12/09/2007

A Busca do Tempo Anterior

(Canto II: Agitato, speranzoso)







Atropelam minha cabeça pesadelos revoltos
como pássaros confusos.
Desaninhados.

Nada sei de ti, que amei sempre
num silêncio agitado e inquieto,
num refolho cardíaco
que nem a fibrilação espanta...

Nada faço senão esperar,
cultivando a saudade de alguém que foi embora
mas de mim jamais saiu.

Mas vou te encontrar um dia
– eu prometo! –
e abraçar-te, quieto,
suavemente aconchegar-te,
aconchegar-me:
seremos duas almas serenas,
silenciosas,
relembrando vidas passadas.

Será que algum dia existimos?
Ou fomos sombras sem figura que passamos?

Espantalho dos pássaros furiosos,
voltarei a vigiar, depois,
reconfortado,
a saudade de um abraço eterno
que eu guardei para ti
por trinta séculos.





Poesia publicada no Caderno de Literatura do Projeto DivulgaArte,
da AJURIS, em junho de 1999,
e no blog
Jus Sperniandi em 15/07/2004

09/09/2007

Tatuagem de Presente

Como a SKY cortou, arbitrariamente, meu sinal de tevê a cabo e privou-me do Film&Arts e alguns outros assistíveis (ajuizei ação cominatória, quarta-feira, com pedido liminar, mas até ontem não sabia do despacho inicial), deixo a televisão ligada em qualquer canal apenas para ter algum barulho que impeça o silêncio de atrapalhar minha concentração.

Hoje, chamou-me a atenção, num programa de futilidades — não sei qual porque poucos há que escapam dessa qualificação — em que uma celebridade completamente desconhecida confessou que deu para a namorada um presente desses únicos que se pode dizer que perdurará até que a morte os separe: ele tatuou no próprio braço o nome dela. Para rimar, o nome termina com ela (é Manuela, Gabriela, algo assim). O nome é dela. O braço é dele. O presente é para ela. E a rima?

O namoro dura sete meses e ele a achou merecedora do mimo. O amor eterno das celebridades geralmente acaba em menos de dois anos, acho que por isto a pressa. Ela ainda não fez o mesmo, mas, segundo ele, está se preparando para fazê-lo.

Senti um grande remorso. Namoro com a Ieda desde 1969, casamos em 1971, e até hoje não tatuei o nome dela em nenhuma parte do meu corpo. E não é por falta de espaço.

Ela também não tatuou o meu e sou-lhe grato por esse presente que ela não me deu. Ela acha o mesmo. Agradeceu-me porque prefere meu couro íntegro, apesar da cicatriz de uma cirurgia de apendicite a que fui submetido em 1977 — no dia do meu aniversário — que não dedico a ninguém.

Uma tatuagem é uma marca indelével, difícil de retirar. O Ronalducho tatuou as iniciais de uma de suas namoradas e depois teve que mudá-la porque, parece, ela engordou muito e ficou ilegível. Acho que foi isto.

Aqui no Rio Grande do Sul, como ocorria no Velho Oeste americano, os pecuaristas tatuavam o gado com sua marca própria para não confundi-lo com o dos vizinhos e para identificá-lo mais facilmente em caso de abigeato. Essa palavra, abigeato, não se usa mais. Mas o que ela expressa — furto de gado — existe. Podem conferir no Aurélio e no Código Penal.

Nada tenho contra quem se tatua. Tenho um sobrinho que tatuou um dragão no braço. Acho que não foi presente para a namorada, porque faz tempo que vivem juntos e têm um filho de cinco anos. Se fosse, certamente ela, que é bonita, teria tatuado a foto dele, em represália.

Cada um faz o que quer com seu couro. Mas pretextar que uma tatuagem seja um presente a outrem e uma prova de amor é como comprar uma lingerie da última moda e usá-la dizendo que é um presente à amada. Com a vantagem de que a lingerie sai facilmente.

E, se por exemplo, a moça aí de cima resolver terminar o namoro? Poderá sofrer uma ação de reparação de danos e pagar uma nota ao ex porque foi culpada pela inscrição, em sentido lato? A interpretação sobre o alcance do dano moral é mais extensa do que sonham nossas cabecinhas de não juízes e de magistrados aposentados.

Depois de pensar só um pouquinho deixei de sentir remorso e estou satisfeito por nunca ter gravado o nome da Ieda em meu corpo. Quando começamos a namorar essa moda não existia. Mas se existisse, e eu o tivesse gravado no meu braço, ele estaria completamente ilegível. E mais gordo!

A transição juventude-velhice, ou meia idade, calcada pela lei da gravidade, faz coisas que os jovens de hoje não prevêem. Uma estrela numa barriguinha de tanquinho, próxima a um umbiguinho sensual, pode se transformar num buraco negro em ruínas, porque o tempo é cruel.

O nome da Ieda tatuou-se em um lugar do meu organismo e lá se encontra bem fixado. Mas podem me virar do avesso que não vão encontrá-lo. Nem percebi direito, porque, além de indolor, foi um processo gradativo e suave. Há outros nomes também, mas o dela sobressai.

04/09/2007

O SORRISO DE MINHA MÃE

Uma das evidências mais claras de nosso processo de envelhecimento é a coleção de efemérides que vamos acumulando vida afora. A primeira — creio — é a do próprio aniversário.

Quanto mais velho, mais datas arquivadas: nascimentos de filhos a netos e bisnetos (estes para uns poucos privilegiados), mortes de avós, pais e parentes, acontecimentos marcantes, aniversários de irmãos, cunhados, sobrinhos, mortes extemporâneas de amigos, primeiro sutiã (geralmente para as moças, mas há exceções), posses em cargos, etc. Vão se acumulando e às vezes passam de mero referencial a pontos de influência, negativos ou positivos, conforme a natureza.

No dia 05 de dezembro de 1982, quando fui acometido a primeira vez por uma crise de arritmia cardíaca, eu me apavorei. Supus que ia morrer. Até pensei em fazer o meu testamento mas lembrei que era juiz iniciante e não tinha nada ainda que pudesse ser transmitido aos meus herdeiros e desisti.

O tempo passou e fui resistindo, sofrendo periodicamente as visitas dessa coisa que considero minha amante indesejável, a
Átria Fibrilini. No começo, a cada crise o mesmo sentimento de horror. Sentir o coração batendo forte, aos solavancos, desequilibrado, sem se poder identificar o ritmo para acompanhar a dança, com a impressão de que a qualquer momento poderá vir um breque definitivo, é algo assustador. Afinal, só temos um coração e ele parar lá se foi este blog, por exemplo.

Mas a gente se adapta ao desconforto. Quando descobri que não sou eterno e tomei consciência de que não adianta forçar os olhos abertos para se manter vivo, o medo da morte foi desaparecendo. Hoje a encaro com relativa naturalidade. Aliás, muito relativa. Ela virá um dia. É claro que não gostaria que fosse hoje. Nem amanhã. Pode demorar pelo menos uns trinta anos, desde que eu não fique gagá, jogado no fundo de uma cama, usando fraldões e incomodando meus filhos ou a Ieda. Se com mais trinta eu ainda me sentir bem, peço um adicional.

Ainda não me preocupei em fazer meu testamento porque ainda não tenho muita coisa a transmitir aos meus filhos. Os cds e os dvds de música clássica vão para o Francisco e os dvds de filmes para a Clarissa. Desde que eles paguem as dívidas pendentes e zelem pela Ieda se intrometendo na vida dela apenas o absolutamente necessário.

Porque escrever sobre a morte, hoje, sábado? Efeméride. Faz 32 anos que minha mãe faleceu. Desta data nunca esqueço. Ela tinha 42 anos, apenas, e não conheceu netos. Só viu um filho casado — eu — porque casei cedo, com 19 anos (sim, com a Ieda). Aliás, nosso casamento foi sugerido por ela logo que passamos no vestibular porque teríamos que sair de Taió para estudar em Florianópolis.

Não lembro mais dela com perfeição. Fotos, para isto, não valem. Guardo apenas a imagem de um sorriso triste e conformado. Sabedora de que estava gravemente enferma proibiu os médicos de falarem a respeito aos familiares para que meu pai, que era cardíaco, não soubesse. Ele não podia se incomodar. Ela se sacrificou por ele.

Só depois fomos entender porque aquele sorriso era tão enigmaticamente espiritual e profundo. Nem Leonardo da Vinci seria capaz de retratá-lo.




Crônica publicada em 23/10/2004, no blog Jus Sperniandi (aqui) e depois numa das Revistas de Literatura da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul.
Naquele tempo a Atria Fibrilini ainda não havia se instalado definitivamente no meu coração.

02/09/2007

Depois que todos foram...

Fernando Pessoa
[643] – 26-7-1930



DEPOIS que todos foram
E foi também o dia,
Ficaram entre as sombras
Das áleas do ermo parque
Eu e a minha agonia.

A festa fora alheia
E depois que acabou
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Quem eu fui e quem sou.

Tudo fora por todos.
Brincaram, mas enfim
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Só eu, e eu sem mim.

Talvez que no parque antigo
A festa volte a ser.
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Eu e quem sei não ser.



Fernando Pessoa
Poesias Coligidas – Inéditas (1919-1935)
in Fernando Pessoa
Obra Poética, página 524,
Companhia José Aguilar Editora (1974)

31/08/2007

Meu Deus! Vou ao Centro...

Hoje pretendo ir ao centro. Primeiro vou pesquisar qual o protesto do dia e ver se, por acaso, não vai atrapalhar meu itinerário.

Aqui diariamente há protesto: de sem-terras, professores, garis, aposentados, moradores de rua (uma coisa: se forem de rua, podem ser moradores?), de juízes, gays (por favor, observem a vírgula), de não-gays, de promotores, de policiais por falta de segurança, de mulheres de policiais, de modelos... não! Estas, definitivamente, ainda não fazem protestos de rua. Pena!

Desconheço protestos de jornalistas, mas desconfio que logo logo eles também vão ter que aderir a esse tipo de manifestação...

Não é que eu tenha medo, embora há alguns anos uns sem-terras, usando inocentes instrumentos de trabalho (foices, machados e enxadas) degolaram um brigadiano em plena Rua da Praia.

É que detesto filas, trânsito atravancado e os “protestantes”, mesmo que apenas alguns gatos pingados, dominam e trancam as ruas, apoiados oficialmente.

O direito de protestar deles se sobrepõe ao de ir e vir dos demais, principalmente daqueles que cometem o supremo pecado mortal de, neste país, ser proprietários de um veículo e, por isto, considerados ricos e merecedores do fogo do inferno.

Certa vez, numa ação de alimentos, um advogado argumentou que o alimentante era rico porque possuía um Chevette 79. Na decisão salientei que ser proprietário de um chevette, naquelas condições, era prova mais de pobreza do que de riqueza. Não sei porque, mas não fui bem compreendido...

O centro, nos dias normais, é caótico, sem estacionamento nem segurança. Pelo menos quando há protestos há maior segurança, mas apenas para aqueles que protestam.

Tenho que tomar cuidado também com carroceiros, papeleiros, cavaleiros, ciclistas e skatistas.

Um Diretor da EPTC defendeu que “existe uma hegemonia do automóvel na via, mas ela é de todos, de pedestres e até de skatistas”.

O Código de Trânsito não o permite, mas para quem desmerece a vida, a integridade física e a cidadania – esta, aliás, anda tão rebenqueada pelas artes governamentais que deixou de ser um conceito sério e passou a mera expressão idiomática – a lei é o que menos importa.

Prefiro ir a Santa Catarina – conheço um atalho por Viamão que dá direto na freeway e ainda desvia do posto de pedágio de Gravataí – do que ao centro de Porto Alegre.

Então, se amanhã eu não escrever nada procurem meus restos mortais no IML. Ou estarei na Central de Polícia prestando contas por ter atropelado algum skatista.

Ainda bem que tenho curso superior. Se for detido, serei agraciado com o direito a prisão especial, com ar condicionado, telão, cinco refeições por dia e, o que é mais importante de tudo, uma inabalável sensação de absoluta segurança.

27/08/2007

Como Agradar as Mulheres

A Fernanda, que não conheço, mandou um e-mail tipo Como Conquistar as Mulheres e vou respondê-lo item a item para ficar bem claro. Certo, Fernanda?

Aprenda Rapidamente, o Modo mais Fácil, mais Efetivo para Persuadir e Seduzir... Desperte ATRAÇÃO SEXUAL nas mulheres que lhe ATRAEM!

Você deveria esclarecer se se refere às mulheres em geral ou às que trabalham em prostíbulos, mesmo de classe. Ir direto ao sexo, sem contato preliminar, sem um pouco de poesia e de papo jogado fora para estabelecer um mínimo de intimidade não dá, Fernanda, não dá!

Saiba o que falar ao se aproximar de uma mulher e sob tudo COMO FALAR;

Sei o que falar quando me aproximo de uma mulher. Por mais bobagens que diga, não me arrisco por caminhos que não domino. Mas percebi que sou melhor ouvindo que falando. Então o meu modo de agradar e persuadir – se for o caso – varia caso a caso.

Preocupa-me o sob tudo que você pôs aí. Ainda bem que não é sob todos, senão pensaria que você está organizando um surubão e tem más intenções em relação a mim.

Aprenda a como se comunicar com as mulheres de uma forma que seja visto como amante em potencial e não como um "PERDEDOR" ou "amigo";

Prefiro ser visto por uma mulher como perdedor do que como amante em potencial. Claro, das três opções que você coloca, prefiro mesmo ser amigo. Sempre gostei mais de amigas mulheres do que homens. Os homens falam muito de futebol e de... mulheres. Eu prefiro falar com elas e não delas.

Ser um amante em potencial não me agrada nada nada, Nanda! Se, por exemplo, eu for seu amante em potencial nunca serei seu amante efetivo. Acho que você – além de Português – esqueceu de estudar Filosofia. Senão saberia que uma porta potencialmente aberta é uma porta fechada. Então, um amante em potencial é aquele que nunca chega a ser. A não ser que você quisesse dizer um amante potente, mas daí dispenso seus préstimos, por ora.

Acabe com o MEDO de ser rejeitado e incorpore uma personalidade OUSADA!

Há 35 anos uma mulher me aceita todos os dias. Até há uns dois eu temia ser rejeitado. Mas um psicanalista me assegurou que, após tanto tempo, raramente ocorre rejeição. Bastou uma sessão e eu me convenci. Ela concorda com ele. Então nem preciso ser mais ousado para agradá-la.

Comece a ficar e dormir com muito mais mulheres do que você já pensou ser possível;

Dormir com muito mais mulheres do que já pensei ser possível? Você está louca? Para quê? Você precisa, antes desta proposta, medir o meu interesse. Sem duplo sentido. Não quero dormir com mais mulheres do que é possível nem que sejam apenas duas. Já pensou se uma for você? Aliás, pela sua propaganda, acho que você está cobiçando minha fortuna. Ficaria decepcionada.

Fernanda! Você já foi amada por um único homem, num sábado à tarde, num lugar aconchegante, tendo todo o tempo do mundo para se dedicar a ele e ele a você, devagarzinho, carinhosamente, demorando-se como se não existisse tempo nem amanhã nem ontem? Depois de horas, vocês saciados, dormiram abraçados e só acordaram à noite, por acaso, com os olhos brilhantes, satisfeitos e com a impressão de estarem numa nave espacial e que tudo lá fora era nada de tão vazio? Não?

Então me desculpe. Você não entende nada de amor e não tem autoridade de me fazer a proposta idiota que fez.

25/08/2007

Eu, Presidente da República?

No embrulho de tropicões, desencontros, gafes e acertos que caracterizam minha vida tenho a impressão de que perdi duas chances de ser Presidente da República. Tanto por caminhos democráticos quanto por ditatoriais.

Aqui a cronologia não importa. Na minha consciência crítica a ditadura veio antes da democracia. Mas as perspectivas que tive foram em ordem temporal inversa.

Com 9 anos de idade eu já trabalhava como torneiro mecânico na oficina de meu pai. Para alcançar os controles e poder visualizar corretamente o que fazia o torneiro, o seu Udo, confeccionou um pequeno estrado de madeira no qual eu subia para trabalhar com mais segurança.

Eu torneava peças simples, parafusos e inclusive prisioneiros. Prisioneiros são uma espécie de parafuso sem cabeça, com rosca em toda a sua extensão, que na época eram fixados principalmente nos cubos de roda de caminhões e, depois de ali firmemente presos, serviam para atarraxar os aros com os pneus.

Talvez aí o ponto crítico que me desviou da presidência democrática: fazer prisioneiros é algo inerente ao cargo de Juiz, embora hoje em dia eles mais soltem do que prendem, e isto pode ter influenciado na minha vocação.

Outro ponto certamente desviante: sempre fui muito prudente, nunca me descuidei e ainda hoje posso contar até dez usando todos os meus quirodáctilos. Sem indenização ou aposentadoria, a não ser agora, por problemas cardíacos, fui obrigado a trabalhar. Mas é tarde!

A outra chance que escapou foi por ter sido recusado pelo Exército.

Não por falta de interesse. Em 1967 apareceu em Taió um pelotão de inspeção que acampou no hotel que meu pai explorava após vender a oficina mecânica e fiz amizade com um sargento.
Ele me contou maravilhas da vida de caserna e por isto, com 16 anos, me alistei como voluntário. Mas um capitão jogou água fria na fervura: assegurou que apenas o alistamento poderia ser feito aos 16 anos. Sentar praça, só com 18...

Na verdade acho que fui recusado por ser gordo, ruivo e sardento. Mas essa recusa não me incutiu qualquer sentimento frustração.

Naquele tempo, até muito depois, o caminho mais fácil para se chegar à presidência da República era a carreira militar. Então, esta foi a outra oportunidade que perdi.

Agora, como disse, é tarde. Até porque, se eu fosse presidente, hoje, não teria condições físicas de viajar tanto (a não ser que meu rico avião fosse dotado de uma míni-UTI cardiológica e meu cardiologista sempre me acompanhasse), nem de jogar peladas nos fins de semana, tampouco de participar de festas e arraiás com tanta sede...

Tive que lutar sozinho e com minhas forças (meu pai sofreu enfartes muito cedo e não pôde me ajudar muito). O máximo que pude foi fazer carreira na Magistratura e chegar à desembargadoria do que, diante dessas condições, não me arrependo. Até me orgulho.

Aliás, me arrependo um pouco. Deveria ter sido procurador. Talvez, então, encontrasse com mais facilidade coisas que extravio no Triângulo das Bermudas que é minha
casa, especialmente meu escritório. Inclusive a poesia que referi acima.

Desperdicei, pois, duas oportunidades de ser Presidente da República: uma por ter sido rejeitado pelo Exército, outra por, mesmo tendo sido torneiro mecânico, não ter perdido o dedo mindinho.

Mas, pensando de modo mais crítico, acho que nunca deveria é ter feito aqueles malditos prisioneiros.

22/08/2007

AMA DOR

Esta poesia obteve o 3.º lugar no Concurso de Poesia "Prof. Ângelo Magrini Lisa", da Associação dos Escritores de Bragança Paulista, em 1999.



Não sei como pude me envolver contigo,
uma profissional do amor.
Eu,
um amador!

Vieste a mim procurando teu outro eu
quando nem eu mesmo sei quem sou.

E me achaste
e mais eu do que eu sou
te tornaste.

(Que resultados querias,
dessa simbiose insolente?
Dessa cruza de rã com serpente?)

E agora?
Onde vou me encontrar
se nem mesmo sei quem és,
nem nunca soube quem sou?

Vieste a mim procurando teu outro eu
e levaste contigo a minha melhor parte.

Do que fui, do que foste, do que fomos,
nada sou, nada sei.

Nem sei
— nos largos caminhos da loucura —
como terminar este poema,
onde iniciar minha procura.

19/08/2007

Considerações Televisivas

O frio daqueles dias no litoral me meteu em contato meio forçado com a televisão. Mas a recepção, na praia do Grant, estava restrita a dois canais, num dos quais apenas se ouvia o som como que ecoando no interior de uma lata velha.

Periodicamente sou tomado por inexplicáveis acessos de generosidade. Desta vez adquiri uma antena parabólica e presenteei minha sogra.

Juro que não fiz por mal. Eu não tenho nada contra ela, muito pelo contrário: a estimo muito e garanto que se todas as sogras fossem iguais (ou parecidas) haveria menos casais em crise. Por isto não seria capaz de lhe fazer ou desejar algum mal ou desfeita. Tanto que, agora, ela está passando uns tempos conosco, em Porto Alegre. Naturalmente que mais por causa da filha do que do genro.

Sinto-me protegido quando estamos sob o mesmo teto. Principalmente contra raios. Sou obrigado a abrir imensos parêntesis e jurar que se trata, obviamente, de uma brincadeira porque tenho dez cunhados, seis do sexo masculino, alguns verdadeiramente furiosos e grandalhões. Um deles já admitiu que foi abduzido e não tenho idéia dos poderes maléficos que essa abdução possa lhe ter conferido. Embora não acredite em discos voadores, tenho medo dos que viajam neles.

Mas enquanto eu ficava ao notebook manipulava esse invento maravilhoso que é o... controle remoto. Melhor que a televisão. Tenho um outro texto, mais antigo, com uma análise profundíssima a respeito, que publicarei em outra ocasião.

Nas repassagens pelos 26 canais disponíveis encontrei receitas culinárias de um minuto a duas horas, canais de venda, os inevitáveis canais abertos, e outros variados (nos dois sentidos). Muitos religiosos, mas sobre estes me reservo o direito de nada dizer. Minha sogra é devota da Rede Vida.

Há tanto programa de entrevistas com tanto entrevistado dizendo tantas certezas, num tom de voz convincente e definitivo, que eu ficava com pena de trocar de canal. Tive, muitas vezes, a sensação imediata de que o mundo estava salvo e que todos os nossos problemas, finalmente, resolvidos. Depois, com a direção crítica um pouco mais pensada, chegava à conclusão de sempre: pura futilidade e pretensão. A verdade tem tantos donos que não pode ser verdade!

Os programas infantis parecem se dirigir à finalidade específica de imbecilizar crianças. Mesmo esses ratimbuns da vida não achei tão educativos como apregoam. Em todos os casos, sou muito criança e deixo essa análise para os adultos. São estes que sempre decidem o que é melhor para os infantes.

Há os canais da Câmara e do Senado que transmitem bizarrices. Principalmente votações e CPIs. As inquirições de testemunhas são conduzidas de uma forma tão enviesada que, para alguém como eu, que passou grande parte da vida tentando ser o mais objetivo possível na técnica inquiritória da busca da verdade, tornam-se um tormento. Os inquiridores depõem mais que as testemunhas...

Os parlamentares são dotados de uma compulsão invencível de aparecer e pensam que são obrigados a perguntar à testemunha sempre. Mesmo sobre o que já está meridianamente esclarecido. Eu ficava inquieto e coçando. Gastei três tubos de Omcilon com as esfoladuras. Tinha ganas de ir lá e ensinar como é que se faz perguntas objetivas para obter respostas claras. Mas certamente teria que passar por uma sabatina e desisti. Se os juizes usassem das mesmas técnicas nas suas inquirições então sim vocês iriam ver o que é morosidade da Justiça.

Descobri algo interessante: os canais da Câmara e do Senado não veiculam os programas eleitorais gratuitos que os canais abertos são obrigados a transmitir...

Vamos ser justos. No do Senado há um programa excelente, de música erudita, conduzido pelo Arthur da Távola, e pude me deleitar um pouco.

E há os canais rurais. Gostei muito do Canal do Boi. Apenas lamento não tê-lo conhecido antes. Em casa tenho a DirecTV, mas nesta ele é pago e nunca quis assiná-lo.

Se o fizesse há algum tempo teria evitado uma tragédia. Sou proprietário de uma fazendola em Passo Manso, interior de Taió, e há uns dois meses perdi metade do meu rebanho por uma doença desconhecida. Agora tenho que me contentar com a única vaquinha que restou e dar graças a Deus por não ser um boi.

Bois não dão cria nem emprenham vacas – esse foi outro útil ensinamento do Canal do Boi.

(Na foto acima, o que restou do meu rebanho).

17/08/2007

Silvane Sabóia, ou SILSABOIA

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O Cavalo Branco de Napoleão


Ontem (23072004), na vinda para Santa Catarina, como não estava dirigindo aproveitei para tirar fotos das paisagens. Em razão do movimento do carro não ficaram nítidas nem consegui uma pelo menos razoável.

Como não gosto de um texto sem imagem, talvez influência das revistas em quadrinhos da infância, resolvi postar essa aí em cima. Porque no processo de escolha lembrei-me do teste psicológico que fiz para ingressar na magistratura.

A maioria pensa que para ser juiz é só prestar um concurso de conhecimentos jurídicos e pronto.

Não é bem assim.

No meu tempo as provas eram de Português – necessárias, não é Glauco? – de Conhecimentos Jurídicos e de sentenças cível e criminal. Depois a prova oral, que chegava quase a ser cruenta: abordava os principais ramos do Direito, em pontos sorteados pouco antes, e era prestada tête-à-tête com um desembargador... Finalmente os exames médicos. Para avaliar nossas condições mentais nos submeteram a teste psicológico e a entrevista psiquiátrica.

A psicóloga que me examinou, depois de uma conversa numa sala à meia-luz – se não me engano à luz de velas – e que até então vinha sendo amigável e atenciosa, mudou repentinamente de conduta: empertigou-se, cruzou as pernas e passou a me olhar com olhos maliciosos. Só então notei que ela era loira oxigenada, vestia um vestido justo, roxo, e com um corte que deixava entrever grande parte de sua coxa bonita e bronzeada.

O ambiente estava propício a outras coisas e cheguei a imaginar que ela fosse pedir que eu lhe pagasse um cuba-libre. Assustei-me um pouco, mas mantive a calma. Isto é necessário a um juiz. Ela pegou um envelope, retirou deles as folhas com as manchas de Rorhschach, e ia me mostrando as gravuras para que eu dissesse a primeira coisa que me surgisse na idéia.

O teste terminou e ela pediu que eu fechasse os olhos e imaginasse estar caminhando por algum lugar e que, de repente, surgisse à minha frente um muro alto acobertando-me a visão. Então descrever o que imaginava existir do outro lado.

Imaginei uma pastagem, um verde exuberante, com uma floresta não muita alta aos fundos. Na verdade, veio-me à mente uma imagem do Campo de Waterloo que eu vira pouco antes em uma revista. Lembrei-me também de Napoleão, mas não lhe disse isto porque ali ele foi vencido. Um quase juiz não pode ser derrotista.

Findo o teste, timidamente perguntei se ela poderia antecipar alguma coisa do resultado. Não.

Preocupado, comecei a matutar que, talvez, eu tivesse exteriorizado um instinto indelevelmente eqüino. Tanta pastagem poderia induzir a isto. Lembro-me que nos jogos de futebol, quando atuava na linha, me chamavam de “cavalo” porque eu acertava mais as canelas dos adversários do que a bola. Alguns me mandavam pastar.

Bem. E a foto aí em cima, o que tem a ver com isto?

Pois é. Associei-a ao muro que a psicóloga ergueu na minha frente encobrindo-me a visão.

Como não consegui uma foto melhor, resolvi colocar essa para que aqueles que a vêem criem sua própria imagem detrás, tentando imaginar como seria bonita a paisagem sem essa poluição visual de placas e outdoors que colocam em nossa frente para prejudicar a visão. A interpretação é livre.

Quanto às pastagens de Waterloo após o muro elaborei, mentalmente, algumas considerações empíricas. Cheguei a imaginar que, se eu acreditasse em reencarnação, pudesse ter sido Napoleão em uma vida anterior. Mas há tantos que já foram Napoleão que eu não poderia ser mais um. Não sou tão megalômano nem o espírito dele suportaria tantas subdivisões.

Só resta uma conclusão, não muito edificante, mas que não posso ignorar: talvez eu tenha sido, na verdade, o cavalo branco de Napoleão.

15/08/2007

Somos Dígitos Verificadores

A humanidade é vidrada em números e estatística. Tudo é mensurado. Dia desses mediram até a extensão do grito de gol do Luciano do Valle e reclamaram porque num do Palmeiras ele berrou dois segundos a mais do que num do São Paulo, se não me engano. Do Corinthians tenho certeza que não foi, porque o Corinthians não faz gols.

Falo com autoridade porque, além de avaiano, sou corintiano. Meu filho também é. Não por falta de advertência. Quando ele manifestou interesse de torcer pelo Corinthians eu disse que se preparasse para ser um sofredor. Mas ele era um gurizote e eu o pai herói. Não ultrapassara ainda aquela fase em que se passa de pai a mero ponto de referência.

Uma pesquisa recente chegou à conclusão de que os gordos têm mais chances de morrer em colisões de trânsito dos que os magros. Eles são mais dorminhocos e é difícil retirá-los do interior de veículos acidentados. Não precisava ser feita. Como gordo, acho-a francamente discriminatória. Vou vender o meu KA e procurar um número maior, um GG. Quando visto o KA me sinto mesmo meio apertado. O zíper não fecha mais direito.

Agora que iniciei este blog psicólogos da Universidade de Chemnitz, Alemanha, depois de um estudo com 300 donos de sites, concluíram que “as pessoas que têm sites e se dedicam a cuidar da atualização das páginas web são mais introvertidos que aquelas que não têm uma página na rede mundial de computadores” (Glauco: os erros são do original). Quem quiser pode acessar a matéria completa, aqui.

Eu não tenho um site. Pensei em criar o polenta.com.br, mas já está registrado. Vou acabar desistindo até deste blog e me aliar aos bilhões de extrovertidos que não têm site nem blog.

Se eu fosse um caçador noturno solitário, ou tivesse a sorte do Cesar Valente com o sexo oposto, já o teria feito. A mesma pesquisa diz que apenas 13% dos entrevistados são mulheres. Quer dizer que há muito mais mulheres extrovertidas do que homens, outra coisa que não precisava de pesquisa para ser demonstrada. Mas, por via das dúvidas, sempre é bom ter certeza.

Diz, também, que os desempregados ou aposentados não mostram interesse de ficar conhecidos pela Internet. Desempregados, pode ser. Até porque como vão manter um site e navegar com o preço que os servidores e provedores cobram? A maioria nem deve ter computador.

Mas quanto aos aposentados, discordo, embora eles também sofram os desgostos financeiros dos desempregados. Estão querendo me excluir dessa grei? Então recuo, desisto de desistir e esqueçam o que disse mais acima. O FHC e o Lula já fizeram isto e, pelo que sei, nenhum têm qualquer queixa de suas vidas atuais. Vou continuar com o blog.

O pior é que hoje, quando o abri e vi meu nome lá em cima, à direita de JUS SPERNIANDI, concluí que talvez meu objetivo seja mesmo o de ser conhecido. Senão, quem vai ler o que escrevo?

A matéria diz ainda que a maioria "quer se mostrar de forma autêntica, mas não o seu pior lado". Óbvio. Para dizer isto também não precisavam pesquisar. Nosso pior lado é privilégio exclusivo dos familiares e agregados e de alguns poucos amigos mais íntimos.

Mas há o lado bom. Pelo menos se valoriza o óbvio. Senti agora uma repentina saudade do tempo em que era juiz e então segue uma citação no estilo judicialesco:

Demonstrar o óbvio sempre foi difícil e Galileu quase foi queimado pela Inquisição por querer demonstrar que a Terra é que gira em torno do Sol, e não o contrário, como se cria até então (TJRS, 18ª Câm. Cív., Apel. n.º 70 001 151 646, de Tapejara, Relator, Eu).

É bom que as pessoas, principalmente governantes, comecem a se preocupar com o óbvio. Daí vão propiciar o óbvio ao povo e o óbvio é educação, saúde, segurança e uma melhor distribuição de renda. Para isto deverão atacar as causas – outra obviedade – desse descalabro que está aí e deixar de lado a mania idiossincrática de tentar aparar problemas pelas conseqüências.

11/08/2007

Thales e Pitágoras ou Os Bois do Tio Zeca

Certos princípios mantêm alguma semelhança, embora aplicados em campos diferentes, mas que induzem a conceitos de uso ou não-uso. Pois por aí já começa a complicação: o que é semelhante não é igual, é diferente, e por isto a afirmativa supra. Vou tentar explicar.

Quando meu filho corria de kart eu, que sou filho de mecânico e passei grande parte de minha infância sujo de graxa numa oficina, entre calhambeques, ônibus, caminhões, ferro-velho, tornos e outras ferramentas, avoquei para mim certas funções.

Além de paitrocinador, era também mecânico. Pelo menos assistente do preparador que eu pagava para tal. Um assistente graduado, pois como remunerador detinha argumento$ mai$ do que convincente$ para dar meus pitacos. Não devo ter estorvado muito, porque a equipe foi sempre bem sucedida.

Pois bem. Às vezes um simples parafusinho quebrado era motivo de sair pelos outros boxes procurando um igual.

Para coisas pequenas até no kartismo há solidariedade.

— Igual não tenho, mas tenho um parecido aqui ó! Serve?

— Não, parecido não adianta. Tem que ser igual.

Essa foi a melhor contribuição filosófica que o kart deu à minha vida: a conclusão óbvia, mas que não parece tanto, de que tudo o que é parecido é, natural e inexoravelmente, diferente...

Assim na mecânica automobilística, na Física, no Direito, na Medicina e em todos os campos da atividade humana.

Mas o melhor exemplo dessa dicotomia interessante me foi dado pelo tio Zeca, que viveu lá nos interiores do interior de Taió. Não sabia ler nem escrever e nunca freqüentou um dia de aula.

Mesmo que talvez não soubesse decifrar cientificamente a proposição, ele tinha noções empíricas, instintivas e precisas dela.

Apesar do pouco estudo, era um negociador esperto. Certa vez adquiriu dois garbosos bois de canga para atrelar no seu carro-de-boi.

Eram semelhantes. Um era parecido com o outro; mas eram diferentes.

Ele não teve dúvidas e pespegou-lhes os nomes de Diferente e Parecido.
Eu nunca descobri qual era o boi Parecido e qual era o boi Diferente. Mas ele os identificava com uma olhadela de relancina...

Só não sabia que o batismo de seus bois foi a mais prática demonstração de um teorema que nem Pitágoras nem Thales de Mileto tiveram coragem de propor.


Observação:

A imagem superior é parte de uma foto do Tio Zeca batida por mim. A de baixo é uma pintura de Ieda M. F. Dellandréa, em aquarela, abrangendo foto inteira.

Como se pode ver eles estão parecidos. Mas diferentes...

09/08/2007

Nunca te vi, sempre te amei

Não sou um profundo conhecedor de cinema. Gosto de assistir a filmes sem compromisso maior, embora preste atenção a detalhes após ter visto algum que tenha me agradado um pouco mais que o normal.

Vejo muitos. No mínimo cinco por semana. Para quem não é um profissional do ramo, como o Rubens Ewald Filho, creio ser bastante. Não me apego a estilos e apenas tomo algum cuidado, antes de assistir, de ler a resenha (principalmente as entrelinhas, onde está aquilo que quero saber).

Se não gosto, nem termino de ver. Mas já ocorreu de detestar inicialmente um filme e depois, repensando-o, vê-lo novamente e incluí-lo na lista dos meus preditos. Foi assim com o “Além da Linha Vermelha”, já comentado aqui.

Às vezes um bom filme me inspira involuntariamente um adjetivo. Não uma adjetivação fria e chavonesca, mas uma palavra que se transforma num código que me leva naturalmente a lembrar daquele filme.

“Nunca te Vi, Sempre te Amei” (no original “84 Charing Cross Road”) soprou no arquivo de meu cérebro um adjetivo simples, demonstrando que um filme é um ente de vida própria, tem caráter, personalidade e sentimentos. É um filme “amável”. Poderia ter sido “sensível”, mas há muitos filmes sensíveis e então, sei lá por que, prefiro diferenciá-lo um pouco.

É um filme amável porque não agride, não perturba nem é por demais açucarado como o nome, à primeira vista, pode transmitir (Cuidado! Há um outro filme, com esse mesmo título em português, de menor qualidade. Por isto, se for alugá-lo confira o título original, que corresponde ao endereço de uma livraria em Londres).

O enredo é simples. E amável. A escritora americana Helen Hanff, numa convincente interpretação de Anne Bancroft, é aficcionada por clássicos da literatura inglesa. Como não os encontra em Nova Iorque passa a se corresponder com Frank Doel (Anthony Hopkins, especialista em papéis desse estilo), gerente da livraria londrina na 84 Charing Cross Road. Os fatos ocorrem nos anos pós-II Guerra Mundial.

Através de cartas às vezes irônicas e mal-humoradas encomenda obras e ele, fleumático e imperturbável, procura atendê-la da melhor forma possível, mesmo que não disponha do livro em sua loja. Desenvolvendo a relação, passa a lhe sugerir títulos que ela repele ou aceita, de acordo com seu humor. As cartas eram valorizadas pela expectativa da resposta num tempo em que não havia Internet e as relações eram menos transitórias.

Com o tempo, a troca de correspondência evolui e refoge a objetivos puramente comerciais, estabelecendo-se uma relação de afeto entre os protagonistas, inclusive com os demais empregados e proprietários da livraria.

Condoída com a situação da Londres que se recuperava dos efeitos da guerra ela consegue, nas épocas festivas, enviar aos funcionários da livraria alimentos frugais, mas lá racionados, através da Dinamarca. É compensada com mimos trabalhados pessoalmente por familiares dos presenteados.

Depois de 14 anos de correspondência, finalmente, vai a Londres conhecer a livraria e especialmente o gerente Doel.

O final não revelo. Não é nenhuma surpresa, mas é sempre bom conferir pessoalmente.


O filme é baseado nas memórias da dramaturga americana Helen Hanff e dirigido por David Jones. Bancroft ganhou o BAFTA de Melhor Atriz. Foi indicado em mais duas categorias: Melhor Atriz Coadjuvante (Judi Dench) e Melhor Roteiro Adaptado. Hopkins recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival Internacional de Moscou.


POEMA EM LINHA RETA

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)






Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.




Álvaro de Campos
Ficções do Interlúdio
in Fernando Pessoa
Obra Poética
Companhia José Aguilar Editora (1974)

31/07/2007

INGMAR BERGMAN

Gosto de cinema. Por isto ao tomar conhecimento, ontem, da morte de Ingmar Bergman, do qual tenho vários filmes e sempre apreciei como um diretor sensível que fazia pensar, quis escrever algo a respeito.
Mas, quando percebi, muitos haviam escrito e eu não acrescentaria muita coisa. Indico, para quem quiser, o blog Ilustrada no Cinema, de A Folha, que trás informações concisas sobre a biografia de Ingmar, mas apresenta trechos de seus filmes principais.
Entre aqui.
Arnaldo Jabor, cultuado atualmente como um intelectual, foi também diretor mas só dirigiu porcarias. Falou, no seu espaço no Jornal da Globo, agora há pouco, sobre Bergman, concluindo que ele era um pessimista que só pensava na morte e chegou aos 89 anos de idade.
Mesmo assim comeu as mulheres mais bonitas da Suécia. Nada mal para um pessimista.
Com essa rasteira observação, que nada tem a ver com a obra de Ingmar Bergman e digna de um intelectual brasileiro a caráter, fácil entender porque seus filmes ─ do Jabor ─ foram tão ruins.

26/04/2005

ADIAMENTO (Fernando Pessoa)

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)




Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de Domingo divertia-se toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de Domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é o que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanha serei finalmente o que hoje não posso nunca
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã..

O porvir...

Sim, o porvir...


Álvaro de Campos
Ficções do Interlúdio
in Fernando Pessoa
Obra Poética
Companhia José Aguilar Editora (1974)

17/12/2004

ALÉM DA LINHA VERMELHA - Filme

Quando assisti Além da Linha Vermelha (no original, A Tênue Linha Vermelha) pela primeira vez não cheguei ao final. Senti deslocadas as colocações filosóficas sobre a vida, sobre o sentido de viver, sobre as lutas da Natureza que o narrador faz já no início. Afinal, é um filme de guerra.
Depois achei que deveria vê-lo com mais vagar e admirei tanto o filme que o coloquei na minha lista de prediletos.


O título em Português foi dado por quem não viu o filme ou não o entendeu. A “linha vermelha” nada tem a ver com linha de batalha ou linha física, mas é aquele tênue e nebuloso limite entre a sanidade e a loucura que o filme aborda com extrema propriedade.

A fotografia é esmerada. As tomadas são calmas e tranqüilas, não muito ao estilo de Hollywood – exceto as de batalha.

O elenco é de primeira. Atores que fazem papéis secundários depois se destacaram em filmes maiores. O diretor Terrence Malick é um perfeccionista que até por isto faz poucos filmes.

A ação transcorre na II Guerra, na batalha do Pacífico. A famosa Companhia Charlie é enviada a conquistar uma posição japonesa em Guadalcanal (um campo de pouso que serviria de apoio logístico nas comunicações entre Austrália e América). Já se sabe quem vence, mas o final não é propriamente hollywoodiano.

Sobressai o ego inescrupuloso do coronel interpretado por Nick Nolte, que objetiva agradar superiores. Como contraponto, o capitão que se sente responsável por seus soldados, que reluta em mandá-los para a morte e que se nega a cumprir uma ordem suicida.

Não é um filme que possa ser entendido numa única vez. Há flashbacks aparentemente inócuos, mas que se encaixam no roteiro quebrando a dureza da guerra com cenas de poesia e tranqüilidade, lembrando que em outros lugares há vida. Há cortes para cenas da natureza, como que a dizer que esta segue seu ciclo normalmente, apesar das guerras e batalhas que os homens travam sobre a terra.

Os soldados de Malick têm medo e cólicas, rezam, vomitam e enlouquecem. Não morrem de repente. Agonizam como seres humanos. Alguns estão ali não para guerrear, mas por obrigação. Nada parecidos com os heróis de O Resgate do Soldado Ryan.

Foi retratada de maneira muito crível a dominação dos japoneses e sua humilhação. Não a humilhação imposta pelo vencedor, mas a sentida pela perda da batalha (embora haja quem critique essa versão dizendo que os japoneses jamais se renderiam).

O personagem Witt (James Caviezel) é um soldado sem alma de soldado, bondoso, contemplativo e superior. A vida simples e afetuosa dos nativos, com quem conviveu antes de ser resgatado para a guerra, o marcou profundamente, a ponto de qualificá-la como “outra vida”. Não é entendido por seu desafeto, o Sargento Welsh (Sean Penn), que acolhe a assertiva metafisicamente.

A indiferença inicial dos nativos em relação à guerra que transcorre ao seu lado é bem explorada, principalmente numa cena em que o exército americano se dirige ao seu objetivo e encontra um deles que segue imperturbável. Os soldados o olham surpresos.

Witt, no final, retorna ao vilarejo e percebe, perplexo, que a guerra corrompeu os nativos que discutem entre si. Crianças com quem antes brincava foram contaminadas por doenças e fogem dele:

“Nós éramos uma família. Como foi se desfazer, de tal maneira que nos viramos uns contra os outros, uns prejudicando os outros? Como fomos perder a bondade que nos foi dada, como a deixamos escapar, estilhaçando-a ao invés de cultivá-la? O que nos impede de crescer e alcançar a glória?”

O pior é constatar que muitos dos lugares comuns utilizados são atuais porque expressam princípios universais.

04/08/2004

A PRECE DE UM JUIZ - O Autor

O autor da oração postada abaixo, Dr. João Alfredo Medeiros Vieira, foi Juiz da Direito em Santa Catarina.


“A PRECE DE UM JUIZ”, hoje equiparada à Oração da Mestra, de Gabriela Mistral, e ao “Retrato de Mãe”, de D. Ramon Angel Jara, foi publicada inicialmente pela Prefeitura Municipal de Joaçaba, em junho de 1973; depois, em opúsculo, pelo Tribunal de Alçada Criminal do Estado do São Paulo e oferecida a todos os juízes no Natal de 1973; reproduzida, em fevereiro de 1974, por ocasião do Centenário do Tribunal de Justiça do Estado São Paulo, no livrete da Celebração Eucarística de Ação de Graças e lida na Catedral da Sé;publicada pelos Tribunais de Justiça de Minas Gerais e da Bahia, oferecida a todos os juizes; vertida para o Alemão, Inglês, Francês, Italiano, Espanhol. Árabe, Holandês e Hebraico; reproduzida em diversas obras e antologias, inclusive “Cristo Branco” de José Augusto Fontes Rico (Ed. Paulinas, SP, 1975); no anuário “Serra Post Kalender” (100.000 exemplares em língua alemã); na Revista Adventista, outubro 1974; e publicada em mais de duas centenas de jornais, revistas, suplementos literários como o de o Estado de São Paulo), programas, sessões artístico-religiosas da vários credos, opúsculos, folhetos e publicações de diversos países.

A PRECE DE UM JUIZ - Oração

A PRECE DE UM JUIZ - JOÃO ALFREDO MEDEIROS VIEIRA


SENHOR? Eu sou o único ser na terra a quem Tu deste uma parcela da Tua Onipotência: o poder de condenar ou absolver meus semelhantes.

Diante de mim as pessoas se inclinam; à minha voz acorrem, à minha palavra obedecem, ao meu mandado se entregam, ao meu gesto se unem, ou se separam, ou se despojam. Ao meu aceno as portas das prisões se fecham nas costas do condenado ou se lhe abrem, um dia, para a liberdade. O meu veredicto pode transformar a pobreza em abastança, e a riqueza em miséria. Da minha decisão depende o destino de muitas vidas. Sábios e ignorantes, ricos e pobres, homens e mulheres, os nascituros, as crianças, os jovens, os loucos e os moribundos, todos estão sujeitos, desde o nascimento até a morte, à LEI, que eu represento, e à JUSTIÇA, que eu simbolizo.

Quão pesado e terrível é o fardo que puseste nos meus ombros! Ajuda-me, Senhor! Faze com que eu seja digno desta excelsa missão! Que não me seduza a vaidade do cargo, não me invada o orgulho, não me atraia a tentação do Mal, não me fascinem as honrarias, não me exalcem as glórias vãs. Unge as minhas mãos, cinge a minha fronte, bafeja o meu espírito, a fim de que eu seja um sacerdote do Direito, que Tu criaste para a Sociedade Humana. Faze da minha Toga um manto incorruptível. E da minha pena não o estilete que fere, mas a seta que assinala a trajetória da Lei no caminho da Justiça.

AJUDA-ME, SENHOR a ser justo e firme, honesto e puro, comedido e magnânimo, sereno e humilde. Que eu seja implacável com o erro, mas compreensivo com os que erraram. Amigo da Verdade e guia dos que a procuram. Aplicador da Lei, mas antes de tudo cumpridor da mesma. Não permitas, jamais, que eu lave as mãos como Pilatos diante do inocente, nem atire, como Herodes, sobre os ombros do oprimido, a túnica do opróbrio. Que eu não tema César e nem, por temor dele, pergunte ao poviléu, se ele prefere "Barrabás ou Jesus”...

Que o meu veredicto não seja o anátema candente e sim a mensagem que regenera, a voz que conforta, a luz que clareia, a água que purifica, a semente que germina, a flor que nasce no azedume do coração humano. Que a minha sentença possa levar consolo ao atribulado e alento ao perseguido. Que ela possa enxugar as lágrimas da viúva e o pranto dos órfãos. E quando diante da cátedra em que me assento desfilarem os andrajosos, os miseráveis, os párias sem fé e sem esperança nos homens, espezinhados, escorraçados, pisoteados e cujas bocas salivam sem ter pão e cujos rostos são lavados nas lágrimas da dor, da humilhação e do desprezo, AJUDA-ME, SENHOR, a saciar a sua fome e sede de Justiça!

AJUDA-ME SENHOR!

Quando as minhas horas se povoarem de sombras; quando as urzes e os cardos do caminho me ferirem os pés; quando for grande a maldade dos homens; quando as labaredas do ódio crepitarem e os punhos se erguerem; quando o maquiavelismo e a solércia se insinuarem nos caminhos do Bem e inverterem as regras da Razão; quando o tentador ofuscar a minha mente e perturbar os meus sentidos, AJUDA-ME, SENHOR!

Quando me atormentar a dúvida, ilumina o meu espírito; quando eu vacilar, alenta a minha alma; quando eu esmorecer, conforta-me; quando eu tropeçar, ampara-me.

E QUANDO UM DIA, finalmente, eu sucumbir e já então como réu, comparecer à Tua Augusta Presença para o último Juízo, olha compassivo para mim. Dita, Senhor, a Tua sentença.

Julga-me como um Deus.
Eu julguei como homem.

03/08/2004

A REALIDADE DA VIDA - Curiosidade

Extraído de uma revista antiga, num consultório médico, há mais de 20 anos:


Deus criou o Burro e disse:
— Obedecerás ao Homem, carregarás fardos pesados nas costas e viverás 30 anos. Serás Burro.
O Burro virou-se para Deus e disse:
— Senhor! Ser Burro, obedecer ao Homem, carregar fardos nas costas e viver 30 anos? É muito Senhor! Bastam-me apenas dez.




Deus criou o cachorro e disse:
— Comerás o osso que te jogarem no chão, tomarás conta da casa do Homem e viverás 20 anos. Serás Cachorro.
O Cachorro virou-se para Deus e disse:
— Senhor! Tomar conta da casa do Homem, comer o que jogarem ao chão e viver 20 anos? É muito Senhor. Bastam-¬me dez.


Deus criou o macaco e disse:
— Pularás de galho em galho, farás macaquices e viverás 30 anos. Serás Macaco.
O Macaco virou-se para Deu, e disse:
— Senhor! Pular de galho em galho, fazer macaquices e viver 30 anos? É muito, Senhor! Bastam-me vinte.


E Deus fez o Homem e disse.
— Serás o Rei dos Animais, dominarás o Mundo, serás inteligente e viverás 30 anos.



O Homem virou-se para Deus e disse:
— Senhor! Ser Rei dos Animais, dominar o Mundo, ser inteligente e viver 30 anos? É pouco, Senhor! Vinte anos que o Burro não quis, 10 anos que o Cachorro recusou e 10 anos que o Macaco não está querendo, dai-me a mim Senhor, para que eu viva pelo menos 70 anos.

E Deus atendeu ao Homem. Até os 30 anos o Homem vive a vida que Deus lhe deu. É Homem.
Dos 30 aos 50 anos, o Homem casa e carrega os fardos nas costas para sustentar a família. É Burro.
Dos 50 aos 60, já cansado, ele passa a tomar conta da casa. É Cachorro.
Dos 60 aos 70, mais cansado ainda, ele passa a viver aqui e ali, na casa de um filho ou de outro e faz gracinhas para as crianças rirem. É Macaco.

NOTA: Esta é a realidade da vida. De nada adianta o Dinheiro, o Orgulho e a Vaidade se todos nós teremos que passar por esta fases...

02/08/2004

A EXCÊNTRICA FAMÍLIA DE ANTONIA - Filme

É muito prazeroso descobrir coisas belas ao acaso.

Foi assim, por exemplo, com Carl Orf. Entrei em contato com sua música através de um disco numa loja que nem lembro qual. E o fiz não através de sua obra mais conhecida, Carmina Burana, mas de outra, menos divulgada, Catulli Carmina.

Foi também enorme a alegria que senti ao ouvir, pela primeira vez, Spozalisio, de Liszt, interpretada por meu filho. Não conhecia a obra antes de nenhuma fonte. Acho que é uma de suas melhores peças curtas.

Logo que descubro alguma novidade ataca-me a compulsão de indicar minha descoberta a todos tentando impingir-lhes o meu gosto e convencê-los de que devem apreciar aquilo que aprecio porque o que aprecio é bom e é o melhor para eles. Neste aspecto, sou meio petista.

Minha última descoberta casual foi A Excêntrica Família de Antonia (no original holandês apenas Antonia) que me propiciou momentos de alegria, tristeza, satisfação e melancolia. Mas com um deleite que há muito não experimentava num filme.

Não o conhecia, o que não significa que não seja famoso. Pelo contrário, é multipremiado: Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1996, Melhor Filme do Festival de Toronto, Melhor Roteiro no International Film Festival de Chicago e Melhor Diretor no Hamptons Film Festival. Devo penitenciar-me por ser tão mal informado.

É um filme peculiar. A diretora Marleen Gorris soube dosar momentos de alegrias, tristezas, tragédias e superação de modo eficiente e integrado.

Retrata primordialmente mulheres que, em princípio, não precisam de homens. Ou deles necessitam apenas para a procriação, embora a própria Antonia acabe por sucumbir, não na forma tradicional, aos apelos afetivos de um pretendente. A preferência sexual das personagens é exposta com alguma concisão num único trecho do filme, numa seqüência-resumo não apelativa e plasticamente bem feita.

O filme inicia com Antonia voltando ao vilarejo onde nasceu para enterrar sua mãe, logo após a II Guerra. O primeiro susto: a mãe se ergue, diz alguns impropérios de cunho admoestador à filha e à neta e volta à sua imobilidade mortuária. Logo se percebe que é apenas a materialização do inconsciente de Antonia, usado depois em outras seqüências.

O filme valoriza a vida em comunidade mais que a familiar. Politemático, passa por discussões sobre a Vida e a Morte, Filosofia, Matemática, Religião, especialmente através de um excêntrico habitante do lugar que se dedica a estudar Schopenhauer e Nietzsche.

Aliás, os personagens, em sua maioria, seriam excluídos sociais em qualquer lugar do planeta: um casal de retardados mentais (ela fora estuprada pelo próprio irmão), uma mulher solitária que uiva para a lua cheia e seu vizinho do andar inferior que camufla sentimentos de amor por ela, outra cujo maior prazer é procriar e que, surpreendentemente, morre no parto... Mas ali, naquele lugar, conseguem viver em relativa harmonia, como uma orquestra desafinada que, em alguns compassos, consegue performance adequada. Esse amálgama de caracteres, por incrível que pareça, acaba por projetar um resultado interessante e surpreendente.

As palavras finais revelam a honestidade da intenção da diretora: “E assim, tanto quanto esta crônica, nada se conclui”.

Uma crônica com tendência surrealista, às vezes divertida, às vezes trágica, quase sempre paradoxal, de retalhos de vidas que se encontram, confraternizam, brigam e se chocam no resumo do mundo que é o vilarejo rural onde moram e necessariamente se cruzam.

18/07/2004

NAS ASAS DO QUETZAL - Comentário


Há algum tempo deixei de ler romances. Troquei o gênero por biografias e por relatos de fatos reais. São mais confiáveis, exceto as autobiografias: nestas, inconscientemente (ou não) os autores minimizam suas fraquezas e exaltam seus acertos.
Os romances me desencantaram, muitos por sua inverossimilhança, muitos por sua artificialidade e também por erros históricos ou do próprio entrecho.
A vida real sempre é mais interessante. Os dramas, sofrimentos, alegrias e desenganos são autênticos, sem que o autor tenha que se contorcer visando dar credibilidade a fatos psicológicos que não experimentou.
Li muito sobre compositores, principalmente Mozart, cuja vida é peculiar. Nenhum romancista, por mais imaginativo que fosse, poderia criar aquele enredo sofrido e doloroso cujo personagem, mesmo assim, nos deixou obras alegres e vivas, numa contradição psicologicamente difícil de entender. Algum dia vou me deter mais sobre o assunto.
Depois me dediquei a leituras sobre a conquista do Everest. Li inclusive as insinuações um tanto maliciosas de Jon Krakauer (No Ar Rarefeito) contra o alpinista russo Anatoly Boukreev e a resposta deste, mais convincente (A Escalada), em relação à tragédia de maio 1996. Vi o dvd Morte no Everest, baseado no livro do primeiro.
Depois me envolvi com as conquistas dos pólos e o trágico desfecho da incursão do capitão Scott, sobrepujado pelo norueguês Amundsen na chegada ao Pólo Sul, em obras baseadas em relatos dos próprios personagens e em outros. Devorei mais de 5000 páginas a respeito.
Recentemente li um livro de um porto-alegrense que refoge às características épicas desses últimos.
América Central nas asas do Quetzal, de Eduardo Soares Batista, narra as peripécias e descobertas de uma viagem de cinco meses por países da América Central (Belize, Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá), quase sempre via terrestre para reforçar o contato direto com lugares e pessoas. O próprio autor sai advertindo que “o principal personagem do livro é a região, não é o viajante”.
Eduardo é um mochileiro esclarecido formado em Economia e Engenharia Química e atualmente cursa História da Unisinos. Nas suas andanças pelo mundo “já exerceu a função de engenheiro na França, foi garçom na Grécia, agricultor em Israel e professor de Inglês em Porto Alegre”.
Não se trata de um épico nem o autor saiu a subjugar píncaros ou lugares inacessíveis ou inalcançados nem quis ser um pioneiro e conquistar cidadelas inexpugnáveis. Também não o motivou o espírito “heróico” e oportunista de outros que, seguros em cápsulas e bem patrocinados, saem mundo afora estimulados pelo prazer da aventura e do desafio às vezes gratuito e sem sentido.
Antes traça um perfil sobre a incomum e peculiar civilização Maia, cujo povo se dispersou como que cumprindo um acordo tácito por motivos ainda não esclarecidos e passou, de uma forma ou de outra, a enriquecer a cultura e a formação dos países visitados.
Destes, extrai verdades históricas, geográficas, sociais e econômicas, algumas que sequer supomos pudessem existir tão relativamente perto de nós. Outras, como a pobreza, tão familiar porque comum a todos os povoeiros dessas américas que até no globo terrestre situam-se em posição inferior.
Só o contato direto e estreito, pessoal, tête-à-tête, poderia revelar alguns desses mistérios de nós desconhecidos. Pois, como adverte o autor, “as vestimentas coloridas dos indígenas podem ofuscar nossos olhos e mascarar a sua realidade que pode ser preta e cinza”.
Nessas revelações reside a força principal da obra.

17/07/2004

A IGREJA DE OURO DE TAIÓ

Em Taió tem uma igreja de ouro.

A primeira coisa que eu me lembro é que nela levei um tapa na cara de uma freira velha. Tão velha que hoje deve estar dando trompaços no Diabo, com o qual tanto nos amedrontava.

Tomei ali a primeira comunhão com um padre que depois virou bispo e curandeiro e hoje é aposentado. Mas é muito considerado, não sei se por um motivo ou por outro.

Eu passava mal nos domingos de manhã por causa do jejum de três horas. Depois reduziram para uma, mas a fome era a de uma noite inteira: quem iria se levantar uma hora mais cedo aos domingos? A missa não acabava nunca...

O padre Eduardo, que xingava mulheres e cachorros, esticava no final com mais três Ave-Marias, um Pai-Nosso e uma Salve-Rainha. Decerto pecávamos demais.

Mas as missas se tornaram mais agradáveis depois, nos sábados à noite. Eu, adolescente garboso e desajeitado – os adolescentões podem ser uma e outra coisa ao mesmo tempo –, ia ver as gurias. Uma, principalmente, que partiu e me partiu no dia 05 de junho do ano que não acabou.

Depois me recompus e, ainda estudante universitário, voltei a Taió para me casar na igreja de ouro. Sou casado até hoje. Com a mesma mulher!
Batizei lá meu primeiro afilhado, depois velei minha mãe e mais tarde batizei minha filha. Dois irmãos casaram-se nela e estão casados até hoje. Com as mesmas respectivas mulheres. Alguns de seus filhos também foram batizados naquela igreja.

Sempre, daí, o Padre Moacir, um padre com estampa de santo.
Sinto-me feliz porque tive oportunidade de lhe escrever uma carta dizendo exatamente isto. Ele não deu a mínima importância.
Mais tarde, em 1999 ele morreu, ainda moço, porque não tinha tempo de ir ao dentista. Um dia infeccionou-lhe um dente e resolveu fazer um tratamento nada ortodoxo com o próprio canivete. Septicemia. Fulminante.

No dia 25 de abril de 1984 – “diretas já!” e aniversário da Revolução Portuguesa – ali velei meu pai.

Depois, no mesmo ano, nasceu meu filho. Foi ainda o Padre Moacir que o batizou. Mas não naquela igreja.

Alguns ciclos se quebram por vontade nossa. Outros, naturalmente.


É bom, para que não se tornem viciados.



10/07/2004

A BUSCA DO TEMPO ANTERIOR - Canto III - Poesia

(Canto III: modo antico, adagio lamentoso)


Amarga é a saudade de quem espera reencontrar
quem nunca encontrou!

Sou eu a revisitar a quem nunca visitei,
a quem esqueci de esquecer e me esqueceu,
alguém que eu não perdi mas nunca achei.

Sou eu a recantar uma canção que nunca cantei,
a reescrever este verso que nunca escrevi,
a dialogar com fantasmas que exorcizei...
...a abraçar um vazio pleno de ti...

(Ah! que equação irracional
a despedida assim, sem se despedir:
partir sem sair do lugar;
ficar, e ao mesmo tempo, partir).

Saíste da minha vida sem sair
que nem sei como algum dia voltarás.

Busco em mim e só encontro a ti,
a mim procuro e não encontro nada
(não sei aonde foi que me perdi).

Talvez um dia eu encontre em ti
fragmentos da minha alma espedaçada!