao corpo branco
e magro,
larga demais e engomada:
não sei se eras anjo
ou alma penada.

Tive pena de ti,
pelos cinquenta anos que passaste
longe da vida profana.

Tristonho como um avô sem netos,
os olhos macios, os passos retos,
lentos e firmes,
não sei se eras mundano
ou sublime.

Ontem, quando te vi,
na Praça da Matriz,
branco em tudo, menos nos sapatos,
tive inveja de ti,
pelo meio século que passaste na serenidade
da tua vida sacerdotal.

Não sei se és santo,
ou anormal.

Nem se nos espera a mesma Eternidade. 



 (Porto Alegre, 02 de abril de 1982).
 (Taquara, 25 de novembro de 1987)

24/02/2020

EM ALGUM LUGAR DO NORTE DISTANTE E SELVAGEM








O que aconteceu com o riso,
Com as fogueiras que as moças acendiam às vésperas
das celebrações de verão?
Onde estão os vilarejos ucranianos
E os pomares de frutas das residências? 
Tudo desapareceu num fogo voraz
Mães devoram os filhos;
Loucos andam vendendo carne humana
Nos mercados.



Oleksa Veretenchenko,
“Somewhere in the Distant Wild North”, da série de poemas 1933,
publicada em Nova Ukraïna entre 1942 e 1943,
traduzida pelo Congresso Canadense-Ucraniano, Filial de Toronto.


Extraído do livro de Applebaum, Anne. 
A Fome Vermelha: A Guerra de Stalin na Ucrânia. 
Record. Edição do Kindle.


17/02/2020

A CRUZ

Mykola Rudenko



O milho começa a madurar
Mas — e seu cabelo se eriça na extremidade —
Poucos sobreviveram
Para ver a nova safra.
Ele não vai pegar no sono até amanhecer...
Então sua mãe se aproxima
E diz com tristeza
“Meu filho, hora de acordar,
O sol já se levantou sobre os campos
Não podemos ficar em paz em nossas sepulturas
A nós, os mortos, não cabe descansar.
Quem vai cuidar dos preciosos cabelos das espigas
Nos campos, querido filho?” 




Mykola Rudenko, “The Cross” [A cruz], 1976 trad. Marco Carynnyk,
em Wasyl Hryshko, The Ukrainian Holocaust of 1933
(Toronto: Bahriany Foundation, 1983), 135-36. 

Transcrito do livro de Applebaum, Anne,
A Fome Vermelha: A Guerra de Stalin na Ucrânia. Record. Edição do Kindle.

31/08/2010

Olhar desperto

Alberto Cohen


Desejo ser ladrão ou justiceiro,
de algum jeito total, definitivo,
de bom, de mau, mas que me faça inteiro,
um monstro, um santo, que inda está bem vivo.
E ver as coisas que podem ser minhas,
e as minhas coisas que há muito não vejo,
todas aquelas coisas que sozinhas
esperam ser roubadas para um beijo,
ou apenas notadas tão vizinhas.
Desejo ser a vida observando
tudo, tudo que o mundo nos oferta,
um ladrão que somente vai roubando,
ou santo cujo olhar enfim desperta.
 
,

13/11/2009

EVOLUÇÃO SOCIAL

CERTAS MODIFICAÇÕES SOCIAIS DÃO O QUE PENSAR



Estranhas as transformações por que passa o mundo e mais estranha ainda a forma de as pessoas encararem certos fatos hoje. E as formas de se ganhar dinheiro também se modificaram substancialmente.

A Cicarelli e o namorado foram filmados fazendo sexo numa praia. Ficou por isto mesmo. Estavam trepando, mas se diz que faziam amor (Ah, o amor! Está na hora de alguém ensinar a essa gente que amor se sente e se vive e não se fabrica mecanicamente como uma masturbação a dois). A liberalidade do brasileiro admite essas coisas como permitirá, em breve, macacos nas praias, como mostra o filme Turistas que estão querendo boicotar porque mostra um Brasil mais real que o real e isto revolta a nós, habitantes desta honrada e cristalina Nação.

Isto se os macacos concordarem e suportarem a sujeira que os humanos fazem nas praias, como os que entram na água só para dar uma mijadinha, sem contar os esgotos a céu aberto, sabugos de milho verde, latinhas de cerveja, cocô de cachorro (se estes são admitidos e exibidos por seus donos, por que não macacos?), etc.

Mas o caso da Cicarelli e do namorado é inusitado. Ou não? Acho que não. Mas eu, se sair pelado na rua aqui no recantozinho do meu bairro, serei processado no mínimo por ultraje público ao pudor. Por quê? Porque com 55 anos, gordo, meio careca e nu na via pública minha conduta só poderia mesmo ser considerada indecorosa. Já a Cicarelli e o namorado são aceitáveis porque são bonitos e podem praticar um falso naturismo numa praia pública.

Agora a Juliana Paes vai processar o fotógrafo Marcelo Pereira porque ele bateu uma foto dela sem calcinha. Ela usava uma saia curtinha e deve ter tomado a cautela necessária para mostrar exatamente aquilo que o fotógrafo fotografou. A coisa está ficando cabeluda para o lado dele que é acusado de montagem fotográfica. Montagem, nesse assunto, é bom.

Pode até ser e então o fato será efetivamente grave e autoriza à sem calcinha com calcinha processar aquele que viu o que estava sendo exposto por debaixo do pano porque os paparazzi existem mesmo para amolar as pessoas batendo fotos delas em situações quanto mais embaraçosas melhor.

Mas para a dona do Bar da Boa, que já exibiu a bunda em comerciais de cerveja – só faltou mostrar mesmo aquilo que o jornalista fotografou ou montou – andar sem calcinha parece natural. Bater a foto, que não é nada indecente, é antinatural. Uma tendência geral: o crime não é comprar o dossiê de Cuiabá, é mostrar o dinheiro apreendido... Uma coisa bem petista. E eu ainda me impressiono com essas mudanças... Sou muito ingênuo.

E se o baixinho da Kaiser resolver andar só de cuecas, daquelas abertas na frente (acho que combina com o tipo dele) e o pingolim saltar e alguém bater uma foto, quem vai ser processado? Ele ou o fotógrafo? É uma incógnita. Eu que lidei com o Direito a vida inteira, a estas alturas nem sei se valorizo mais Código de Ética do PT ou a Constituição Federal. Aquele, pelo menos, é estável.

Na verdade, tudo depende do dinheiro e cada um vai ganhando dinheiro como pode. As celebridades bonitas posam nuas para a Playboy em posições ginecológicas e isto é normal. Fotografar casais que buscam publicidade fazendo sexo na praia, não.

A Juliana Paes disse que, se ganhar a ação, vai doar o dinheiro para o Retiro dos Artistas. Uma boa ação. Mas um velhinho, lá, entrevistado pelo Jus, disse que preferia ver a foto mesmo. Até para tentar se lembrar para que serve a anatomia fotografada.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 05/12/2006.
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10/10/2009

MINHA VIDA DE PRESO, DIGO, DE APOSENTADO

Estou frustrado com a condição de aposentado. Minha cidadania foi atingida cruel e impiedosamente. Até um preso tem mais direitos do que eu. É só conferir os artigos 38 a 43 da Lei de Execuções Penais que tratam dos deveres e dos direitos do preso. Confiram, para ver se não estou falando a verdade. Os regulamentos dos presídios lhes dão ainda mais benefícios.

Agora eles estão exercendo um não previsto na lei: o de fazer greve, uma greve de fome porque, ao que parece, estão descontentes com o reforço na segurança penitenciária. Eles têm direito a três refeições por dia e outros benefícios que não tenho e se queixam da segurança.

Eu estou doido para que reforcem a segurança do meu bairro. Na madrugada de domingo larápios furtaram um segmento de fio-de-cobre que transmitia energia elétrica para minha casa e fiquei pendurado numa fase só e vândalos derrubaram uma placa de sinalização na esquina.

Mas se fizer greve de fome serei ridicularizado. Seria como a do senador Paulo Paim, há alguns anos, quando o salário-mínimo contrariou suas expectativas. Durou cerca de duas horas. E ainda mais ridícula que a do Garotinho, que no início do ano fez greve de fome para merecer melhor atenção da imprensa que, segundo ele, o tratava de forma injusta.

Não posso dizer que ele estava errado na causa. A imprensa às vezes é injusta, mas os donos de jornais e os jornalistas, numa greve de fome contra eles, torcem para que ela continue e se o grevista morrer terão assunto para abastecer seus veículos por um ou dois dias. Talvez três.

Quanto à greve dos presos fico ainda mais frustrado vendo que eles podem se alimentar de bolachas e açúcar sem ser acusados de furar a greve (
aqui). Eles foram flagrados nessa situação, inclusive o Marcola. É uma greve de fome branca – e o pão e o açúcar estão aí para reforçar a idéia.

Eu deveria tentar o mesmo. Comendo apenas o necessário para sobreviver, talvez emagrecesse. Mas então minha greve seria considerada uma simples dieta de emagrecimento e, por isto, improdutiva. Meu cardiologista ficaria satisfeito, principalmente agora que ele comprou uma balança nova, sofisticada, digital, que aguçou o meu espírito consumista.

(Sou assim: não fumo, mas vejo em bazares isqueiros tão bonitos, com design sofisticado e atraente, que tenho vontade de fumar só para me exibir com um deles. Também não me peso, mas a balança do meu médico é uma beleza. Vou comprar uma nem que seja para decorar a mesa de centro da sala de estar. Ela tem estilo e servirá de apoio para copos. Poderei controlar quantos quilos de bebida meus convidados ingerem).

Os aposentados vivem – digamos assim – em estado permanente de inércia compulsória, embora haja os que façam bicos aqui e ali por absoluta necessidade financeira. Mas cogitar de voltar a trabalhar como greve para melhorar vencimentos é um absoluto contra-senso.

Já uma greve de fome de aposentados seria tudo o que o Governo gostaria que ocorresse: a maioria é idosa e adoentada, não resistiria muito tempo e morreria, contribuindo para reduzir consideravelmente o déficit da Previdência Social.

Agora estão defendendo o direito de preso votar (
aqui), através de mais um remendo, digo, de mais uma emenda constitucional. Se aprovarem a medida, os aposentados estaremos em posição de definitiva genuflexão social. Porque, como os presos, não trabalhamos, vivemos trancados em casa (ao contrário deles, não temos segurança, nem simples nem reforçada), compramos nossa própria comida e nos é subtraído o direito de fazer greve (da branca ou da outra), entre outras diferenças e semelhanças, sempre favoráveis a eles.

Só falta nos proibirem de votar.


Publicado, originalmente, no blog
Jus Sperniandi,
em 14/11/2006.
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03/10/2009

MAIS UM CAPÍTULO DE MINHA BRIGA COM A BALANÇA

O hábito de comer mais frutas e vegetais e de fazer exercícios físicos pode aumentar a expectativa de vida de uma pessoa em até 12 anos, segundo um estudo feito pela Universidade de Cambridge (aqui).

Só? Estou decepcionado. Pensei que a observância dessas e de outras regras que todos os dias jogam – hoje não estou propenso à escatologia – na nossa cabeça, se não nos desse a vida quase eterna, pelo menos nos levasse a viver aproximadamente, na contagem moderna, o tempo que viveu Matusalém (a vida – ou não-vida – eterna já nos está naturalmente assegurada).

Claro. Não há hoje quem viva tanto quanto Matusalém viveu. Mas eu acreditava que isto se devia exatamente ao fato de a maioria das pessoas não observar bons hábitos alimentares. Ninguém é lúcido o suficiente para se alimentar somente de frutas e vegetais. É preciso uma adequada mistura de carboidratos e de suculências como, por exemplo, uma picanha mal passada.

A pesquisa abrangeu cerca de 22 mil pessoas, entre 45 e 79 anos. Quer dizer: mesmo os mais idosos estão na casa de 79 anos. Eu, embora fibrilado, espero chegar um pouco além do que já cheguei. Mas se seguir essas prescrições corro o risco de comemorar(?) 130 anos: não sou hipertenso, não fumo, não bebo, sou apenas semi-sedentário (estou autorizado por meu cardiologista a correr religiosamente 200 m sem barreiras por dia, em uma hora), meu colesterol está controlado – ou estava, conforme veremos. Apenas – sempre tem um apenas – sou o que o meu médico chama bondosamente de gordinho...

Há algum tempo publicaram uma pesquisa dizendo que o chocolate, em pequena quantidade, reduz o colesterol (
aqui). Mas nesta pesquisa ele – assim como o refrigerante – é impiedosamente fulminado.

O colesterol é um capítulo à parte na vida de todo gordinho. Já narrei meus dissabores com ele
aqui, em 20/12/2005 (no meio da página): sempre que conseguia baixá-lo adequadamente uma nova resolução da CUUMI (Confederação Ultra-Universal de Medicina Iatrogênica) os reduzia. Daí a minha constante dessintonia com os níveis de colesterol: a má vontade dos indicadores.

Agora mais uma: a Veja de 01/11/2206 traz uma reportagem (Bom de Coração, página 122) em que informa que para o LDL (o mau colesterol) hoje o limite aceitável é de 160 (miligramas por decilitro de sangue, e que até há pouco era de 200) para quem não apresenta outros fatores de risco.

Pior: uma equipe de pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, questiona a recomendação de que o ideal seja um LDL menor do que 70... Pior ainda: para atingir um patamar tão baixo, além da dieta balanceada e dos exercícios físicos, só mesmo recorrendo ao uso de remédios, sobretudo as estatinas.

Dieta balanceada, exercícios, peso adequado, vida regrada, não bastam: temos que ingerir remédio para ser saudáveis mesmo que não sejamos doentes.

Na minha situação a ingesta de mais um remédio seria mais maléfica que benéfica: não pelos seus efeitos, mas porque me alimento de remédios. A comida normal é apenas um complemento alimentar.

Analisei a composição das drogas que uso. Todas trazem nos excipientes (a base que segura as substâncias ativas) altas doses de amido (principalmente de milho), lactose e até glicose.

Como é que vou emagrecer ingerindo substâncias tão terrivelmente calóricas?


Publicado, originalmente, no blog Jus Sperniandi,
em 10/11/2006.

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19/09/2009

HONNI SOIT QUI MAL Y PENSE!

Ainda bem que temos bem fiscalizados, aqui no Rio Grande do Sul, a Moral e os bons costumes. O que seria de nossa televisão, dos comerciais, das novelas, dos seriados não fosse essa atividade fiscalizadora? Pornografia pura.

Mas a Idade da Luz de Néon está aí para demonstrar que qualquer mínima possibilidade de atingir esses dois conceitos está fora de cogitação.

Na Comarca de Panambi a Promotora da Infância e da Juventude, Caroline Mottecy de Oliveira, obteve liminar da Justiça impedindo a venda da Baby Assadinha, fabricada pela Cotiplás, de Laranjal Paulista (SP), destinada a crianças de 3 a 5 anos de idade (fonte: ZH de 01/11/2006, pág. 50).

A Baby Assadinha – essa voluptuosa e sensual boneca aí em cima – apresenta manchas vermelhas na região genital e sensores (atenção revisão: é sensores mesmo e não censores): quando se molha as assaduras com água quente, ela chora; com água fria, ela ri. Atenção: não se trata de miniatura daquelas bonecas infláveis vendidas em lojas especializadas.

Mas a Promotora entende que a localização dos sensores atrai a atenção das crianças para a área genital que, por isto, se concentram nessa região, estimulando precocemente sua sexualidade, “mesmo sem elas saberem”...

Quer dizer: os órgãos genitais para uma criança de 3 a 5 anos devem ser considerados algo que elas carregam mais como um peso, algo sujo, um apêndice moralmente indesejável, do que como um órgão comum que, na sua idade, só serve para uma coisa: fazer xixi que, dependendo da idade e da higiene, vai provocar assaduras reais.

As mães que têm filhos pequenos, por isto, devem evitar de passar creme ou anti-sépticos nos órgãos genitais de seus bebês na frente de outras crianças. Isto poderia aguçar-lhes, mesmo sem que elas saibam, o senso erótico e produzir – imagino – alguma tara mais tarde.

Até acho que a boneca não é muito educativa. Banhar com água fria as assaduras de um bebê não é, realmente, um bom remédio. Tampouco com água quente. E esta poderia produzir ainda o indesejável efeito de provocar queimaduras em crianças. Mas daí a dizer que essa brincadeira tenha algum cunho erótico ou de erotização há uma distância muito longa.

A psicóloga Roberta Cavalheiro Haushahn, do Serviço Sentinela – que protege crianças e adolescentes vítimas de violências física, psicológica e sexual em Panambi –, entende diversamente:

– A criança pode pensar que se para uma boneca é interessante tocar na região genital, para ela ou o coleguinha também pode ser.

O “o” coleguinha aí é que me surpreende um pouco. Quer dizer que a boneca seria destinada também a meninos? Ou que meninas que brincassem com as bonecas tentariam, depois, fazer o mesmo com meninos? Ou tudo isto estaria açulando as crianças a “brincar de médico”, algo que a Psicologia já demonstrou ser inofensivo?

Acho que está sobrando imaginação e faltando bom senso nessas conclusões. A reportagem diz que “Ana Lucia Guimarães, 47 anos, mãe de uma menina de 10 anos, é contra a proibição. Ela acha que quanto mais as crianças conhecerem o próprio corpo, melhor”. Também acho.

E me veio a mente o lema da
Ordem da Jarreteira, criada em 1348 pelo Rei da Inglaterra, Eduardo III, após incidente quando ele dançava com a amante, a Condessa de Salisbury. Em dado momento caiu a liga (jarreteira) que lhe prendia as meias. O rei juntou-a e a devolveu à dona. Percebendo manifestações e risos maliciosos dos cortesãos reagiu com a frase: Honni soit qui mal y pense, ou: “maldito seja quem mal pensar”.

Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 01/11/2006.
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11/09/2009

LIVRAI-NOS DE TODO O MAL!


(O papa da época era Bento XVI)


Santo Padre:

Esses dias Vossa Santidade falou em abolir o Limbo mas parece que desistiu. Espero que não definitivamente. Assim, crianças não batizadas e infiéis honestos que morreram sem batismo migrariam para o Céu. Acho até que há o dedo de São Pedro nessa desistência.

Sei que no céu não há computadores (se houvesse o trabalho de sua manutenção seria dantesco – o adjetivo é proposital – diante da invasão de hackers que estão no Inferno e de vírus diabólicos criados pelo Demônio que, como a Santa Igreja propaga, é mais espertinho do que gostaria que fosse).

Creio que o livro em que São Pedro anota nossas falhas para, quando chegarmos lá, apontar-nos o destino, é também virtual e de uma virtualidade celestial. Ele deve ter um cérebro tão divinamente privilegiado que não necessita de anotações para consultar na hora: sabe quem merece o que e é isto que me inquieta.

Mas acho que ele ficou "p" da vida com Vossa Santidade e reclamou diretamente com Deus, pois ele teria um trabalho super-dantesco para consultar seus alfarrábios mentais e registrar os egressos do Limbo e destinar cada um ao seu lugar no Céu.

Talvez Vossa Santidade devesse trabalhar em conjunto com ele para que fossem fornecidos dados exatos ou, vá lá, aproximados, dessa migração com detalhamento de raça, religião, idade, etc. Acho que isso é mais fácil do que encontrar a origem do dinheiro do dossiê dos meninos aloprados do PT.

Tenho dúvidas sobre sua competência em extinguir uma instituição como o Limbo. Por interessar aos do lado de lá, aos mortos, a competência, salvo melhor juízo, seria exclusiva do Santo Pai. Mas me é vedado, por sua infalibilidade, discutir a respeito. O pior é que gosto de atacar dogmas de vez em quando, como, por exemplo, o da inexpugnabilidade da urna eletrônica que contém um limbo pelo qual transitam votos antes de ser divulgados e em cujo interior podem ser dar trocas e desvios. Mas esta é outra história.

Espero que leve a ideia adiante. Sempre tive pena das crianças pobrezinhas do interior de Taió que morreram sem batismo. Vossa Santidade as redimiria de culpas que elas não têm, coitadinhas. Não posso entender recém-nascidos condenados pelo pecado do primeiro casal, há milhões de anos, que comeu o fruto proibido cooptado pela Serpente (como se percebe, é antigo o hábito de trair conceitos superiores e transferir responsabilidades).


Fui batizado e, como católico, estou sujeito à ira divina. Não estou seguro de minha destinação. O não-cristão iria para o Céu, e não mais para o Limbo, por ignorância da nossa doutrina mesmo fazendo o que consideramos errado e ele tem fé de que é certo; o cristão precisa batalhar um bocado para merecer o Paraíso. E, pelo que sei, a condenação ao Inferno não contempla a possibilidade de regime semi-aberto ou aberto. Os políticos e juristas brasileiros que estão por lá – não devem ser poucos – ainda não convenceram o Capeta a instituir a progressão de regime.


Entendo um pouco de Justiça e tenho certeza de que Vossa Santidade estaria sendo absolutamente justo se abolisse o Limbo. Acho até que deveria ser mais ousado e implementar a idéia. Tomo a liberdade, com a devida vênia, de lhe fazer uma sugestão que recolocaria cristãos e pagãos em pé de igualdade e, para não pecar contra Deus, confesso que também advogo em causa própria. Vossa Santidade passaria para a História como o papa que mais bem fez pela humanidade, permitindo-nos entender definitivamente que Cristo desceu à Terra para nos redimir (=libertar) de todos os pecados


Permito-me, por tudo isto, humildemente sugerir que Vossa Santidade, atento ao dogma de sua infalibilidade (“tudo o que desligares na Terra será desligado no Céu”), quando da retomada do processo de extinção do Limbo, aproveite e, de uma vez por todas, desligue o Inferno também.




Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 23/10/2006.

O papa da época era Bento XVI.
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05/09/2009

MAIS CONFUSÕES ALIMENTARES

Estive confabulando com o meu coração e ele está desconsolado. Chora aos soluços descompassados pois, como todos sabem, é fibrilado. Ele anda triste e confuso. Muito confuso. Não é sem razão que ele é completamente arrítmico.

Primeiro foi a crise da gordura saturada. Ele, que desde a infância estava acostumado a comidas gordurosas como nata, lingüiça frita na banha de porco ou no “azeite doce”, morcília (da branca e “da outra”) e principalmente ovos, teve que deixar de lado tudo isto e passar a ingerir algo como margarina – que no início era intragável – e alimentos leves, evitar lingüiça e principalmente a banha de porco, o azeite e as próprias frituras.

Surgiram óleos de soja, gordura vegetal, inicialmente saudados como a solução para a aterosclerose. Mas também se revelaram prejudiciais. Então o azeite Mazolla, de milho, sem colesterol, cuja marca transformou-se na própria substância. A gente, no mercado da esquina, pedia um Mazolla e já se sabia o que era. Recentemente surgiram óleos sem colesterol e se descobriu que o azeite de oliva, ao contrário dos outros, faz bem ao coração fulminando o colesterol ruim e ativando o bom (não sei até quando essa verdade vai prevalecer, mas ainda está na moda).

No tempo em que a gordura animal era um veneno admoestei meu pai, cardíaco desde os 36 anos, safenado, e já nos seus 60 anos de idade. Estava diante de um rico prato de comida e eu:

− Mas pai! Comendo isto tudo?

− Ah! − respondeu. Uma vez por dia não faz mal.

Depois do almoço, conversando a respeito ele confidenciou um tanto triste que se fosse atrás de tudo o que os médicos lhe diziam já teria morrido de fraqueza. Não levou muito tempo e ele faleceu, mas pelo menos não de fraqueza.

Agora nova mudança no mundo alimentar. Depois de expulsar de nossa dieta as gorduras animais combate-se as chamadas trans, ou vegetais transformadas, que seriam ainda piores: além de provocar a famosa “barriga de cerveja” (algo completamente despropositado, pois se come pão todos os dias e se culpa a cerveja do fim de semana) estimula a produção do colesterol ruim.

Mas nosso atento Governo tomou uma providência séria: de agora em diante todos os alimentos com gordura trans trarão no rótulo a quantidade dessa gordura, como acontece com outros itens calóricos.

Isto é bom. Faz bem. Você sabe quanta gordura trans está ingerindo na margarina, no pão, nos biscoitos, na massa, por aí afora. De agora em diante vai saber.

Não tomo Nescau, de nenhum tipo, mas apenas de curioso acessei o site da Nestlé para ver a diferença do
Nescau Prontinho comum e do Nescau Prontinho Light. Não consegui distinguir qual é o menos pior. No light foram retiradas várias vitaminas.

Por isto meu coração e eu estamos confusos, apesar da boa intenção do Governo em nos esclarecer. Estou pensando em, de agora em diante, deixar os alimentos nas gôndolas, trazer o rótulo e me alimentar deles.

Só vou aguardar que o Governo mande informar o grau de nocividade da tinta usada na impressão.





Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi
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em 22/08/2006.

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29/08/2009

JUIZ MALUCO OU INSPIRADO?

Há uma bem engendrada campanha contra o Poder Judiciário. Uma intolerância cósmica. Ele já foi amordaçado por um conselho externo que não faz mais do que não poderia ser feito sem ele e com menos exuberância. Mas como no Brasil a exuberância é superlativa e abundante (vejam as dançarinas do tcham) ele vale como intenção de provar que a Justiça se faz dentro da Justiça, o que não é um afirmativa pela qual eu colocaria a mão no fogo da lareira ali na frente. 
A Xuxa diz que já viu duendes. Se não me engano, no jardim da casa dela, há duendes. Ninguém a considera louca e mantém ainda hoje a coroa – coroa é bem adequado, não acham? – de “rainha dos baixinhos”. Não consta que tenha prejudicado alguém, embora, no meu sentir, seja a expressão máxima da dissimulação que a Globo consegue nos empurrar goela abaixo. 
Outro, o Peninha, também conhecido como Eduardo Bueno, se travestiu de historiador e lançou livros de História do Brasil em que não disse nada mais do que aprendêramos no Primário. É tido como grande historiador. Ele também confessou que viu duendes e afirmou que numa encarnação anterior foi vento... Acho que sobrou um pouquinho no interior do crânio. Não sei se alguma escola adotou seus livros. É provável que não. Mas fizeram sucesso, tanto sucesso que até eu comprei os três volumes da Terra Brasilis. Não sei se ele continua repetindo o que já disse em outros. 
A Mônica Bonfiglio, num dos Programas do Jô, via anjos por todos os lados. Apontava: “ó, ali tem um; lá tem outro!” Como ando mal das vistas e a tela da minha televisão tem apenas 42 polegadas (brincadeira, tem 28 ou 29) e porque provavelmente estava sem óculos, não vi nenhum. O Jô Soares, pela cara que fez, também não. Houve uns sorrisinhos imprudentes na plateia, mas ela não foi desmentida é uma horoscopista de escol. Já o juiz, quando julga, é um ser absolutamente solitário (não estou falando de desembargador, que sempre conta com outros dois, geralmente vaidosos conservadores que se acham liberais, para atrapalhar).
O Juiz da notícia aqui contava com o auxílio de três duendes – Armand, Luis e Angel – para ver o futuro e julgar. Prever o futuro foi coisa que nunca consegui na minha vida de juiz. Aliás, nem o passado posso prever, digo, rever com acuidade porque muita coisa se perdeu nos refolhos do meu cérebro cansado. Foi afastado de suas funções. É ou não é uma conspiração cósmica contra o Judiciário? 
Mas confesso – sou aposentado e agora posso me dar ao luxo de dizer disparates com proverbialidade – também usava entidades para me ajudar a julgar. Mas não tive a criatividade de nominá-las. Todas podem ser consideradas, em sua essência e origem, tão abstratas quanto os duendes do juiz filipino. Ou tão concretas quanto... São a Lei, a Prova do Processo e, principalmente, a minha Consciência. Claro, às vezes pedia auxílio aos meus botões, ou aos meus zíperes, ou aos meus velcros – conforme o traje –, o que é muito mais grave e denota mais demência do que conversar com duendes e anjos. 
Se a realidade judicial filipina for tão feia como a daqui, é possível que eles tenham afastado seu melhor magistrado. Porque, para ser juiz hoje, no Brasil, tem-se que ser minimamente louco. Para sobreviver mentalmente são, só se valendo do auxílio de duendes. Ou de Lexotan, ou Prozac, ou Lítio, outra santíssima trindade auxiliadora.


Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi, em 19/08/2006.
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22/08/2009

MAIS UMA FRUSTRAÇÃO CONSUMISTA

Mais uma vez saí às compras e mais uma vez voltei de mãos abanando (pelo menos, desta vez, de pés calçados).

Já narrei aqui minha frustrada investida no mundo do consumo
em 01/10/2004, no post Saí às Compras e não Pude Torrar a Grana, quando saí disposto a gastar uma grana preta para incrementar meu sistema de áudio e vídeo e acabei comprando apenas um gravadorzinho de R$ 100,00, em três vezes no cartão.

Ontem minhas pretensões eram mais modestas. Como há tempos não venho praticando exercícios, encontrei – foi o que pensei – a esteira dos meus sonhos. Fabricada pela Life Fitness, é um equipamento de ponta para quem acha que andar na esteira é muito monótono.

Até não acho. Antes de minha fibrilação cronificar eu andava regularmente uma hora por dia. Nessas andanças sem sair de lugar visitei inúmeros locais do Brasil e do mundo e muito do que publiquei no início do blog surgiram nessas caminhadas de cabeça fria e sem forçar pensamentos.

Aliás, foi para isto que comprei o gravadorzinho. Eu andava e gravava as idéias que surgiam que depois eram transformadas em postes (não gosto do plural posts, como muitos usam, e sei que o meu esclarecido leitor não vai confundir postes com postes: o primeiro é plural de poste e o segundo de post, apenas para não deixar dúvidas).

Mas eu dizia que saí para comprar a esteira dos meus sonhos: a 95Te, uma esteira com monitor de LCD com ligação para TV a Cabo, conforme se pode vislumbrar da gravura muito mal escaneada acima extraída da coluna Cobiça (nome apropriado para o caso) de Carlos Sambrana, em IstoÉ Dinheiro de 05/07/2006.

Ela é tão moderna que nem consta do site da Life Fitness, embora eu não seja a pessoa mais indicada para pesquisas na Internet: geralmente não acho o que busco, a não ser numa segunda oportunidade quando procuro outra coisa.

Pensei até em fazer adaptações para tornar a minha caminhada ainda mais cômoda por causa da fibrilação: como os dois braços da esteira são bem compridos, ataria neles uma míni-rede para que pudesse sentar.

Para aumentar ainda mais minha comodidade pensei em comprar um par de skatênis, esses tênis novos, de rodinhas, para que eu não precisasse nem articular os joelhos: sentaria, após ligar o monitor, ligaria a esteira e pronto. Claro, é mais fácil sentar num sofá e ligar a tevê. Mas tenho sonhos homéricos de consumo e bem-estar e aprecio coisas modernas.

O preço é salgado mas, de novo, me baseio em filmes americanos e agora também na vida brasileira: os caras não trabalham e estão sempre cheios da nota. Fora os que não fazem nada, a não ser viajar, e ainda assim duplicam seu patrimônio em menos de quatro anos!

Mas a esteira tem um inconveniente grave. O monitor é fixo e eu, sentado, não veria a imagem com nitidez. A tela não pode ser visualizada com perfeição inclinada para trás. Até colocamos uma cadeira para fazer o teste. Inútil. Mais uma frustração consumista.

Conclusão: desisti da esteira, passei numa loja de calçados e comprei um par de tênis comuns por R$ 89,90, em três vezes sem juros no cartão, para não dizer que não fiz nada na tentativa de voltar a fazer exercícios físicos e melhorar minha fibrilação, digo, meu coração.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 07/07/2006
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