13/06/2009

CAUSOS NA VIDA DE UM JUIZ

Quando assumi minhas funções em Iraí, em 1982, o clima na cidade estava conturbado. O prefeito anterior renunciara e o substituía o Presidente da Câmara de Vereadores, um forasteiro, de partido diverso, dotado daquele dúbio dom especial, hoje comum na maioria dos homens públicos: atrair a simpatia dos correligionários e o ódio da oposição com o mesmo grau de sentimento inversamente apaixonado.

Era, além disto, tempo de Ditadura Militar, embora nos seus estertores. Mas muito temor ainda se camuflava nos recônditos dos lares e nas atitudes propositalmente contidas dos cidadãos honestos e sofridos desta pátria.

Convidaram-me para discursar no dia 7 de Setembro. Mas, como era comum naquele tempo, o tema (no caso, temas) veio previamente fixado pelo Cerimonial da Prefeitura: “Liberdade, Independência, Ordem e Progresso”. Isto para limitar o conteúdo da fala e não ensejar margem a pregação ideológica contrária ao regime.

No começo não gostei muito da idéia e pensei em declinar, penhoradamente, de tão honrosa missão. Depois, olhando enviesado, acabei achando bom. Aliás, não podia ser melhor. Erguia-se ali uma ótima oportunidade para eu dar o meu recado.

Fiz a minha oração para centenas de alunos perfilados naquela manhã ensolarada. Em termos não agressivos, mas suficientemente claros, construí uma linha de pensamento que projetava a conclusão de que no Brasil da época não havia nem liberdade nem independência nem ordem nem progresso. Detive-me em cada um dos temas e, obviamente, explicitei razões objetivas. Procurei não me estender muito porque discursos e reuniões são coisas que até admito existir, desde que eu não seja participante. Mas às vezes não há como escapar.

Notei alguns sorrisos amarelos das demais autoridades e recebi uns cumprimento frouxos, depois, mas nada que me inquietasse ou surpreendesse.

Ao chegar em casa encontrei a Ieda com ar preocupado. A solenidade fora transmitida pela Rádio Marabá e ela ouvira:

– Acho que vão te prender por causa desse discurso!

Obviamente não me prenderam nem repreenderam e as repercussões foram mínimas. Quem iria se preocupar com o que dizia um juiz de Iraí? Mas, também, nunca mais me convidaram para discursar em qualquer solenidade na Comarca.

Um ano e pouco depois, no jantar de minha despedida, fui impedido de falar. Mas então por um persistente edema de cordas vocais.

Dizem que foi praga!



Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 19/07/2004.

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26/04/2009

MINHAS PANTUFAS NOVAS

Hoje é domingo, dia de amenidades ou de silêncio no blog, como domingo passado, que foi o Dia das Mães.

Não escrevi nada naquele dia. Emoção de pai ao rever a filha que mora longe e veio trazer um abraço para a mãe sobrando uma generosa rebarba para o papai. O marido ficou choroso em casa e já estava com saudades antes de ela sair. Telefona de três em três horas.

Mas para escrever sobre o tema de hoje, as minhas pantufas, preciso antes digressionar um pouco e dar explicações à guisa de introdução, como gostam de dizer os juristas:

Primeira introdução: gosto do frio muito mais do que do calor. Mas não gosto de sentir frio, o que é bem diferente. Experimento uma bela sensação de bem-estar quando há frio lá fora mas estou bem agasalhado e quentinho aqui dentro. Já escrevi sobre isto no blog.

Segunda introdução: por isto, há anos, gosto de usar pantufas e podem ter certeza que elas não são um adereço apenas pós-aposentadoria.

Mas minhas pantufas velhas, que devem ter mais de dez anos, estão, como se diz em Taió e em outros lugares do Brasil, em “petição de miséria”. Embora a lã de ovelha ao redor permaneça em bom estado, o seu interior está desgastado e até um ou outro furo apareceram nas laterais, o que percebo quando ando pelos pisos frios da casa. Pés quentes é indispensável!

Terceira introdução: há tempos venho procurando um par de pantufas novas, sem êxito. Nem a Ieda nem eu encontramos iguais ou semelhantes. Devo ser uma das únicas pessoas do mundo que gosta de sentir os pés quentes abrigados por pantufas grandes como quem agasalha os pés com um casaco de peles. No caso, de ovelha, para não melindrar ecologistas. Só isto pode explicar a sua ausência nas boas e nas ruins casas do ramo.

Quarta e última, e muito importante, introdução: temos um costume que começou assim que casamos do qual me orgulho de ser o mentor. Cada vez que há alguma festividade, como aniversário ou outra data em que só um membro da família é festejado, todos ganham presentes. O homenageado recebe presentes de todos os outros. Em compensação presenteia os demais com alguma lembrancinha. Nada muito caro, pois senão ele não se sentirá devidamente compensado pelo seu dia. Geralmente isto ocorre de manhã bem cedo e o homenageado é acordado com um desafinado “Parabéns a Você”, este ano bem mais afinado porque a Michele, namorada do Francisco, que é cantora lírica, também participou.

Conclusão: no Dia das Mães a única mãe da casa ganhou seus presentes e deu presentinhos aos demais. A mim me coube um par de pantufas. Essas aí em cima. Fizeram eu calçá-las, bateram fotos, festejaram e riram ainda ao redor da cama onde a festa começou. Parecia que a mãe era eu e isto não deixa ter um pouco de verdade: sou um pai que é uma mãe, embora meus filhos não concordem.

Fomos almoçar fora e ao voltarmos, pelas 15,00 horas, eu, que sempre fui cincunspecto e comedido, me flagrei aflito atrás das minhas pantufas novas...

Elas são aquecedoras, aconchegantes e... espalhafatosas. A Clarissa e a Ieda, que as compraram, disseram havia outras, inclusive com motivos da Copa do Mundo e cores berrantes do Brasil. Havia de vários personagens de desenhos animados, como do Ursinho Puff, do Tigrão, do Pluto, da Hello Kitty... Algumas imitando patas de animais. Estas eram largas e tiveram medo que eu tivesse de andar de pernas abertas e caísse. E não estou tão velho a ponto de andar arrastando os pés. Acho, nunca prestei atenção.

Finalmente, sexta-feira, a Ieda, por acaso, achou numa loja pantufas iguais às antigas. Recusei educada, mas solenemente. Ainda que com sérias dúvidas, que me fazem coçar a cabeça, de vez em quando, sobre os motivos ocultos da escolha do personagem, prefiro as do Pateta.

Elas me assentam perfeitamente!

Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em
21/05/2006.
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03/04/2009

UM DOMINGO DIFERENTE

Domingo resolvi fazer um programa diferente: ver um jogo de futebol ao vivo. Não pela tevê, ao vivo mesmo. Não fui ao Olímpico nem ao Beira-Rio, mas a um campinho aqui no bairro, aberto ao público, sem alambrado e, pelo que pude observar, nem é bem retangular nem muito plano.

Fui para matar a saudade de minha infância em Taió, quando o União e o Cacique eram os dois times mais fortes, embora em certa época o Fortaleza, do Ribeirão da Vargem, tenha dominado o cenário regional por algum tempo.

Lembro de jogadores como o seu Dodô que era avô, mas ainda jogava de centro-avante do União. O Facão, alto e forte, nariz adunco e cego de um olho era o center-half. Depois o União andou importando jogadores de Florianópolis e com isto perdeu-se a identidade futebolística taioense. Mais tarde, depois de voltar do colégio, por ter ido morar na parte de cima da cidade passei a torcer pelo Cacique.

Eu também joguei futebol em Taió. Minha carreira foi meteórica. Saí do juvenil diretamente para os veteranos do Cacique. Devo ter jogado umas duas partidas em cada categoria. Bati um recorde que, acho, vou pedir para inscrever no Guiness: sem dúvida sou o jogador mais novo a jogar nos veteranos. Apenas 25 anos... O Ronaldinho Gaúcho tem 26 e não chegou lá ainda.

Mas no jogo que fui ver domingo jogavam um time chamado Estrela, aqui do bairro, contra um da Restinga. Quando cheguei estava 2 a 0 para os visitantes, mas o jogo acabou 3 a 3. Sorte do juiz! O nível das equipes se compara com o dos grandes times do Brasil, pelo menos num aspecto: a manha dos jogadores. Qualquer encostada provocava uma queda cinematográfica e a impressão de fraturas generalizadas que dois minutos depois estavam perfeitamente consolidadas...

Mas não há mais aquele fair-play da minha infância. A torcida, embora pouco numerosa, é agressiva e o juiz é a principal vítima. Ele marcou um pênalti contra o time da casa e cinco ou seis torcedores – quase a totalidade – invadiram o campo e um deles chutou a bola para longe. Nada comparável à torcida de Taió comandada pelo seu Maneca Negreiros, que ficava gritando chistes não ofensivos aos jogadores adversários. Já assistir a jogos perto do seu Vital era um perigo: quando, no campo, um jogador estava com a bola nos pés e demorava para chutar ele chutava e não poucas vezes acertava alguém próximo.

Já a dona Santa, da antiga Rua do Inhame, torcedora fanática do União, levava os filhos juntos, Uma vez, na arquibancada, um deles mijou nas costas do Eládio, sentado mais abaixo com a namorada...

Todas essas coisas até poéticas foram substituídas por palavrões, agressões físicas e ameaças.

Mas quando voltei e sintonizei o jogo Corinthians contra Ponte Preta, aqui transmitido pela Record, senti uma das vantagens do campinho do bairro: lá não havia um locutor esportivo chato berrando e se esganiçando descrevendo aquilo que a gente vê e muitas vezes aquilo que nem acontece, nos desmentindo assim na cara.

Mas há desvantagens também. Você não pode se distrair num jogo visto no campo. Eu tive a capacidade de perder um gol. Meio distraído só olhei quando a torcida comemorava, o goleiro estava caído e a rede balançando.

No momento não me preocupei. Fique olhando e esperando o... replay. Isto mesmo. Acostumado a ver jogos pela televisão digitando ou navegando na Internet ao mesmo tempo, meu inconsciente mal acostumado me fez aguardar a repetição do lance... É uma sensação estranha, essa de esperar o que está para vir mas nunca virá.

Já tenho a solução para a próxima vez: vou levar uma câmera de vídeo e um aparelho de tevê para servir de monitor e gravarei a partida. Terei replay e poderei ver o jogo pela tevê sem a inconveniência de ouvir um narrador chato.


Publicada, originalmente, no blog Jus Sperniandi,
em 02/05/2006.
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29/03/2009

PRESTANDO CONTAS

Alguém aí de Florianópolis, por favor, me avise quando houver algum retiro espiritual no convento do Morro das Pedras, aquele à direita de quem vai para a praia de Armação da Piedade.

Gosto muito desse nome, Armação da Piedade, mas ainda não descobri se é só armação, se é só piedade ou se é uma armação da piedade pra cima da gente. É! Não deu! Não foi falta de esforço.

Mas acabo de descobrir que após me livrar dessa declaração de imposto de renda vou precisar de algo como um retiro. Viver como estou, no meio de uma parafernália eletrônica que transforma o que resta de minha vida em artificialidade e artificialismo, definitivamente não vale à pena.

Há pouco me surpreendi com o mouse não funcionando. Daí me lembrei: estou trabalhando com dois micros ao mesmo tempo, o de mesa e o notebook, ambos ligados e abertos lado a lado e é claro que o mouse de um não funciona no outro.

A televisão, um pouco mais acima, fora do meu raio de visão, também está ligada na Globo desde o noticiário do meio-dia, mas pelo menos está falando sozinha.

Um monitor pequeno alterna as imagens de três câmeras apontadas para a rua, mas isto é importante para minha segurança. Vi que a Ieda entrou na garagem há pouco e não precisei me levantar, pegar a pistola e salvá-la das mãos de larápios. Nunca pude salvar a Ieda de nada. Sou um frustrado! Sempre fui mais um Sancho Pança do que um Dom Quixote!

Percebi, também, que está chovendo. Quem lê o blog sabe que gosto de dias chuvosos e pode até cair trovoada que não me incomodo. Estou curtindo adoidado esta chuva mansa e tranqüila, que não posso ouvir, através do monitor, minha janela para o que se passa ao redor de pontos estratégicos (portas e janelas não são mais apenas aberturas, são pontos estratégicos numa casa) numa ridicularização do sentido do ser. Ora já se viu apreciar a chuva que cai ali, a três metros, através da televisão... Mas é o que estou cofazendo.

Além de tudo isto estou com fones de ouvido escutando música clássica e isto é, seguramente, o que estou fazendo de melhor.

Talvez eu devesse gravar a batida da chuva no telhado num cedê e ficar ouvindo a chuva que vejo pelo monitor. Para tornar esta vida mais realística vale até transformar o artificial em natural.

Estou às voltas com minha declaração do IRPF e faz três dias que não sei onde enfiar, digo, onde lançar valores como “Juros s/capital próprio” no total de R$ 0,72 de fevereiro de 2005. Ou “juros sobre o capital próprio declarados no ano calendário 2005 a serem pagos em exercícios subseqüentes”, estes mais substanciais, de R$ 126,58. Temo enriquecer muito.

Há uma orientação aqui: “A pessoa física deverá lançar o total do valor líquido dos rendimentos não pagos, na declaração de bens, como créditos devidos pela Pessoa Jurídica”. Parece que, contra todas as regras do Direito que sempre prezei, preciso lançar como bens créditos futuros e incertos sobre os quais já retiveram imposto de renda. Não sei.

Acho que preciso de mais um computador. Depois, de um retiro espiritual de trinta anos. Talvez menos. Obrigatoriamente só até abril do ano que vem, quando deverei prestar contas novamente ao rei das selvas.

Estou falando do Leão, ou melhor, do burro vestido de Leão, aquele da fábula, lembram? O nosso não passa disso.


Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 25/04/2006.
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22/03/2009

QUASE FUI UM ESCRITOR DE VANGUARDA

A Lêda, num comentário ao post Use Camisinha, mas não Sempre, me deu um puxão de orelhas. Por favor, não confundam com a Ieda, minha querida esposa. Desta eu levo puxões de orelhas todos os dias.

Mas a Lêda perguntou porque todo gaúcho é machão. Não gostou de dois vocábulos – acho que foi isto – que usei no texto.

Quem lê o meu blog há mais tempo sabe que normalmente não uso palavras chulas, não porque tenha alguma coisa contra quem o faz, mas porque simplesmente não gosto de fazê-lo sempre que for possível substituí-las por outras, mais sociais. Mas no caso da piada, a substituição a tornaria artificial e pedante. Também sabe que não sou gaúcho, embora resida no Rio Grande do Sul desde 1982. Sou catarinense, de Taió!

Claro que a Lêda, em me visitando pela primeira vez, não poderia saber disto. Mas esclareci na resposta ao comentário, em que não fui lá muito delicado. Através de e-mails a gente – como ela diz – selou o compromisso da paz.

Mas, coincidentemente, a Veja de 1.º/03/2006, pág. 94 traz uma reportagem de Jerônimo Teixeira que declina os requisitos para um escritor ser bem sucedido no Brasil hoje. Não sei se ser bem sucedido é vender bem – como o Paulo Coelho, que não aprecio como escritor – ou fazer sucesso com a crítica dita especializada.

Em todos os casos, ai vão os requisitos que a Veja informa, embora em tom acerbamente crítico, como escrever um livro “transgressor”, isto é, para chocar os leitores e, por isto mesmo, ter seu lugar na mídia e vender: escrever com desleixo, ser nojento (flatulências, ejaculações, excreções – todos os fluidos e gases corporais merecem descrições detalhadas), falar de sexo selvagem (tudo deve ser descrito com abundantes palavrões), criar personagens malditos e ser narcisista.

Penso nisto. Tenho três livros prontinhos, dois quase e uma centena – até a última vez que falei nisto eram 19 – na cabeça, todos eles que farão grande sucesso (não sei se de crítica ou de público), sem contar no risco de, pela primeira vez, um brasileiro ganhar o Nobel de Literatura.

Mas como estou meio passado na idade precisaria viver mais uns 50 para ser reconhecido e então seria premiado no pleno vigor dos meus 104 anos. Acho que a Academia não correria o risco de premiar um autor moderno e já ultrapassado.

Mas o risco maior, mesmo, seria freqüentar a Academia Brasileira de Letras ao lado de escritores como... José Sarney, por exemplo. Sua obra maior, Marimbondos de Fogo, é mais importante pelo título do que pelo contexto. Guarda, o título, uma profecia ligada ao PT e à sua tomada de poder. Entenderam? Dão ferroadas, deixam o rabo preso e tomam umas e outras. Acho que ele deveria lançar uma edição só com a capa e as páginas em branco, pautadas, para ser distribuída entre alunos carentes.

Mas o que me desanima muito são os apelos (ou apelações) referidas pela reportagem de Veja, além da minha preguiça fundamental (já pensei em escrever um livro de auto-ajuda para quem tem preguiça de escrever livros, mas a preguiça não deixa). E não gosto de usar palavrões. Não gosto de descrever cenas de sexo ginecológico e com isto, adeus sucesso.

Viu, Lêda. No fundo não sou o que você pensa. Mas quando escrevi o texto do qual você não gostou eu fui um vanguardista, mesmo que não soubesse.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 03/03/2006.
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06/03/2009

PARABÉNS, MULHERES!



Hoje é o dia delas, assim como foi ontem e como será amanhã. Mas hoje é diferente: hoje se comemora o dia delas.
Bem feito! Quem precisa de um dia para comemorar é porque nos outros dias é esquecido.
Não. Não é bem assim, é assim só um pouco. Como o dia das Mães. Como o Natal. Como a Páscoa. Como o dia dos pobres, isto é, dos aposentados.
O dia dos aposentados existe. Aliás, por algum engano sócio-legislativo creio que até dois. Há algum tempo, homenageei a mim mesmo pelo dia dos aposentados. Uns dois meses depois a tevê anunciou um novo dia dos aposentados. Nem falei nada porque fiquei confuso. Mas, para o ano, vou conferir. Não acredito que os aposentados tenham dois dias.
A sogra pode ter. Aliás, falando em sogra, a minha – que evidentemente é uma mulher – está aqui, veio nos visitar e passar uns dias com a filha predileta e o genro idem. Esta conclusão emergiu após muita discussão familiar em que por pouco não entramos em vias de fato, que é como os juristas chamam a briga de mão mesmo. Após eu ter puxado o revólver, todos os demais amigavelmente concordaram, pois são muito pacíficos os meus cunhados. Menos um, mas este não estava presente. Certamente estava a bordo de um óvni, pois já foi abduzido e escolhido entre os bilhões de seres humanos como um reprodutor intergaláctico. Mas esta é outra história.
Não se criou até hoje o dia dos pobres, especialmente dedicado aos miseráveis (o dos aposentados não supre a omissão), por falta de perspectiva de retorno financeiro. Qual é o rico que vai comprar presentes para dar aos pobres? Rico não paga nem salário decente às empregadas domésticas ou aos empregados de suas empresas, quando mais dar um extra no dia dos pobres.
Dia dos ricos também não existe. Como um rico iria comemorar um dia só seu? Trocar presentes, fazer demonstrações explícitas de riso à toa? Eles não precisam disto. Já têm tudo o que nós, mortais comuns, julgamos necessidades básicas e não básicas, e riem à toa, vivem de férias, e se incomodam, é claro. Mas eu trocaria a metade dos incômodos de um Antonio Ermírio, por exemplo, pelo dobro de sua fortuna. Sem pensar duas vezes.
Os ricos, principalmente os da área da indústria e comércio, precisam de datas comemorativas de todo mundo para faturar ainda mais, menos deles mesmos. E dos pobres, naturalmente.
Mas como sou muito comum e sem criatividade vou embarcar nessa onda comercialista e deixar aqui um beijo homenageando todas as mulheres do mundo, mesmo aquelas que não tem nada com isto.
Peço que cada uma, no seu íntimo, receba este cumprimento de acordo com suas crenças, seus sentimentos e o que pensa disto tudo, especialmente desta data.
Eu estou fazendo de conta que todas aniversariam hoje. E o aniversário é uma data legítima para parabenizar alguém.
Então, além do beijo, meus parabéns pelo Dia Internacional da Mulher. Que ele se repita todos os dias!
Tenham certeza de que vocês merecem muito mais do que isto.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 08/03/2006, no Dia Internacional da Mulher.

21/02/2009

CUIDADO NO USO DA CAMISINHA

O sistema de codificação-decodificação da linguagem pode criar confusão e afastar pessoas mesmo quando seu objetivo é exatamente o contrário. Como pode, também, dar margem a interpretações dúbias e induzir em erros.

Já escrevi aqui sobre o anúncio de uma cerveja que, no final, recomenda: aprecie com moderação. Tentei demonstrar que a mensagem não orienta a que se deva beber com moderação, mas a apreciar com moderação, o que é muito diferente. Você pode beber até cair mas ter apreciado apenas moderadamente a bebida.

Ontem à noite estava esperando o jogo do Corinthians contra o Sorocaba... Fazer o quê? Cada um acompanha o time pelo qual torce nas grandes e nas pequenas campanhas. Pelo menos nas pequenas a gente pode ter a sorte de pegar uma vitória, o que está difícil com o Corinthians.

A outra opção, bem menos alienada – se quiserem assim –, era o show de abertura do Fórum Social Mundial. Mas a TVE, que o transmitia, ainda não aprendeu a calibrar um som audível nas transmissões ao vivo. Estava horrível, com uma interferência indesculpável. De vez em quando uma interrupção com a mensagem “no signal received” na tela. Sem contar que entre rock indiano e jogo do Corinthians, mesmo que seja contra o Cacique ou o União (dois times de Taió), prefiro a segunda opção.

Mas como dizia, esperava o jogo do Corinthians contra o Sorocaba, com o teclado no colo e navegando, e me chamou atenção uma publicidade oficial para o Carnaval que vem aí. Várias celebridades, capitaneadas pela Daniela Mercury, aconselham os homens a usar camisinha sempre. Sem qualquer ressalva.

Ora, sempre, não! A mensagem deveria ser mais clara ou, pelo menos, não tão obscura. Imagine o garotão, ainda adolescente, saindo para o carnaval e reclamando:

– Ô manhê! Vem aqui. Ajuda arrumar essa camisinha. Ela está apertando no colarinho. Esta não, esta já usei ontem.

Esse use sempre lembrou-me de uma piada que, se não me engano, andou correndo pela Internet. Se não, que comece agora.

O estancieiro não agüentava mais as queixas da mulher: era todo ano um filho e o casal já tinha uns quinze. Ele foi ao boticário, expôs a situação. Naquele tempo, anticoncepcionais só mediante prescrição médica. O farmacêutico receitou camisinha. Explicou como se usava e foi incisivo: use sempre! O gauchão se interessou e, abonado dos trocos, comprou logo todo o estoque, para se garantir.

Dois meses depois retornou à farmácia, revoltado e mais brabo que mamangaba amarela. Jogou um resto de camisinhas no chão, quebrou o chapéu na testa e desafiou:

– A mulher velha tá prenhe de novo. E agora, o que é que tu me dizes, índio velho atochador?

O boticário, amedrontado mas experiente, foi levando na maciota, acalmou o gaúcho e, então, perguntou:

– Mas o senhor fez certinho como eu mandei?

– Mas claro, tchê. Tá duvidando da minha pessoa?

– Não, não. Só estou estranhando. Tem certeza de que usou sempre?

– Sempre sempre! Só tirava prá mijar e prá comer a patroa.

Então, você que vai cair na farra neste Carnaval, não precisa levar a orientação governamental ao pé da letra. Não é necessário usar a camisinha sempre. Aliás, é mais importante que você só a use quando for fazer sexo.



Publicada no blog Jus Sperniandi,
em 25/02/2006.
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14/02/2009

I AM LOST

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Estou ficando com medo de viajar de avião. Não que eu receie acidentes, sempre viajei tranqüilo, mesmo fibrilado, sentindo apenas um pouco de mal-estar na decolagem.

Mas, numa capitulação que nem eu mesmo consigo entender bem, estou assistindo a série Lost, exibida pela TV Globo por volta da meia-noite.

Creio que você pelo menos já ouviu falar dela, que em um desses canais pagos está na segunda temporada.

Resumindo: a história trata de sobreviventes a um acidente aéreo em que o avião se rompeu pela metade (não sei como não foram todos lançados para fora porque não vi os primeiros capítulos). Mas não é não em razão do acidente o meu temor. Sempre procuro viajar na metade do avião e, num acidente como o da série, teria chances de ser um dos sobreviventes.

A ilha situa-se na linha do equador, é quente e nela ocorrem fatos estranhos, como, por exemplo, a aparição de um urso polar – pelo menos assim identificado ou chamado – que devora pessoas. Ele deu uma trégua nos últimos capítulos. Mas ainda não é a incrível possibilidade da existência de um urso polar numa ilha equatorial que me assusta. A política brasileira abriga rinocerontes e elefantes brancos e essas coisas não me impressionam mais.

Os personagens principais que estavam no avião são um cirurgião atormentado por ter delatado o próprio pai, também cirurgião, por erro médico; um casal de chineses que não se entende (ele é violento e perigoso, segundo ela); um ex-soldado iraquiano torturador; a moça mais bonita participou, antes, de um assalto a banco e matou os próprios companheiros para se apoderar de algo ainda não revelado; um roqueiro frustrado que na ilha conseguiu livrar-se do vício das drogas e se envolveu platonicamente com uma garota grávida que foge de seu passado, foi seqüestrada e está desaparecida; há um cara fortão, de meia idade, esquisito, que viajava em cadeira-de-rodas, mas recuperou, inexplicavelmente (até agora), a saúde e saiu andando sem precisar de fisioterapia; há uma garota loira, muito bonita, complexada porque se sente inútil; um negro, pedreiro, separado da mulher e complexado, que viaja com o filho mal educado de 12 que de vez em quando o desqualifica, comparando-o com os demais.

Não há um único personagem normal. Todos têm um passado recente de problemas sérios e se reuniram numa coincidência filmográfica para uma mesma viagem para a Austrália e agora são obrigados a conviver.

Isto é que me atemoriza. Não a convivência na ilha. Mas já pensou você embarcar num avião com tantos tresloucados reunidos, como se tivessem combinado para, naquele exato dia, viajarem no mesmo vôo? Todos bandidos, nenhum mocinho? Não há um desembargador aposentado, um executivo, um cantor sertanejo, um empresário honesto, uma só alma bondosa ou sem remorsos entre os personagens. Você não acha que viajar com uma turma de esquizofrênicos como esta não é atemorizador? Aí a verdadeira razão da minha paranóia.

Uma coisa já conclui. O título da série, Lost (Perdidos), não é justificado pelo fato de estarem todos à própria sorte numa ilha deserta (ou aparentemente deserta). Afinal, por suas personalidades psicopatas, ou fronteiriças, eles já estavam perdidos antes mesmo de embarcar.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 18/02/2006.

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12/02/2009

UM ABRAÇO, ALBERTO COHEN


Meu amigo e poeta Alberto Cohen está de aniversário hoje.
Abaixo, como homenagem, um poema que está à pagina 69 (ops!) de seu livro Poemas sem Dono, da editora Scortecci, e que obteve o 1.º lugar no II Prêmio Literário Livraria Asabeça.

Um abraço, Cohen.

Alberto Cohen

SESSENTA

Sessenta passos andados,
sempre no mesmo lugar,
sessenta sonhos sonhados,
quase nenhum por sonhar.
Sessenta vezes sessenta
cansaços de ainda estar,
sessenta menos sessenta
chances de poder voar.
Sessenta medos do escuro,
sessenta mil pesadelos,
sessenta milhões de muros,
sessenta bilhões de apelos.
Sessenta abraços de amigos,
sessenta beijos de Judas,
sessenta prêmios – castigos,
sessenta Deus nos acuda.
Sessenta bater de portas,
sessenta olhares matreiros,
quantas naturezas mortas
em sessenta fevereiros.

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08/02/2009

BRIGA COM A BALANÇA

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Chega o verão, em que aos gordinhos – assim meu cardiologista benevolentemente me chama – é teoricamente mais fácil fazer regime.

Eu já me dediquei a vários. Emagreci, mas logo recuperei por culpa dos músicos, aqueles que inventaram a sanfona. Além disto, os italianos e seus descendentes não gostamos de desperdiçar nada, nem peso extra. Numa churrascaria de rodízio comemos um naco considerável de cada espeto que passa. Afinal, estamos pagando e nosso dinheiro deve ser bem aproveitado. Sem falar no lícito prejuízo que estaremos repassando ao proprietário. Ah, ah, ah!

Tive uma incompatibilidade lúdica com o regime da lua. Chegavam aqueles dias, eu relacionava o nome do regime com uma brilhante lua cheia e me lembrava das tortas de maçã da minha infância. Só a lembrança já me engordava, embora da lembrança à ida a uma confeitaria era um passo só.

O regime dos sucos durou pouco, muito menos do que eu pensava. Fui almoçar na casa de um amigo e ele assava uma suculenta picanha. Entre o suco e a picanha escolhi a picanha.

A dieta do Dr. Atkins, com seu recente aprimoramento, é usada com sucesso por um amigo meu. Não consegui o mesmo resultado. É uma heresia comer um churrasco sem maionese. Ou sem, pelo menos, um pãozinho. Ou (vamos fazer uma concessão) sem farofa. Acabei misturando carboidratos e isto anula a ação exclusivamente protéica da proposta do Dr. Atkins.

Como sou partidário de que se deve ser eclético, mesmo nas dietas, procurei um centro de reabilitação e reeducação alimentar que me permitia comer tudo o que eu quisesse, desde que não ultrapassasse a 1500 calorias diárias. Além disso, eu era obrigado a fazer cinco refeições diárias. Gostei.

Gostei principalmente porque havia o chamado “prato permitido”. Uma vez por semana você poderia sair da rotina diária e comer alguma coisinha a mais. Eu comia o prato permitido, logicamente, aos domingos.

Depois de algum tempo achei que não faria mal introduzir um prato permitido também às quartas-feiras. Afinal, eu tive um tio-avô, que morava no interior do interior de Taió, cuja mulher o gabava por sua limpeza porque ele tomava banho até no meio da semana. A relação não é lá muito inteligente, mas serve para quem quer se livrar de uma dieta. Logo eu estava ingerindo um prato permitido por dia. Eu tomo mais de um banho por dia!

Nas minhas caminhadas sou muito atento. Ando, quando as condições me permitem, exatos 60 minutos por dia. Devo percorrer, folgadamente, uns 400 metros. Minha personal trainer me elogiou muito. Ela disse que na ginástica aeróbica é mais importante caminhar devagar, mas bastante tempo, do que, por exemplo, fazer 15 km em 11 minutos. Ontem me distraí e andei 61 minutos. Hoje, para compensar, andei apenas 59.

Mas só caminhar não emagrece, principalmente se você compensar depois com alguma coisa, mesmo que seja água. Meu pai tinha esse problema e dizia que até a água o engordava. Foi um dos maiores ensinamentos que deixou aos filhos, como um adendo à sua carga genética. Eu, por isto, já que ela engorda mesmo, aproveito e tomo água-de-coco após as caminhadas, pois é um excelente energizante, além de mais saborosa, lógico.

Enfim nunca consegui resultados muito positivos nessa minha luta comigo mesmo. Esses dias lembrei de seguir a dieta curta e grossa que li no Pasquim, no tempo de estudante: se você quer emagrecer fique seis meses sem comer absolutamente nada e ainda vomite duas vezes por dia.

Meu cardiologista a descartou. Definitivamente. Por isto, parei de brigar com a balança.




Publicado originalmente no Jus Sperniandi,
em 25/01/2006.
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01/02/2009

MEDICINA OU BRUXARIA?

Eu quero ter saúde, claro, quem não quer. Esforço-me para isto na medida do possível. Mas a Medicina não me ajuda. Ela tem uma espetacular má vontade contra mim e é uma desinibida praticante de bruxaria.

Uma vez meu colesterol estava elevado, ao redor de 300 mg/dL. O médico disse que deveria baixá-lo para 250, o máximo admissível. Fiz uma dieta séria, cheguei ao extremo de ingerir verduras e legumes, deixei de comer pão com banha e açúcar, e consegui baixá-lo para 248 mg/dL.

Orgulhoso, levei o resultado. Decepção: a CUUMI (Confederação Ultra-Universal de Medicina Iatrogênica), num congresso intergalático, decidiu baixar o limite tolerável máximo para 200 mg/dL...

Continuei a luta. Baixei-o ainda mais. Mas só agora consegui colocá-lo em 195 mg/dL.

Então inventaram uma tal de relação entre o Colesterol total e o HDL-Colesterol (o colesterol ruim e o colesterol bom). Meu cardiologista de Taquara dizia que essa relação deveria aproximar-se o mais possível de 5,00. Consegui-o, por algum tempo, mas um novo passe de bruxaria alterou os valores de referência: risco baixo, menor de 3,78; risco moderado, entre 3,78 e 5,01; acima disto, risco elevado. A relação dos meus está em 5,42.

Quer dizer: os dois aí não se entendem e quem paga o pato sou eu. Que culpa tenho se eles, embora parentes, são inimigos? Se um é “do bem” e outro “do mal” têm mais é que brigar mesmo. Mas me deixem fora desta. Não sou mais juiz e, de luta de box ou de briga de galos, nunca fui mesmo. Nem me posiciono do lado do bom. E se o mau vencer?

E a pressão arterial? Uma vez eu ia ao médico e ela estava sempre em 13,0 x 9,0 milímetros de mercúrio (é assim que se diz), no máximo 14,0 por 9,0. Ele e eu ficávamos satisfeitos. Está boa. Quando acontecia de estar em 12,0 por 8,0 vinha o elogio: “Isto é pressão de criança!”.

Minha pressão nunca incomodou, salvo raríssimas exceções. Mas acabou essa alegria também. Agora 14,0 por 9,00 ou 13,0 por 9,00 são consideradas altas. Resolveram que 12,0 por 8,0 já representa uma situação de risco... As crianças que se cuidem. Eu me transformei num hipertenso da noite para o dia sem ter sofrido qualquer alteração de pressão!

Mais uma. Nunca tive diabetes. Minha glicose estava sempre no limite, mas nunca superior aos 110 mg/dL. Da última vez, há um ano, estava em 104.

Agora consegui baixá-la mais ainda, para 98 mg/dL, e fiquei contente com isto. Surpresa: o valor de referência máximo baixou de 110 para 99 mg/dL.

Quer dizer: a gente se esforça, quase morre para poder melhorar o organismo e viver, mas a Medicina não colabora. Parece o King Kong, que de vez em quando aparece cada vez mais feio, pior, e com intenções mais maléficas. Não dá para fugir da idéia de que a Medicina está me deixando doente! Vai acabar me matando.

Mas desta vez a enganei, ao menos em parte. Minha glicose ainda está no limite, é claro, mas abaixo dos 99 recém-estabelecidos.

Há um ano, pelos padrões de hoje, eu era diabético. Agora não sou mais! E nem fiz tratamento. Enganei a bruxa!



Publicada originalmente no Jus Sperniandi,
em 20/12/2005.
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24/01/2009

INCONGRUÊNCIAS TRÂNSITO-PERMANENTES

No dia 20 de outubro fui emboscado por um radar educativo na Av. Eduardo Prado, n. 1581, um declive, em Porto Alegre, por trafegar na absurda velocidade tolerada de 63 km por hora, pondo em risco, naturalmente, todos os que se encontravam num raio de – calculo – 30 km. Eu, dirigindo meu carro, devo ser considerado mais perigoso que um carro-bomba nas ruas de Bagdá.

A avenida é enorme, com duas pistas largas separadas por um canteiro enorme, mas a velocidade máxima, para ela, é de 60 km por hora. Naquele local você tem que descê-la freando.

No dia em que todos os motoristas da Grande Porto Alegre resolverem dirigir nas baixas e irrazoáveis velocidades fixadas para as nossas ruas, vai ser o caos. O engarrafamento vai ser tão grande que não haverá outra solução que não a de multar os que dirigirem a menos de 60 km/h.

Como as multas são educativas, e não arrecadatórias, estou perplexo. Ignoro como cheguei aos 54 anos de idade sem me envolver em acidente já que preciso, de vez em quando, de um puxão de orelhas do Estado que fixa a velocidade máxima numa metrópole como Porto Alegre, em qualquer ruela ou avenida, sem distinção, em 60 km por hora?

Sei que em Florianópolis a velocidade máxima é de 80 km por hora. Não conheço estatísticas, mas duvido que haja mais acidentes lá do que aqui, considerando-se as diferenças estatísticas.

Nosso trânsito é lerdo como o pensamento de nossas autoridades que supõem que trânsito lento é sinônimo de trânsito seguro. Trânsito seguro é trânsito fluente, de acordo com a permissibilidade real da via e seu movimento. As ruas são mais inteligentes que os administradores, pois na maioria das vezes, elas criam sua própria velocidade numa espécie de consenso tácito que faz com que, naquela hora, todos os veículos trafeguem em velocidade semelhante, com poucas desonrosas exceções.

A minoria mal-intencionada sabe driblar pardais, caetanos e radares móveis (os jornais publicam, todos os dias, em que ruas eles estarão). Então, os verdadeiros marginais do trânsito são cuidadosos e dificilmente serão multados.

Já os que andam em velocidade moderada, ainda que pouco acima do fixado para certos locais, mas sem provocar riscos, são as vítimas freqüentes dessas parafernálias pseudo-educativas.

Mas entende-se a fúria educativa do Estado. É fim de ano e falta verba para o 13.º do funcionalismo e para as eleições do ano que vem. Todos os meios são lícitos para arrancar dinheiro dos cidadãos.

Mas o Estado não dá bons exemplos. Muito pelo contrário.

No dia 02/12/2005 um Fiat branco e verde da EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação), n.º 71 (a placa não foi possível anotar), com a inscrição RADAR, na traseira, ultrapassou-me, por volta das 9,45 horas, na Av. Cavalhada, em velocidade muito superior à minha.

Eu, educado, estava a 60 km/h. Ele não! Ele é um daqueles mal-intencionados que nunca será multado. Afinal, é o dono do campinho, ou melhor, é literalmente o dono da rua...

Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 07/12/2005.

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11/01/2009

COMO AGRADAR AS MULHERES

A Fernanda mandou um e-mail tipo Como Conquistar as Mulheres e vou respondê-lo item a item para ficar bem claro. Certo, Fernanda?

Aprenda Rapidamente, o Modo mais Fácil, mais Efetivo para Persuadir e Seduzir... Desperte ATRAÇÃO SEXUAL nas mulheres que lhe ATRAEM!

Você deveria esclarecer se se refere às mulheres em geral ou às que trabalham em prostíbulos, mesmo de classe. Ir direto ao sexo, sem contato preliminar, sem um pouco de poesia e de papo jogado fora para estabelecer um mínimo de intimidade não dá, Fernanda, não dá!

Saiba o que falar ao se aproximar de uma mulher e sob tudo COMO FALAR;

Sei o que falar quando me aproximo de uma mulher. Por mais bobagens que diga, não me arrisco por caminhos que não domino. Mas percebi que sou melhor ouvindo que falando. Então o meu modo de agradar e persuadir – se for o caso – varia caso a caso.

Preocupa-me o sob tudo que você pôs aí. Ainda bem que não é sob todos, senão pensaria que você está organizando um surubão e tem más intenções em relação a mim.

Aprenda a como se comunicar com as mulheres de uma forma que seja visto como amante em potencial e não como um "PERDEDOR" ou "amigo";

Prefiro ser visto por uma mulher como perdedor do que como amante em potencial. Claro, das três opções que você coloca, prefiro mesmo ser amigo. Sempre gostei mais de amigas mulheres do que homens. Os homens falam muito de futebol e de... mulheres. Eu prefiro falar com elas e não delas.

Ser um amante em potencial não me agrada nada nada, Nanda! Se, por exemplo, eu for seu amante em potencial nunca serei seu amante efetivo. Acho que você – além de Português – esqueceu de estudar Filosofia. Senão saberia que uma porta potencialmente aberta é uma porta fechada. Então, um amante em potencial é aquele que nunca chega a ser. A não ser que você quisesse dizer um amante potente, mas daí dispenso seus préstimos, por ora.

Acabe com o MEDO de ser rejeitado e incorpore uma personalidade OUSADA!

Há 34 anos uma mulher me aceita todos os dias. Até há uns dois eu temia ser rejeitado. Mas um psicanalista me assegurou que, após tanto tempo, raramente ocorre rejeição. Bastou uma sessão e eu me convenci. Ela concorda com ele. Então nem preciso ser mais ousado para agradá-la.

Comece a ficar e dormir com muito mais mulheres do que você já pensou ser possível;

Dormir com muito mais mulheres do que já pensei ser possível? Você está louca? Para quê? Você precisa, antes desta proposta, medir o meu interesse. Sem duplo sentido. Não quero dormir com mais mulheres do que é possível nem que sejam apenas duas. Já pensou se uma for você? Aliás, pela sua propaganda, acho que você está cobiçando minha fortuna. Ficaria decepcionada.

Fernanda! Você já foi amada por um único homem, num sábado à tarde, num lugar aconchegante, tendo todo o tempo do mundo para se dedicar a ele e ele a você, devagarzinho, carinhosamente, demorando-se como se não existisse tempo nem amanhã nem ontem? Depois de horas, vocês saciados, dormiram abraçados e só acordaram à noite, por acaso, com os olhos brilhantes, satisfeitos e com a impressão de estarem numa nave espacial e que tudo lá fora era nada de tão vazio? Não?

Então me desculpe. Você não entende nada de amor e não tem autoridade de me fazer a proposta idiota que fez.



(Publicado originalmente no blog
Jus Sperniandi,
em 08/12/2005).

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27/12/2008

PRECISO DE AUTO AJUDA

Estou pensando em escrever um livro de auto-ajuda. Não sei a quem destiná-lo: aos gordos ou aos deprimidos, principalmente aqueles que andam sempre buscando esta árvore de dourados pomos que chamamos felicidade e que são os seres mais infelizes do universo. Ou aos brasileiros em geral, que estão muito necessitados de um afago no seu ego e na sua cidadania.

Para os gordos tenho, além de prática e conhecimento de meio século, dois títulos apropriados. Como se sabe, a última escolha que se faz quando se escreve um livro é a do título. Por isto, se escrevê-lo, depois escolherei entre estes dois: “Só é Gordo quem quer Emagrecer” e “Só os Gordos bebem Refri Light”.

Eu sou gordo. Já nasci gordo. A frau Ierich (faz tanto tempo que não lembro se esta é a grafia correta), a parteira oficial de Taió, quando viu que eu não ia nascer numa boa chamou o médico, doutor Arthur que, indignado com minha teimosia, utilizou fórceps para me puxar para fora.

Acho que seria um bom início. Demonstrarei que o trauma violento que sofri por sair de um lugar aconchegante onde eu não precisava me alimentar sozinho criou em mim uma fome compulsiva diante da realidade do mundo que descobri poucos anos depois, cheio de nata de leite, lingüiça, doce de laranja, banha com açúcar, pão de aipim e ovo frito...

Quem não comeu pão de aipim quentinho com uma grossa camada de nata fresca e por cima açúcar cristal não comeu um dos manjares dos deuses. Quando não tinha nata, podia ser banha mesmo. Isto: banha de porco com açúcar. Não era bom quanto a nata, mas o colesterol agradecia, embora a gente nem soubesse que ele existia... E o pão de milho abatumado que a dona Almerinda, nossa vizinha, fazia...

Já li livros de auto-ajuda. Segui as instruções à risca. Parei ao entrar em depressão depois de tanto repetir, de mim mesmo para mim mesmo, com o dedo indicativo da mão direita encostado no nariz e o da mão esquerda no ouvido direito (para fazer circular a energia cósmica universal): “a cada dia que passa eu me sinto melhor, melhor e melhor!”. Além disto, arranjei uma labirintite.

Os para gordos nunca li, mas é como se tivesse lido porque continuo gordo. Sei que é possível alcançar resultados positivos com eles. Li um (cujo nome, infelizmente, foi retirado da minha combalida memória depois de ler “Como aprimorar sua Memória”), escrito por um anão que, com exercícios mentais elaboradíssimos e específicos, conseguiu se tornar um adulto fisicamente normal. Ele luta para crescer ainda mais e entrar no Guinness como o homem mais alto do mundo.

No meu caso, o problema é que sou muito preguiçoso. Não sei se existe algum de auto-ajuda específico, ou seja, que me motive o suficiente para escrever um livro.

Escrever, não. Terminar de escrever. Tenho três prontos, cinco semi-acabados e uns 19 que estão arquivadinhos no meu cérebro mas não saem. Mais este projeto agora, do livro de auto-ajuda. Talvez fosse bom escrever para os preguiçosos mentais como eu. Algo como “Exercícios de Auto-Ajuda para Você escrever um Livro”. É uma boa idéia.

Fiz uns cálculos. Com esses livros eu poderia obter reconhecimento internacional e até ser agraciado com o Nobel de Literatura. Teria que viver pelo menos 130 anos, mas nada que um livro de auto-ajuda tipo “Viva até os 150 anos” não pudesse resolver...

Vou deixar para começar amanhã. Ou depois.

Pensando melhor, o ideal seria um fórceps para desencalacrar esses livros do meu cérebro...

Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em
17/11/2005.
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20/12/2008

E-MAILS INDESEJADOS...

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Sinto-me tão constrangido por não ter respondido a alguns e-mails que recebi ultimamente, que vou fazê-lo aqui, para me penitenciar e pedir desculpas publicamente.

Ao Fernando, que tem reiteradamente enviado um anunciando fotos de orgias em festas universitárias. Desculpe, Fernando, nunca tive muita vocação para voyeur e essas fotos não me interessam. Você não disse, mas é possível que sua irmã, ou você mesmo, estejam participando e eu me sentiria um pouco envergonhado em ver o desempenho de vocês. Se eu quiser vou à locadora mais próxima e alugo um filme pornô que certamente será mais interessante que suas fotos. Mande essas aí para sua querida mamãe para que ela saiba o que filho o dela está fazendo. Se ela participou da festinha, desculpe. Eu não sabia. Mande, então, para sua vovó.

À Carlla Lima (assim, duplo l) que me enviou alguns cartões de amor. Puxa, fico lisonjeado sabendo que você me ama. Hoje em dia são poucos os homens que podem dizer: eu tenho certeza de que sou amado. Mas você falou em uma foto batida no tempo do colegial, embaixo de uma árvore, e estava em dúvidas sobre qual seria eu...

Puxa! Isto é amor? Você me ama e vendo uma foto do nosso passado nem recorda mais de mim? Acho que você está enganada. Você não lembra? Quando eles bateram aquela foto nós estávamos atrás de outra árvore e você... Deixa pra lá.

Ou eu que me engano. A partir do fim do segundo ano do magistério comecei a namorar a Ieda. Sempre fui muito precoce, sabe, e casei com 19 anos e ainda convivemos. No meu fibrilado coração só cabe ela que me suporta há tanto tempo que nem vou dizer aqui para não lhe dar a mínima esperança.

Vamos convir: é muito tarde para tentar reavivar um amor que eu não lembro de um curso que eu não freqüentei e em razão de uma foto não batida debaixo de uma árvore sob a qual nunca estive. E olha que em Taió há árvores lindíssimas, mas você nunca ouviu falar de Taió, ouviu?

A doutora Kimberly me manda e-mails em Inglês. Está preocupada com minha saúde em geral e minha virilidade em particular, porque, entre outras drogas, me oferece Viagra a preços que diz convidativos.

Doutora: agradeço, sensibilizado, sua preocupação, mas sou fibrilado e não consultei meu cardiologista sobre se posso ou não tomar Viagra. Sei que os hipertensos não podem, mas este não é o meu caso. Além disso, a senhora é a primeira a reclamar. Quando as reclamações partirem da Ieda vou pensar no assunto.

O Rodrigo Herndon também está preocupado com aspectos de minha sexualidade. Anuncia uma sensacional revolução na Medicina pela qual eu posso aumentar o meu pênis em até 10 cm através de uma solução herbácea sem efeito colateral e de resultados 100% garantidos. Que que é isto, Rodrigo? Porque esse interesse todo? Não tem outra coisa a reclamar da vida? Tenho certeza que não o conheço. Não somos tão íntimos para você se achegar como se conhecesse detalhes de minha anatomia e estivesse descontente com eles.

Vale para você a última parte da resposta que dei para a Doutora Kimberly.




Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 11/11/2005
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13/12/2008

VIVA LA MUERTE!

Há algum tempo vi um filme em preto e branco em que os personagens acabam no México, em pleno carnaval. Bem, carnaval era o que eu pensava. Havia música, desfile, fantasias (que achei um tanto macabras), mas o desenrolar me esclareceu que se comemorava el dia de los muertos.

Os mexicanos, principalmente os nativos, entre o fim de outubro e início de novembro recebem seus parentes e amigos falecidos que voltam à terra para confraternizar. Não sei como se dá, exatamente, esse encontro mas, em todos os casos, revela uma faceta peculiar de se encarar a Velha-da-Foice que está numa das esquinas, aí pela frente, esperando cada um de nós para o seu rebanho.

O escritor mexicano, Nobel de Literatura, Octavio Paz disse: A morte não nos assusta porque a vida já nos curou dos medos. E: A confusão incongruente de atos, arrependimentos e esperanças, que é a vida de cada um de nós, encontra na morte não sentido ou explicação, mas um fim.

Como diria a Sabrina Sato, prêmio Lebon de vulgaridade: é verdade!

Essa tradição pré-hispânica não tem origens claras e perdeu genuinidade com a intervenção da Igreja Católica, sempre pronta a impor sua crença a ferro e fogo, e muita morte não tão bem humorada. Houve necessárias adaptações.

Simone Andréa Carvalho da Silva, coletando dados para sua tese de doutorado, escreveu interessante artigo na última revista Planeta (que se remodelou e perdeu aquele cunho notória e puramente esotérico):

A familiaridade com que o mexicano trata a morte não o isenta de temê-la, mas o ajuda a conviver e sobreviver a esse medo. Desde cedo as crianças devoram avidamente as caveirinhas feitas de açúcar, bala de goma, chocolate ou amaranto, pães dos mortos e todo tipo de guloseimas servido a um fausto banquete de vivos e mortos. Assim, acostumam-se ao contato com uma morte brincalhona e companheira, personificada em bonecos-caveiras de papel machê.

A vinda dos mortos é disciplinada. No dia 30/10 voltam os suicidas, no dia 31, os acidentados, em 1.º de novembro as crianças e dia 2 os adultos. Coloca-se uma jarra de água e uma tolha na entrada da casa para o morto se refrescar de sua longa viagem ao mundo dos vivos. Nos banquetes, os falecidos têm preferência e se servem primeiro.

Há dança, música, representações teatrais, concursos de altares, comilança e beberagem. E um costume que acho que seria aplicável com muita propriedade no Brasil: as calaveras políticas, tradição que consiste em escrever epitáfios humorísticos de políticos e pessoas públicas.

Não me contive e escrevi alguns. Lula: Foi presidente do Brasil e nunca soube. Zé Dirceu: Morreu antes de ter morrido. Olívio Dutra: Aqui se espraiam os restos da minha cidadania. Teria outros, mas o espaço é curto.

No final do fandango os mortos voltam a seus lugares. Os vivos os acompanham para evitar que fiquem vagando para sempre neste mundo cruel ao qual, certamente, não mais se adaptariam. Pois, como eles dizem lá: ao vivo, tudo lhe falta; ao morto, tudo lhe sobra.




Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 02/11/2005.
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29/11/2008

DIA DO APOSENTADO

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Hoje eu teria outro texto para colocar aqui, sobre críticas que sofri do Proença: ele me critica, e a outros blogueiros, porque nós criticamos o Governo Federal. Vai ficar para amanhã porque soube, através do Bom Dia Brasil que hoje é o meu dia. A Ieda, que via o noticiário comigo, limitou-se a dizer “minhas condolências!” sem tirar os olhos da tela.

Parodiando Jorge Bornhausen, os aposentados puros (aqueles que cujo pecado maior é o de viver exclusivamente de sua aposentadoria) são uma raça em extinção. Só não a extinguiram porque há os que – me incluo – preservam custosamente essa classe que o FHC chamou de “vagabundos”. Atualmente, ele que é aposentado por vários títulos, anda vagabundeando em alto estilo por aí.

Não é possível ser apenas aposentado hoje, a não ser que você receba proventos integrais – isto é, compatíveis com o que você perceberia se estivesse na ativa – uma questão de justiça e justeza que a propaganda governamental, escancaradamente apoiada pela mídia, transformou em injustiça e injusteza. Ao mesmo tempo transformou, com rara habilidade, o justo em privilégio.

O empregado da iniciativa privada que há um ano se aposentou percebendo o equivalente a dez salários mínimos hoje recebe menos que isto. Os reajustes para os aposentados são diferenciados.

Isto, a médio prazo, vai gerar outra iniqüidade: o aposentado que sobreviver por muitos anos vai sentir seus proventos minguarem até se aproximarem ao valor de um salário-mínimo. Menos é impossível por ordem constitucional. Se fosse possível não tenho dúvidas: o Governo já teria dado um jeito de criar um salário-aposentadoria, menor que o salário-mínimo.

Talvez você, aposentado nestas condições, deva ter o bom senso de não viver muito.

Os que apoiaram a reforma da previdência são intimamente culpados por essa injustiça. Não devem esquecer que, se quiserem atingir a velhice, serão um dia aposentados e vítimas da previdência social e de sua imprevidência pessoal. Se não tiverem um plano extra terão de fazer bicos para complementar os vencimentos que através dos anos vai minguando enquanto algumas despesas – com remédios, por exemplo – vão subindo. A legislação previdenciária brasileira foi elaborada especialmente para desestimular a aposentadoria.

Agora, se você é um ex-funcionário público e percebe a aposentadoria-integral-transformada-em-privilégio, e é por isto olhado com desprezo, tenha certeza de que lhe foi feita justiça, ainda que você seja minoria.

Se você trabalhou e contribuiu pelo tempo necessário a adquirir aposentadoria integral nada mais justo do que a continuidade retributiva anterior, para você poder se aposentar, manter seu padrão de vida, dar lugar aos jovens – são tantos os desempregados – e não precisar fazer bicos. Felizmente, estou nesta condição.

Não me orgulho de minha aposentadoria porque ela veio por motivo de doença. Mas, como não voltei a advogar, como muitos juízes aposentados fazem, gozo ainda do privilégio de usar o elevador privativo dos magistrados quando vou ao Tribunal de Justiça.





Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 08/11/2005.
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22/11/2008

IMPUNIDADE TAMBÉM É CULTURA

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De vez em quando deparo com notícias que, de certa forma, explicam alguns detalhes do porquê da impunidade no Brasil. Embora eu ache que estamos nos tornando cada vez mais rancorosos (tenho um texto atrasado sobre isto) muitas vezes nos invade aquele sentimento nobre de comiseração pelo próximo que nos leva a aceitar afrontas que normalmente repeliríamos.

A pena de morte não combina com nossa índole. Pode ser que ela fosse até aprovada numa consulta popular. Mas quando o primeiro condenado estivesse à beira da execução haveria uma comoção nacional. Manifestações e protestos explodiriam Brasil afora tentando livrar da pena capital o infeliz e suas circunstâncias. A não ser, é claro, que a vítima fosse filho de alguma celebridade ou um própria celebridade, artística ou jornalística.

Os Maluf foram soltos. O voto que lhes concedeu habeas corpus é fundamentalmente humanitário. O Direito foi espancado de relho. Mas muita gente que viu o Maluf saindo da cadeia, barba mal feita, olhar perdido, deslocado de seu habitat, condoeu-se.

Eu visitei, uma vez, porque era minha obrigação de juiz, o presídio de Iraí. De surpresa. Havia no máximo cinco ou seis presidiários. Um deles se aligeirou e preparou um café num bule enegrecido pela fuligem, usando um fogareiro para esquentar a água, e me serviu na melhor xícara: amarelada, encardida e trincada.

Detesto café. Os que me conhecem sabem disso. Repugna-me o cheiro, o sabor e as conseqüências gástricas. Mas naquele dia esperei esfriar um pouco e tomei. Até sorri, agradecendo. Só não aceitei repetir.

Saí de lá sentindo um aperto no peito e por uns dois ou três meses não julguei processos crimes, só cíveis.

É degradante ver homens enjaulados! Nosso sistema carcerário é cruel e não oferece perspectivas. E lá eles eram bem tratados, viviam em condições excepcionais considerando o que se vê pela televisão na cobertura de motins e rebeliões.

Não sei porque comecei esse texto assim. Ele se desviou de sua finalidade antes mesmo de se dirigir a ela. Eu queria era referir o manifesto assinado por artistas e intelectuais pedindo que o deputado José Dirceu não seja cassado porque não há provas materiais contra ele.

Meu Deus! Um juiz fica, às vezes, horas ou dias debruçado sobre um processo, examinando indícios para construir um castelo de provas e 90 intelectuais, a maioria dos quais certamente nem leu os autos, decidem liminarmente que um réu deve ser absolvido porque não há provas contra ele.

Não sei se me faço entender. Os juízes são, a seu modo, intelectuais do Direito. São humanistas por formação. Aprendem desde cedo que é preferível mil criminosos soltos do que um inocente preso. Usam, na análise da prova, embora certamente com mais técnica e conhecimento de causa e, principalmente, estudando o processo, a mesma mecânica mental que levou esses intelectuais e pseudos a decidirem que José Dirceu é inocente.

Por isto não creio na pena de morte no Brasil. E as reclamações sobre a impunidade, também por isto, soam pífias e cabotinas como a do carrasco que não vai ter nada para fazer.



Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 28/10/2005.
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20/11/2008

NAU CATARINETA

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O querido amigo e poeta Alberto Cohen me enviou, esses dias, o soneto Nau Catarineta.

Perguntei-lhe se podia publicá-lo aqui e ele respondeu que o poema “foi feito para o seu blog (daí o título). Se achar que tem méritos, pode publicá-lo e lhe fico grato”.

Grato fico eu, Alberto.
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Alberto Cohen
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NAU CATARINETA
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O porto cada vez mais longe,

as velas do barco, estraçalhadas,

um grumete chorando no convés

desencantos de sereias inventadas.

Desde a partida, noite, sempre noite,

uma a uma as estrelas se apagaram

e o dragão devorou São Jorge e a lua.

Onde o cais, onde o vento caminheiro?

Em que ondas do mar sem fim nem fundo

afogou-se a esperança que tentava

salvar da morte ao menos um sorriso?

Não há nada a fazer, o horizonte

de uma Terra quadrada se aproxima.

Despenhar talvez seja a chegada.
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15/11/2008

BUSH, PADRES E JORNALISTAS

Dia 04/11/2004 o Jornal Nacional noticiou que o recém-reeleito presidente dos EUA, George Bush, cometera uma gafe. Para quem já caiu do cavalo, se engasgou com bolachas, fugiu da guerra do Vietnam, invadiu o Iraque atrás de uma anunciada quimera, nada demais.

Mesmo assim prestei atenção.

Ao iniciar sua primeira entrevista coletiva após a reeleição um jornalista o informou da morte do líder palestino Iasser Arafat. Ele, então, numa espécie de prece (é muito religioso) manifestou: “O que eu posso dizer é que Deus abençoe a alma dele”.

Isto foi considerado uma gafe porque, na verdade, Arafat estava vivo, embora em estado crítico.

Mas o que me surpreendeu foi que ele foi induzido em erro pela informação de um jornalista. Minha mente viciada em interpretação jurídica não pôde deixar de concluir: a gafe maior foi do jornalista que transmitiu a informação errada. O Bush, que por sua cândida religiosidade acredita até em determinados papais-noéis, por que não acreditaria em jornalistas?

Ou foi uma pegadinha? Não creio. Com assuntos desta gravidade nem o João Kleber faz pegadinhas. Acho! Em todos os casos, se fosse, seria ainda mais grave. Além de transmitir uma informação errada o jornalista pretendeu “pegar” o entrevistado perante colegas e humilhá-lo.

Mas o mal maior não está aí. O mal maior está em provocar o erro e depois se vangloriar com ele.

Quando estudei no Colégio Diocesano, em Lages, em regime de internato, era obrigado a assistir à missa diariamente. Numa determinada manhã o frei Antônio anunciou que quem quisesse estudar estava liberado naquele dia.

Estávamos quase no fim do ano, época de provas, e uns cinco ou seis aproveitamos a rara liberalidade capuchinha e fomos para o estudo.

Logo depois o mesmíssimo frei adentrou na sala de estudos e anunciou solenemente, perante os mais de cem colegas, que estava nos cortando a folga dominical como castigo por termos faltado à missa...

Não sei porque me lembrei desse episódio ocorrido comigo no já longínquo 1965 ao ouvir a notícia dessa pretensa gafe.

Não sou fã do Bush e publiquei aqui, em 03 de setembro, a minha candidata a frase do século, dita por ele: “
Vamos construir um mundo seguro!”.

Também não acredito muito em determinados padres, porta-vozes das coisas divinas, embora já tenha vencido a fase de total descrença e conheça alguns nos quais confio plenamente.

Mas não gostaria de ter que desconfiar ainda mais de jornalistas. Afinal, tudo o que ocorre no Mundo profano sabemos através deles.




(Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 10/11/2004).
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14/11/2008

TENHO TANTO SENTIMENTO

Fernando Pessoa




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[165] – [18/9/1933]


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TENHO tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.



Fernando Pessoa
Cancioneiro
in Fernando Pessoa,
Obra Poética,
página 172,
Companhia José Aguilar Editora (1974).
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08/11/2008

SAUDOSIMO? NEM!

UM SAUDOSISMO APENAS OCASIONAL
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Não sou saudosista! Não desejo que certos costumes dos tempos antigos (ou como dizem alguns descendentes de alemães em Taió, de antes tempo) voltem. Não renego a excepcionalidade sonora da gravação digital em favor dos discos de vinil por questões poéticas ou nostálgicas. Agrada-me muito mais o som perfeito, sem ruídos que não a música, dos cedês e devedês.

Talvez eu preferisse ser alguns anos mais novo – sem dispensar a experiência de agora – mas isto é querer demais. Temos o nosso próprio ciclo, as nossas próprias ultrapassagens, e ser mais novo e concomitantemente mais experiente, me transformaria numa excrescência, num monstro social inaceitável e dotado de um complexo de superioridade que me tornaria um déspota odiável. Eu seria infeliz porque não encontraria par nem entre os da minha idade cronológica nem entre os da minha idade mental, por motivos óbvios!

Já me acostumei a certas facilidades modernas e não sei como viveria sem elas. O controle remoto, por exemplo, é um invento superior à própria televisão porque permite que você não tenha que aturar o mesmo programa ou o mesmo comercial por mais de 30 segundos. Estou aguardando a invenção de um controle remoto automático movido a pensamento.

Há coisas de que não se pode desistir sem retroceder. Como dispensar carro com ar condicionado, vidros acionados eletricamente, aparelho de som, troca de marcha automática? Estou exagerando um pouco.

E o computador? Não imagino como alguém possa viver sem um, embora neste país isto seja um privilégio. O programa “computador para o povo”, do presidente Lula, acho que se esboroou. Esse Governo é maravilhoso para planificar, mas pára por aí. Ele não tem tempo de implementar seus planos porque tem muitas reuniões a fazer para inventar outros planos...

Comecei com um MSX da Gradiente e sofri gravando sentenças em fita cassete. A gravação e a recuperação eram lentas e a mínima oscilação de energia elétrica poderia arruinar o trabalho de um dia. O drive dos discos de 5.1/4, com a imensa capacidade de 500 kb, foi um progresso considerável.

Hoje de manhã, fibrilado e exausto, desci ao escritório e liguei o micro. A primeira coisa que faço é abrir e-mails. Deu erro! De novo sem banda larga! Tentei a página de notícias e não entrou. Então lembrei que não ligara o modem, que faz as vezes de roteador, pois quando meus filhos moravam aqui montei uma pequena rede doméstica para os nosso micros.

Isto me obrigou a subir 467 degraus de escada, fibrilentamente, e ligá-lo. Pela primeira vez, e ainda assim por esse motivo especial, senti saudades de um retorno ao passado, ao tempo em que um micro era apenas um micro no qual você trabalhava, escrevia, jogava e até programava.

Hoje ele é apenas um apêndice de uma grande rede chamada Internet sem a qual, definitivamente, não dá para viver. Não dá!





Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 07/10/2005.
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06/11/2008

Soneto XVI - Quintana

. Mario Quintana








Soneto XVI

................(para Reynaldo Moura)
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Que bom ficar assim, horas inteiras,
Fumando... e olhando as lentas espirais...
Enquanto, fora, cantam os beirais
A baladilha ingênua das goteiras.


E vai a névoa, a bruxa silenciosa,
Transformando a Cidade, mais e mais,
Nessa Londres longínqua, misteriosa
Das poéticas novelas policiais...


Que bom, depois, sair por essas ruas,
Onde os lampiões, com sua luz febrenta,
São sóis enfermos a fingir de luas...


Sair assim (tudo esquecer talvez!)
E ir andando, pela névoa lenta,
Com a displicência de um fantasma inglês.



Mario Quintana
A Rua dos Cataventos
L&PM POCKET,
página 22.
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04/11/2008

POETAS

Florbela Espanca











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Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!



POESIA de
Florbela Espanca
Trocando Olhares
L&PM Pocket – Volume I
Abril de 2008

Página 23.
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01/11/2008

E O FUTURO DELES...

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ENFRENTANDO O FUTURO DE TRÁS PRÁ FRENTE


Moro num recanto de Porto Alegre desde 1989. A 18 km do Centro. Foi o que deu para comprar, pelo Sistema Financeiro da Habitação, quando cheguei aqui.

O bairro era aprazível e as noites só eram atrapalhadas de madrugada, quando o jornaleiro passava (ele era gordo e pisava tão forte que estremecia os alicerces das casas) ou quando os ônibus começavam a trafegar.

Mudou muito. A sexta-feira traz a insônia dos fins de semana. Uma insônia que não é de ordem médica. Jovens, de todas as idades, em bandos, promovem gritarias, se embebedam, se drogam, gritam impropérios, assobiam e discutem pelas ruas do bairro... Demonstram – e isto é deprimente – que se têm família certamente esta não os apóia. As algazarras atravessam a madrugada. Para essa insônia não há remédio.

Há, até. Mas a advertência que há na bula de alguns medicamentos se aplica aqui: a tolerância, ainda que em outro aspecto.

Não adianta reclamar. Acionar a Polícia significa desforra, mais cedo ou mais tarde. Reclamei, no início, e como resultado recebi prejuízos e pedras que esses pequenos marginais, “meninos e meninas”, como os qualificam a imprensa e os defensores dos direitos humanos, atiraram sobre o meu telhado. Atrapalhei seu direito de fazer bagunça noite adentro, num bairro residencial. Se ajuizarem alguma ação contra mim, por dano moral, é possível que eu seja condenado.

Em Londres, às 22,00 horas, os pubs fecham. Fecham mesmo. Aqui não. Aqui barzinhos e pontos de drogas funcionam 24 horas, a polícia os conhece, mas mesmo que queira não pode fazer algo mais eficaz: falta-lhe condições materiais (e muitas vezes psicológicas) de desenvolver um trabalho eficiente. Os jovens vão se acostumando a essa vida insana.

Qual o futuro deles? Alguns serão marginais: aqueles que, desabituados da forçosa “tolerância” social, que não se estende aos adultos, continuarão sua vidinha de tumultos e bebedeiras e descambarão depois para furtos, roubos e crimes mais graves.

Outros serão marginalizados: tentarão se adaptar às regras sociais, mas sofrerão e viverão frustrados. Colocarão a culpa nos outros – se tiverem capacidade de raciocinar –, principalmente nas elites, por sua vida sem perspectiva. Sem formação, serão subempregados ou jornaleiros (no sentido primeiro do vocábulo).

Pode ser até que algum, num golpe de sorte, faça um cursinho em entidade tipo SENAI, consiga depois um emprego, entre na militância sindical e política e venha a ser presidente da República. Mas esta é uma possibilidade rara. Ao que se sabe, em 502 anos de História do Brasil, aconteceu apenas uma vez. E, pelo jeito, não vai se repetir tão cedo.

Mas há jovens fora deste contexto. Eles, que dormem nas madrugadas sem dispensar o lazer sadio e necessário, é que dominarão os outros. Eles, que agora estudam, aprofundam seus conhecimentos, buscam seu próprio bem estar e se esmeram em se formar em alguma faculdade ou em algum curso técnico, estes conseguirão se impor socialmente e governar – em sentido amplo – o país.

Então serão chamados de elite e culpados pela degenerescência dos outros.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 24/09/2005.
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