23/08/2008

CRISE DE IDENTIDADE

Ilton Carlos Dellandréa

Estou tão perdido que nem sei se posso me considerar normal. Parte dessa confusão é provocada exatamente pelo fato de me considerar normal sem saber ao certo o que isto significa. Vejo tantos normais dizendo tantas besteiras com tanta certeza – acho que estou parodiando Fernando Pessoa – que nem mais ao certo sei o que sou. Estou sentindo saudades do tempo do primário, em que eu era gordo, ruivo e sardento e motivo de gozação dos colegas mas tinha como reagir.

Se eu fosse mulher e o Iedo me batesse poderia recorrer a uma delegacias especializadas em atender mulheres agredidas pelo marido. Agora a lei é mais severa para eles do que era, por exemplo, ao tempo em que eu era juiz, quando preponderava o entendimento de que se o processo crime era fruto de briga do casal o papel do juiz era apaziguar. Caso verificasse, no final, a reconciliação, a política criminal sugeria a absolvição para não marcar negativamente o relacionamento. Hoje não. Hoje o cônjuge deve ser punido mesmo que haja reconciliação. Os dois devem conviver com a marca que ficou. Quer dizer, ambos são, de certa forma, condenados...

Se eu fosse mulher teria, ainda, direito a cota especial nas eleições... Bastaria me inscrever em um partido e pleitear inscrição como candidata com base nos 20% criados para elas.

Estou desconversando. Sou homem e não há uma Delegacia especial que me atenda em caso de uma agressão feminina. Ainda bem que faz tempo, uns 36 anos (a conheço há 35), que a Ieda não me bate. Não me surra, eu quiser dizer. Também perdi o gosto pela política e as cotas de reserva não me atraem.

Se eu fosse negro teria, também, se tudo der certo, alguma vantagem para ingresso na faculdade. O Ministério da Educação parece que vai impor cotas para ingresso de negros e índios nas faculdades mesmo que eles não se classifiquem tão bem quanto um branco. Não existe discriminação contra branco. Então, estão querendo introduzi-la no nosso sistema social.

Mas também não sou negro e já ultrapassei a fase de ingressar em faculdade. Meus filhos também. Então, isso daí de nada me aproveita. É uma vantagem da qual não posso usufruir.

Se eu fosse gay talvez pudesse gozar algum privilégio. Retirem, por favor, a conotação sexual do verbo gozar. Não foi isto que eu quis dizer. Eu quis dizer que os gays, hoje, têm, em alguns aspectos mais privilégios do que um... normal (?). Vocês viram o Jean Wyllys no BBB5? Bastou apregoar sua condição de gay, fazer um choramingo, e venceu levando a recompensa de R$ 500.000,00. Escreveu um livro que está entre os mais vendidos e de vez em quando aparece na tevê chateando a gente com sua afetação. Jimi Hendrix foi dispensado do Exército porque
fingiu ser gay...

Mas não sou gay. Minha predileção sexual sempre foi pelo sexo oposto. Tanto que casei com uma mulher.

O pior é que sou aposentado. Poderia ser pior? Não, porque a minha aposentadoria é por invalidez. Não tenho ainda 60 anos e por isto posso estar caindo aos pedaços numa fila de Banco que alguém com 60, mesmo saudável, pode passar na minha frente.

Os deficientes físicos têm lugares especiais para estacionar em certos locais. Às vezes, quando estou fibrilado, gostaria de ter a mesma facilidade. A fibrilação tolhe seus movimentos, você dá cinco passos e tem que descansar, fica tonto com facilidade mas é considerado, para fins de estacionamento, um... normal (?).

Nunca vi fantasmas nem anjos nem um único duende. Nem discos voadores. Nunca patrocinei um sopão para os pobres. Nada do que possam eventualmente falar ou praticar contra mim pode ser considerado politicamente incorreto (talvez este texto). Às vezes, assim como sou, me sinto mais discriminado do que um negro, do que um gay, do que uma mulher, do que um deficiente físico...

É nessas horas que fico perdido diante da realidade que me cerca. Sinto tristeza e ganas de consultar um psiquiatra e exigir um atestado de que sou normal (?). Para meu convencimento.




Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 09/08/2005.

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21/08/2008

A INEXORABILIDADE DO TEMPO

Ilton Carlos Dellandréa




Há muitas situações em que você sente que alguma coisa ocorreu (ou correu?) no seu tempo, digamos, de vida. Ou seja, que você está ficando velho. Alguns exemplos – certamente há mais – muito particulares:

Quando percebe que apresentadores, artistas, repórteres, cantores, enfim, a maioria daqueles que freqüentam a telinha, são mais novos que você. Lembra que há uns 30 anos todos eram mais velhos? O mesmo ocorre em outros setores da atividade humana. Se seu chefe, por exemplo, for mais jovem é sinal que você já caminhou um bocado...

Quando você completa quarenta anos e constata que, daí por diante, cada ano vivido será em década com final enta: cinqüenta, sessenta, setenta e, com boa sorte, oitenta e noventa. Cem é miragem. Inte e inta, nunca mais!

Quando tem que convencer os mais jovens de que, quando criança, você ganhava revólveres de brinquedo com espoleta para brincar de caubói e isto era considerado normal. Mais: convencê-los de que nenhum de seus amiguinhos da época virou bandido ou assaltante. E que você, apesar disso, é juiz esperando promoção para desembargador.

Quando você percebe que já tinha nascido quando o Brasil conquistou a primeira Copa do Mundo, ficou ansioso para que quatro anos passassem rápidos para curtir a seguinte e desde então foram jogadas 17 e agora você não tem nenhuma pressa de que chegue a próxima.

Quando você tem que esclarecer aos mais jovens que o cantor sertanejo Sérgio Reis fez parte da Jovem Guarda, com Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléa, Rosemary e outros de quem nunca ouviram falar nem você lembra mais, como Martinha e Os Vips.

Quando você se esmera preparando aquela viagem de férias e percebe que seus filhos não são mais crianças porque preferem ficar em casa e curtir a companhia dos amigos. Mas depois telefonam, às vezes de hora em hora, para saber como se cozinha um ovo ou como se acende o aquecedor a gás do banheiro que, aliás, é automático e não precisa ser ligado. O do ovo telefona depois reclamando que o mesmo está na água fervente há mais de meia hora e a casca ainda não amoleceu...

Quando você precisa convencer seus filhos de que na sua juventude havia domingueiras ou matinês dançantes, explicar que eram aos domingos à tarde, e eles acham um absurdo porque se dançava de dia. Pior: não consegue convencê-los porque está naquela idade em que os filhos não acreditam mais nos pais.

Quando você vê um Monza 2.0 parecido com o que teve há muito tempo e o acha feio, com linhas desgraciosas e retas, as lanterninhas traseiras quadradas e toscas, e lembra que quando adquiriu o seu ele era um carro lindíssimo e elegante, seu mais caro objeto de desejo.

Quando você participa de um encontro com antigos colegas de trabalho, como os do ex-CPD da Telesc, e observa que a maioria está grisalha e separada de seus cônjuges da época. Um deles, só porque você não embranqueceu, insiste em voz alta que você pinta os cabelos. Sem contar os que o chamam de tarado por viver ainda com a primeira mulher.

Quando você chega numa cidade pequena, como Taió, onde viveu trinta anos, percorre as ruas de carro e brinca de qual será o primeiro conhecido que vamos ver?, atravessa a cidade e não reconhece ninguém. Alguns rostos enrugados, velhos, com cabelos brancos, lhe parecem familiares mas você não lembra de quem são. Dá vontade de chorar!

Quando você repara, num aglomerado de pessoas, uma amiga que não via há mais ou menos vinte anos, vai cumprimentá-la, possivelmente abraçá-la, e descobre, surpreso e vexado, que, na verdade, se trata de uma filha dela.

Quando a casa em que mora, que você se queixava que sempre foi pequena demais, se torna imensa porque os filhos casaram, foram morar longe, deixando-a vazia, apenas com um casal de pais – sou bondoso comigo mesmo e não vou dizer de velhos – morando nela. Talvez esta seja a mais dolorosa de todas...
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18/08/2008

JORGE LUÍS BORGES

Jorge Luís Borges







New England, 1967


Mudaram as formas de meu sonho;
agora são laterais casas vermelhas
e o delicado bronze das folhas
e o casto inverno e o piedoso lenho.
Como no dia sétimo, a terra
é boa. Nos crepúsculos persiste
algo que quase não é, ousado e triste,
um antigo rumor de Bíblia e guerra.
Breve (nos dizem) chegará a neve
e América me espera em cada esquina,
mas sinto na tarde que declina
o hoje tão lento e o ontem tão breve.
Buenos Aires, eu sigo caminhando
por tuas esquinas, sem por que nem quando.


Cambridge, 1967


Jorge Luís Borges,
elogio das sombras/perfis
Editora Globo - Porto Alegre
página 11.
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13/08/2008

ORA ATÉ que enfim...

Fernando Pessoa
Álvaro de Campos


[523]

ORA ATÉ que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.

Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução,
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...


Fernando Pessoa
Ficções do Interlúdio — Álvaro de Campos
in Fernando Pessoa,
Obra Poética, página 410,
Companhia José Aguilar Editora (1974).
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09/08/2008

SOBRE MODA

A PROPÓSITO DA
SÃO PAULO FASHION WEEK DE 2005



Nunca entendi de moda, estou longe de ser um expert no assunto, mas uma coisa sempre me chamou a atenção: por que os chiques modelos desenhados por estilistas famosos não é usado nas ruas ou pelas mulheres, de qualquer classe social, nos eventos do dia a dia ou nos de noite a noite? Para que serve esse processo de criação de roupa descartável antes mesmo de ser usada?

Já me interessei por isto. Após ver noticiário sobre algum desses eventos fashion saía às ruas prestando atenção nos trajes das mulheres. Minhas pesquisas começaram em Florianópolis, quando era estudante. Nenhuma das minhas colegas de faculdade ou de serviço, ou as que usavam o ônibus da Bela Vista, usavam daqueles modelos.

Há algum tempo um estilista inventou um modelo conservador, se visto de frente: recatado, sem decote, abaixo do joelho, mangas três quartos. Mas atrás apresentava um corte oval na bunda das modelos, digo, na altura da bunda das modelos, que ficavam expostas. Percebi, naquele traje, um objetivo utilitário: a desnecessidade de as mulheres levantarem o vestido ou baixarem as saias ao usar o vaso sanitário. A moda não pegou. Deve ser porque as mulheres usam roupa para se vestir e não apenas na hora de ir ao banheiro.

Aqui em Porto Alegre nunca vi uma guria usando um vestido daqueles. Viajei, na época, para Salvador, Vila Velha, Florianópolis, Joinville. Em Taió perdi definitivamente a esperança de poder apreciar aquela moda. Mas continuo pesquisando.

As moças das portas das boates da Avenida Farrapos, em Porto Alegre, usam roupas parecidas, algumas de bom gosto: saias curtinhas, decotes generosos, botas altas... Já as que fazem ponto no Parque da Harmonia ou na rua Anita Garibaldi, mais polpudas, não têm o mesmo esmero. Mas nem umas nem outras usam esses modelitos desenhados e aplaudidos nos desfiles fashion.

Finalmente a luz. A Mônica Waldvogel me iluminou. Nada como o ensinamento de quem sabe e, como se sabe, os jornalistas sabem de tudo. De tudo um pouco, porque sua profissão assim o exige. É certo que às vezes dão mancadas, como da Marília Gabriela em 1982 (eu apreciava seu programa de entrevistas). Foi uma gafe imperdoável.

Ela transmitia a abertura ou encerramento da Copa do Mundo e anunciou que os três tenores iriam interpretar uma ária de... (ela gaguejou) Nabuco e Giuseppe Verdi, intitulada (e deu o nome da peça, que não lembro). Na verdade, era uma peça da ópera Nabucco, de Verdi, mas ela, que sempre demonstrou uma erudição profunda nos seus programas, não sabia disto. Fiquei decepcionado.

Não sou um profundo conhecedor de música erudita, mas até por ouvir bastante e ler livros a respeito, sei que o Tema de Lara, por exemplo, não foi composto por Mozart.

– Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! – como diria o Clodovil, me fazendo voltar ao assunto principal.

Segundo a revista Época de 04/07/2005, página 15, a Mônica Waldvogel explicou a moda de Alexandre Herchovitch para José Serra durante a São Paulo Fashion Week, assim:

– Prefeito, não é roupa de usar na rua. É para entender o conceito!

Meu Deus, nem eu desconfiava que era tão ignorante. Algo tão elementar e eu desconhecia: a roupa fashion é uma roupa conceitual...

Então tá. Obrigado, Mônica. Sou-lhe muito grato. Você me abriu horizontes. Vejo o mundo da moda com olhos complacentes e admirados. Finalmente entendi.

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Será que entendi mesmo?



Publicado no blog Jus Sperniandi,
em 04/07/2005.
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06/08/2008

ASSÉDIO

Alberto Cohen


A poesia espreita o solitário,
quieto no bar, num canto, pela rua,
reconhecível pelo mesmo olhar
dos que esperam sem encontro marcado.
É num arroubo que ela se oferece,
imprevisível, dona, dissoluta,
nas carícias rimadas e medidas
negaceia e se dá, jamais inteira.
Depois, sacode a vasta cabeleira,
recolhe pelo chão os seus mistérios,
e parte, insatisfeita como sempre,
atirando metáforas na cama.


Alberto Cohen
Poemas sem Dono
II Prêmio Literário Livraria Asabeça - 2003
página 17.

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02/08/2008

OIGALÊ, FRIO DESGRANIDO!

Brrrr! Como faz frio em Porto Alegre hoje. Está úmido, sopra um ventinho fraco mas não me atrevo a chamá-lo de brisa. A brisa é mais aconchegante e apropriada ao calor. Brisa gelada é um contra-senso. Definitivamente não combina. É vento, fraco no sopro mas forte no efeito enregelante. O céu está forrado e não vou estranhar se, de madrugada, ao espiar pela janela, ver flocos de neve.

Os gaudérios, charlando nos galpões do pampa afora, diriam que esse frio é de renguear cusco. Traduzindo: o frio é tão forte que faz até cachorro mancar. Charlar é jogar conversa fora nas rodas de chimarrão, ao redor de um fogo-de-chão.

Fogo-de-chão ou fogão é um grande fogo que se prende em lenha grossa no chão batido dos ranchos para preparar mate e churrasco e no inverno para aquecer a charla. Prender fogo é acender o fogo mesmo.

Os gaúchos modernos diriam, numa linguagem mais compreensível, que hoje está mais frio do que abraço de sogro.

Aureliano de Figueiredo Pinto, um poeta gaudério que em vários poemas aborda o frio, inicia um deles (Recuerdos de Tapejara, depois musicado por Noel Guarany) assim:

Já nem sei porque é que Deus
Tanto ao herege e ao fiel,
Nos manda um frio tão cruel,
Vento e neve em redoblona,
Que a perna velha quebrada
E esta costela emendada
Se param mais delicadas
Do que teclas de cordeona
.

Em seguida usa o verso que usei como título do post. Redoblona significa, aqui, ao mesmo tempo. O se param é se tornam e isto parece óbvio. Oigalê é uma interjeição que exprime admiração.

Li, há pouco, que o Jô Soares vai entrevistar Roberto Jefferson. Falta de imaginação! A atração – como sempre – vai ser o Jô. O Jefferson todo mundo sabe o que vai dizer.

Não posso deixar de relacionar a gargalhada que ele deu ao final de suas declarações à CPI dos Correios, ao narrar a origem de seu olho roxo, com o frio. Aquela gargalhada gélida até hoje ecoa pelos corredores e esquinas do Congresso e, dizem, até do Palácio da Alvorada. Ela retumba no peito de alguns parlamentares como a risada da bruxa malvada dos desenhos animados no coração temeroso das crianças.

Ouvi, agora, na Band, que uma brasileira está envolvida num esquema de fraude na Volkswagen, na Alemanha. Ela é amante de um dos diretores. Estamos exportando corrupção. Deve ser por isto que nosso PIB está aumentando...

Noutro poema sobre o frio (Aqui estou, senhor Inverno!), diz o mesmo poeta:

Sei que vens vindo... Não me amedrontas!
Fiz provisões de sábias quietudes
e de silêncios – que prevenido!
Vão-se-me os olhos nas folhas tontas
como simbólicos ataúdes
rolando ao nada do teu olvido
.

Estou assim hoje. Alternando poesia com política. Uma mistura que só é menos incongruente que eu. Deve ser o frio!

Mas já tomei minha decisão. Tenho uma televisão colocada num vão de parede exatamente sobre uma lareira. Já prendi fogo na lareira (acima). Vou ligar a televisão e, como sempre, ficar apreciando o fogo.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 05/07/2005.

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26/07/2008

INCURSÃO NO FUTEBOL

MÉXICO X ARGENTINA: A PLATÉIA FOI INTERESSANTE

Não sou fanático por futebol e tenho meus próprios critérios de torcedor ocasional. Já me flagrei, certa ocasião, torcendo contra o Brasil tamanha a debilidade do time adversário, se não me engano um africano. Não gosto de quem tripudia sobre a fraqueza alheia. Tenho uma espécie de compulsão que me leva a torcer pelo mais fraco.

Também não assisto a jogos. No máximo ligo a tevê e fico navegando, vendo os lances mais importantes, principalmente os replays. Os locutores, com seus berros insanos, servem pelo menos para chamar a atenção para isto.

Mas ontem, de ressaca após uma crise de fibrilação, por isto um tanto fraco e indisposto, resolvi me acomodar e ver o jogo entre México e Argentina, pela BandSports, o canal esportivo da Bandeirantes na DirecTV.

Primeiro, a satisfação de fugir ao padrão Globo de qualidade: a histrionice do Galvão Bueno, a insegurança do Cleber Machado, os comentários chatos do Casagrande (que às vezes se esganiça e parece o Barney, dos Flintstones), os atropelos do Falcão que parece desconhecer que na linguagem falada também se usa vírgulas e pontos na forma de pausas mais ou menos longas, o Arnaldo César Coelho defendendo o juiz que assinalou um pênalti inexistente porque, antes, marcara um contra o outro time, o que qualifica de coerência...

O locutor Sílvio Luiz esteve melhor que outras vezes. Suas tiradas estão meio gastas e seu chavões já cansam, mas num jogo de poucos gols, em que não é preciso ouvir a cantoria que então ele faz, até que dá para suportar. O comentarista, cujo nome não gravei, discreto e sem criações mirabolantes, foi muito eficiente. Coloca no chinelo qualquer um desses grandes que enchem o saco nos programas esportivos dominicais.

Mas o jogo foi interessante por outro motivo. Pela Argentina jogou um tal de Coloccini, n.º 16, que distribuía coices e manotaços e parecia um cavalo redomão de crinas mal aparadas. A certa altura agrediu um mexicano acertando-lhe o rosto com os punhos fechados, abrindo-lhe um dos supercílios e forçando sua substituição.

O juiz, um italiano (Roberto Rosetti) deveria tê-lo expulsado imediatamente. Mas, meio banana, aplicou-lhe apenas um cartão amarelo. Uma punição extremamente branda.

Então o público chamou para si a função punitiva. Cada vez que o Coloccini tocava na bola, uma vaia estrepitosa. O jogador foi se encolhendo, fugiu de jogadas importantes, não cometeu mais faltas, se livrava da bola de primeira e literalmente se apagou em campo. Acabou contribuindo para o gol do México, desviando a bola para os fundos de seu próprio gol.

Os espectadores tiveram a atuação mais influente do jogo e aplicaram a pena que o juiz covarde não teve discernimento de aplicar. A vaia foi uma punição eficientíssima.

Sinto muito que no universo social não há como aplicar esse mecanismo. Há magistrados – felizmente não todos – que interpretam a lei com excesso de benevolência e os bandidos, por isto, se sentem encorajados a reiterar atos criminosos, em detrimento de todos nós. Reunir bandidos em praça pública e vaiá-los é impossível. Nem surtiria resultado.

Pena que o Conselho Nacional de Justiça não vai resolver esse problema, que é institucional e depende de leis mais rígidas para ser resolvido. O caminho que se aponta é exatamente o inverso: o ministro da Justiça defende o abrandamento de certas penas porque os presídios estão superlotados.

Já que não podemos vaiar os bandidos em praça pública talvez devêssemos vaiar as autoridades que defendem esse estado de coisas. É mais fácil e viável e talvez dê resultado.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 27/06/2005.
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19/07/2008

POLTERGEIST - O FENÔMENO

O problema de você assistir a uma comédia é que perde a graça reassisti-la: as piadas e situações engraçadas já são conhecidas e tornam-se absolutamente comuns. É a melhor forma de se transformar uma comédia num drama.

Na minha adolescência, em Taió, eu ia ao cinema sempre que podia. Mas quando era comédia já saía rindo de casa porque sabia que o Lotário iria também. Ele gostava de comédias e quando achava alguma cena engraçada soltava sonoras gargalhadas que contagiavam todos os presentes. A gente achava graça de cenas que poderiam nem ser tão hilárias assim. Ele era mais engraçado que muitas cenas.

Tenho visto poucas comédias e nem que quisesse poderia contar com a participação estimulante do Lotário porque ele morreu, ainda jovem, se não me engano aqui no Rio Grande do Sul, quando trabalhava no Pólo Petroquímico.

Bem. Tudo isto para dizer que ontem revi Poltergeist, O Fenômeno, aquele aterrorizante filme, um dos primeiros do Spielberg, e tive a impressão de que assistia a uma comédia sem graça.

Esse é um dos males de se viver no Brasil. Nossa situação social e política é tão terrificante e sobrenatural que um filme de terror não assusta mais ninguém.

Não lembrava de detalhes porque o vi há muitos anos. Mas sabia que a casa da família assediada fisicamente por espíritos do além fora construída sobre um cemitério.

Não sei porque, mas só depois da casa construída e de a família nela residir há algum tempo é que os mortos se revoltaram. O Spielberg também não explica como é que os fundamentos da casa puderam ser lançados sobre um cemitério com mortos enterrados a sete palmos quando se sabe que micro-estacas ou pilares geralmente exigem acomodação bem mais profunda. Mas isto deixa prá lá.

O filme começa com o The Star Spangled Banner, hino dos Estados Unidos, com toda força, no encerramento da programação da tevê. Uma das vantagens do sistema Dolby Surround é que você ouve o som com uma plenitude até irreal. Logo a menininha, Carol Anne, invoca espíritos que aparecem invisivelmente na telinha. Mais tarde acaba sendo tragada por eles e a tevê passa a ser o meio de comunicação entre a menina e seus desesperados pais, que se valem de uma parapsicóloga e seus assistentes e depois de uma clarividente para puxá-la de volta com uma prosaica corda.

Lamento, mas enquanto assistia, comecei a cochilar e acabei dormindo. Não vi o filme inteiro e não tive ânimo, depois, de voltar o devedê para revê-lo.

Quando acordei a família inteira estava no interior do carro, tentando fugir, a casa desmoronando e desaparecendo sob uma tempestade e efeitos especiais. A fuga foi exitosa e a família se acomodou num motel.

Numa das últimas cenas o pai coloca a televisão na rua. Pudera! Depois de todos os infortúnios era a melhor coisa que poderia fazer.

Talvez seja essa mesmo a mensagem do filme. A televisão não presta nem para crianças nem para adultos. É algo terrível e, a seu modo, aterrorizante. Transmite horrores como Pânico, Gugu, Fausto Silva, Hebe, por aí afora. Stanislaw Ponte Preta dizia que é uma máquina de fazer doidos.

No caso do filme, uma máquina de transmitir mensagens de espíritos loucos do lado de lá para o lado de cá. O que, no fim das contas, é a mesma coisa.


Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi, em 29/06/2005.

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12/07/2008

TAMBÉM QUERO MENSALÃO

Ouvi, hoje, que no Rio de Janeiro, uma universitária recebeu indenização por dano moral por ter sido chamada de “gorda” por um professor de Direito.

Ela saiu da sala, deixou o gravador ligado, e ao voltar percebeu que riam dela. Depois ouviu na gravação que o professor comentou que o gravador representava a inteligência artificial usada para o estudo, enquanto a dona saia da sala para ir à cantina comer alguma coisa e engordar.

Não achei tão ofensivo assim. Foi um comentário infeliz, talvez. Mas atualmente tudo é motivo para exigir reparação a esse título. A cartilha do Nilmário Miranda sobre o politicamente correto foi adotada oficiosamente. Li, até, que os deputados do PL vão entrar com uma ação de indenização por danos imorais, digo, morais, contra o deputado Roberto Jefferson, que os acusou de participar do esquema mensalão.

Aliás, Roberto Jefferson já foi gordo, lembram? Fez uma cirurgia de redução do estômago e emagreceu 60 quilos. Foi seu maior erro. Os gordos são geralmente confiáveis e até por injunção física não podem se dedicar a certas atividades facinorosas com a mesma desenvoltura de um magro.

Nunca julguei um ladrão gordo que tivesse praticado um furto mediante escalada – por exemplo – e os batedores de carteira geralmente também são magros: precisam de preparo físico para correr caso sejam flagrados.

Aliás, condenei um gordinho, certa vez. Ele tentou arrancar a bolsa de uma mulher, que reagiu com a eficiência de toda mulher, isto é, aos gritos, assustando-o. Ele correu e ao atravessar a rua foi pego por um veículo que por acaso era de um Delegado da Polícia Federal... Além de gordo, azarado. O dano maior foi no capô do carro.

Eu sempre fui gordo, desde a infância, e além de gordo, ruivo e sardento. Em resumo, feio! Essas características motivavam gozações de colegas, algumas humilhantes. Se fosse cobrar pelos constrangimentos sofridos estaria riquíssimo.

Certa ocasião voltava da aula, assobiando, e na minha frente iam dois empregados da oficina mecânica de meu pai. Ouvi um dizer alto, após me ver:

– Hoje vai chover. Tem bugio assobiando. E quando bugio assobia na serra é sinal de chuva. Se o bugio é gordo, é trovoada na certa!

Para quem não sabe, bugio é um símio de pêlo avermelhado e aquela observação doeu fundo.

Noutra, ainda, eu tinha vestido calção para jogar futebol e o tio de um colega observou:

– Puta que o pariu! Olha só as pernas desse animal!

Eu era gordo do tipo pícnico e minhas pernas eram muito grossas. Envergonhado, corri para casa e nunca mais usei calção. Desisti do futebol, eu que tinha planos de me profissionalizar. Poderia ter jogado tranqüilamente até à Copa de 1982 e não deixaria o Paulo Rossi fazer o que fez com nossa seleção. O Brasil perdeu um grande jogador. Bem feito!

A obesidade é um problema mais de ordem psicológica do que física na infância e na adolescência. Na universidade eu havia superado esses traumas. Mas nem todos conseguem. Ontem, ainda, o presidente Lula, ao receber o Ronaldinho, usando da sensibilidade paquidérmica que lhe é peculiar, comentou que o atleta está mais gordo que ele... Mais tarde, pronunciando-se a respeito da corrupção galopante no governo, que eclodiu com as denúncias do ex-gordo Roberto Jefferson, disse que, se for preciso, na apuração das irregularidades, “cortará na própria carne”.

Não é preciso, presidente! Um bom programa de reeducação é suficiente para enxugar adiposidades maléficas. Estou falando de reeducação alimentar para emagrecer. Eu emagreci 21 quilos!



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 08/06/2005.
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05/07/2008

MENSAGEM AO TÚLIO

Há muito tempo prometi uma mensagem para o Túlio, que era freqüentador mais ou menos assíduo do blog. Deixou comentários. Nunca mais se manifestou. Em todos os casos, aqui vai:

Caro Túlio. Meus dois filhos são mais velhos que você. Por isto vou apenas lhe repassar algumas das orientações que passei a eles. É claro que eles fizeram exatamente o contrário daquilo que ensinei. Mesmo assim, talvez até por isto, estão se dando bem, estão bem encaminhados dentro daquilo a que se propuseram e ressalvadas as fases de vida de cada um.

Não acredite naqueles que, com ar professoral, lhe ensinam verdades padrões e definitivas. Por qualquer meio: acadêmico, livros e até por blogues. Procure a sua própria verdade e siga a vida desconfiando de dogmas. Desde o início da vida do homem estamos vindo aos trancos e barrancos e ao sabor do acaso, por mais planejado que seja. Apenas o aperfeiçoamento das coisas é mais ou menos consciente.

Desconfie de quem propaga a própria humildade. Quando alguém inicia um discurso dizendo É com humildade que reconheço... a humildade já foi estropiada. Dizer-se humilde é a mais evidente prova de soberba.

Não creia quando alguém diz: “Fulano é muito inteligente”. Primeiro, porque ainda não se encontrou um meio eficaz de medir a inteligência. Aliás, há dúvidas sérias inclusive quanto àquilo que poderia integrar seu conceito. Depois, é prepotência alguém ser capaz de julgar alguém muito inteligente. Importaria que o julgador fosse mais inteligente do aquele a quem está julgando: só quem é mais inteligente pode julgar a inteligência dos outros.

Nunca busque a felicidade. Primeiro, porque aquele que busca a felicidade é confessadamente infeliz. Ninguém busca o que já tem. A felicidade que os infelizes procuram é utopia. Nossa vida é feita de acontecimentos alegres e de momentos tristes e nem sempre somos capazes de lembrar apenas as coisas boas e esquecer as ruins, como deveria ser, para nosso próprio bem. Aproveite com intensidade os momentos de paz e serenidade que se intercalam entre os momentos tristes de nossa vida, mas que, no final de tudo, é o que conta se não nos esquecemos deles.

Nada na vida é sério. Leve-a com bom humor e sem inquietações. Namorar, casar, ter filhos, tudo isto no início fazia parte da vida como fatos normais e lúdicos. Os homens é que vestiram essas coisas com muita seriedade. Às vezes acho que o amor, nos termos em que existe hoje, foi uma invenção de laboratório. Amor é uma coisa bem menos complicada.

Não espere respostas padronizadas da vida. Não há um código que possamos seguir para viver porque ela é essencialmente dinâmica e ninguém é igual ou semelhante a ninguém. Não é possível codificar a diversidade comportamental. Cada pessoa é uma individualidade própria e auto-suficiente.

Lembre sempre que não existe um período só da História que sirva de exemplo. Toda ela é recheada de horrores e perseguições, de lições nada edificantes de como viver e sobreviver explorando e subjugando o próximo. Talvez, embora longe do ideal, este seja o melhor momento da História da humanidade. Mesmo que não seja, é bom, para nosso bem, que acreditemos que seja. Afinal, precisamos cultivar com serenidade essa bendita teimosia que faz que com que a raça humana sobreviva e não esteja em extinção. Ainda.

Finalmente, leia poesia. Ela agrada ao espírito e os poetas quase sempre dizem coisas mais importantes que os cientistas. Guilherme de Almeida, o príncipe dos poetas brasileiros, terminou um poema dizendo: Caminha e esquece.

Faça isto. Inclusive – e principalmente – em relação ao que foi escrito aqui.

Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi, em 27/05/1005.

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28/06/2008

SOBRE GENTE E BICHOS

A tristeza e a depressão devem ser coisas que se acentuam, e muito, com a idade. Não sei se a experiência tem alguma coisa a ver com isto ou se é a sensação inafastável de, para quem já viveu, como eu, 53 anos, não há possibilidade de viver outro tanto. Coisas que antes não produziriam qualquer efeito no ânimo, agora parecem ter o poder de entristecer e desanimar. A suscetibilidade é alterada.

O jornal Zero Hora de 05/05/2005 traz exata meia página sobre o indiciamento dos jovens que teriam matado a cadela Preta, em Pelotas. No dia 06, mais 2/5 de página sobre o mesmo assunto (pág. 51) e exata meia página sobre outra cadela furtada na Serra Gaúcha. Já sobre o caso da moça de Bragança Paulista que teve a mão direita amputada e perdeu a visão de um olho com a explosão de uma carta-bomba enviada pelo namorado, apenas uma pequena coluna, menos de 1/10 de página, no dia 05.

Escrevi sobre cadela Preta e creio até que fui um dos primeiros a fazê-lo. Mas o meu blog não é muito lido e a repercussão maior veio após, através de outros mais famosos e pela imprensa. Nem creio que inspirados no meu texto. Depois tentei prever as penas aplicáveis aos réus em caso de condenação. Não defendi nem acusei e tampouco desejei pena superior à prevista em lei.

Não há duvida que o crime é odioso, mas há outros mais graves sendo praticados todos os dias e todas as noites por esse Brasil afora e ninguém quer se dar conta disto. Enquanto isto não acontecer com alguém da minha família, que se danem os outros.

Essa inversão de valores anuncia a capacidade de se emocionar mais com os animais do que com gente. A comoção é mais acentuada quando o crime é praticado contra um bicho do que, como no caso de Bragança, contra uma moça.

Não se fale que uns são indefesos e outros não. Qual a defesa da moça de Bragança diante de uma carta recebida pelo correio? Nenhuma. Então, o crime de Bragança é infinitamente mais grave que o crime de Pelotas.

Afinal, este vitimou um cachorro, um animal irracional que vivia na rua e depois foi adotado por Pelotas e por todo o Brasil. Muito mais crimes se cometem contra meninos e meninas de rua, a maioria não é descoberta, nem todos repercutem. Quando a vítima é criança sempre há conseqüências que se projetam pela vida afora, às vezes criando mais revolta, mais dor, mais mágoa e mais crimes.

Há até uma emotiva petição que circula na Internet, que não assinei, e que deverá ser enviada ao juiz, de escasso valor jurídico; mas não vi nenhum movimento em prol da moça de Bragança.

Li comentários em outros blogues de que os matadores da cadela mereceriam nada mais nada menos que a pena de morte. Isto é desanimador. Como vou confiar no sentimento de quem, para um animal, defende carinho, proteção e amparo, e para um ser humano ainda que criminoso, a pena de morte? Há alguma contradição mal explicada nesse modo de ver as coisas.

O ser humano não é o que parece. A Lizandra (que então matinha o blog Alma Castelhana) já levantou a questão, citando Hobbes: homo homini lupus (o homem é o lobo do homem).

Aquele que acaricia um animal pode ser o mesmo que esbofeteia um filho, que massacra os pais ou maltrata o cônjuge. E se fôssemos aplicar a pena de morte a quem amarra uma cadela num pára-choque e a arrasta até a morte, qual pena aplicaríamos a quem fizesse o mesmo com um ser humano?

Não estou pregando o desprezo aos animais. Quem tem afeto por seus bichinhos de estimação deve continuar a tê-lo e eu nem seria a pessoa adequada a emitir conceito contrário. Mas, por favor, não esqueçam dos semelhantes, mesmo que eles não mereçam.

Está em cartaz, em todo o Brasil, o filme A Queda, sobre os últimos dias de Hitler. Pelo que li, o diretor procurou ser o mais fiel possível à sua biografia e isto foi elogiado na última Veja pelo imortal Moacir Scliar, que tem ascendência judaica.

Os biógrafos de Hitler dizem que ele gostava de crianças e tinha afeto especial por uma cadela. Mas fez o que fez.



Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 11/05/2005.
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07/06/2008

ELES, OS JUÍZES,

VISTOS POR UM DESEMBARGADOR APOSENTADO

Já citei aqui a obra de Calamandrei, “Eles, os Juízes, Vistos por Nós, os Advogados”, uma pequena obra-prima conhecida de todos os que lidam com o direito. Hoje, sem a pretensão e erudição do grande mestre, vou dar também o meu pitaco e falar sobre juízes. Até o título é uma paródia.

A maioria dos juízes é pedante. O conceito de a autoridade subiu-lhe à cabeça aplica-se a quase todos. Gostam de desferir carteiraços, principalmente em público, quando há bastante testemunhas de sua demonstração de autoridade altaneira.

A maioria é empertigada. Os juízes geralmente gostam de chamar à atenção. Não estou referindo o chamar a atenção com modos e gestos, embora alguns cultuem exatamente essa especialidade. Mas a maioria chama à atenção verbalmente daqueles que, em determinadas circunstâncias, estão sob sua autoridade no desenvolvimento de um processo que em princípio vai acabar com a vitória de uma das partes. Então repreendem, até com deselegância e má educação, quem eles pensam apenas que estejam tomando alguma atitude que possa comprometer sua autoridade.

O pior, entretanto, é a crença de que são oniscientes. Eles estão sempre certos. Seus julgamentos estão sempre corretos. Sempre têm razão. Ninguém que cruze no caminho deles pode contestar, ao menos em sua presença e no momento em que acontece, admoestação ou penalização que aplicam.

Muitos fazem questão de alardear essa onisciência. Apreciam explicar, esmiuçadamente, tudo aquilo que se refere ao seu trabalho. Gostam de fazer prolegômenos, de advertir de que se acontecer isto eu farei aquilo e se acontecer aquilo eu farei isto. Muitos metem o dedo na cara do freguês e o advertem preventivamente como se ele estivesse pronto a praticar um crime que até então não passou de mera conjectura.

Os juizes são, na maioria das vezes, muito explicativos. Truncam os atos, paralisam-nos para dar esclarecimentos, para cobrar atitudes, para tentar ensinar aos outros como é que se trabalha, esquecendo-se de que cada um tem seu próprio modo de trabalhar.

A maioria, também, vamos reconhecer, conhece claramente as regras do ofício. Mas até por isto, e em função disto, eles pecam: se preocupam com detalhes insignificantes e os elevam à categoria de fatos principais, tomando atitudes punitivas quando não precisariam tomá-las e admoestando quando desnecessário.

Esse excesso de conhecimento, aliado ao excesso de confiança, às vezes faz com que errem e transmitam a impressão de que o erro foi proposital. Mas na maioria das vezes, vamos reconhecer novamente, trata-se apenas de equívoco. Só que o equívoco de um juiz é difícil de reparar. Aquilo que um juiz decide está decidido. Aquilo que ele fala está falado. Aquilo que escreve, está escrito. Ninguém pode, no momento em que ele profere sua decisão, modificá-la. Um juiz não volta atrás mesmo que alguém o convença de que outra solução é mais adequada e, mais do que isto, a correta para aquela situação.

Eles não admitem críticas, não reconhecem quando a água é vinho e quando o vinho é água. Simplesmente decidem, sobem em suas tamancas e ai do mortal que reclamar. Não calçam as sandálias da humildade; pairam acima dessas coisas mundanas. Eles são superiores e por isto muito vezes são injustos e odiados.

Se não fosse essa imponência toda, se não fosse esse empertigamento, essa soberba, essa mania de truncar, de parar, de advertir, de ver infração onde infração não há, de não observar o tempo regulamentar, de a toda estar paralisando o jogo para advertir os jogadores, o Corinthians não teria sido eliminado da Copa do Brasil pelo Figueirense e muito menos o Internacional, com um gol de pênalti que não foi considerado gol, pelo Paulista de Jundiaí.

Depois ainda reclamam quando a gente xinga a mãe deles.




Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi, em 09/05/2005.
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23/05/2008

E O PALHAÇO, QUEM É?


Chegamos sexta-feira em Florianópolis demorando, de Porto Alegre até aqui, mais de 45 dias. Não só de viagem, mas considerando a programação. Faz tempo que queríamos vir mas sempre alguma coisa atrapalhava. O penúltimo empecilho foi o presidente Lula que mandou a gente tirar o traseiro da cadeira e procurar juros mais baratos. Não sei o que fiz, mas tive que exibir meu traseiro, naquele dia, a um proctologista. Mas isto já é assunto ultrapassado.

O último foi a Átria Fibrilini que, para quem não sabe, é minha fibrilação atrial paroxística que considero minha indesejável mas atrevida amante. Chegou, como sempre, de madrugada, foi bem servida com um coquetel (de medicamentos), mas às 17,00 horas de quinta resolveu ir a procura de outro. Essa minha amante é muito volúvel e caprichosa.

Sexta-feira finalmente saímos, eu ainda um tanto cansado e depauperado. A Fibrilini é muito exigente. Ela sorve minhas forças e por uns três dias eu não consigo recuperar a normalidade do meu mau humor. Fico pior ainda do que normalmente. Mas tudo bem. Uma viagem seguida de novos ares tem o poder de renovar energias e vamos ficar uns dias borboleteando por aqui, visitando amigos e parentes, e isto quase sempre é bom.

Se eu fosse bem normal poderia ter saído de Porto Alegre mais feliz. Ou pelo menos, mais alegre: na saída, numa das muitas sinaleiras (ou farol, ou semáforo) eu parei na primeira fila.

As sinaleiras de Porto Alegre são quase todas minhas inimigas. Quando percebem que eu me aproximo elas acendem a luz amarela e em seguida, mais rápido do que comumente, a vermelha. São sádicas, também. Em algumas eu já chego com elas fechadas, paro o carro, e no mesmo instante elas abrem. Fazem de propósito. Se abrissem três segundos antes eu poderia passar sem ter de parar completamente. Mas não. Comigo elas se comportam como se fossem verdadeiros seres humanos.

Ser o primeiro da fila é algo absolutamente incomum na minha vida de motorista. Só mesmo nas sinaleiras. No trânsito normal sou sempre o último. Não adianta escolher, a pista em que trafego é sempre a mais lenta. Enquanto vejo alguns costurando e se adiantando, a minha costura me leva sempre ao último lugar. Olho no retrovisor e não vejo ninguém. Até as carrocinhas me ultrapassam no trânsito urbano de Porto Alegre. Não estou falando das tracionadas por cavalos, mas daquelas puxadas a muque mesmo, por nossos irmãos brasileiros que vivem de recolher os restos do lixo e deles extraem meios de sobreviver.

Bem, eu era o primeirão da fila na sinaleira quando um palhaço, esmeradamente fantasiado, postou-se à frente do carro e começou a fazer evoluções que ele naturalmente queria que eu achasse engraçadas. Mas não consegui achar graça. Permaneci quieto, semblante fechado o tempo todo, mal humorado e grosseiro. Essas coisas me entristecem. Não posso ver alegria nos gestos de quem se obriga a macaquear na frente de um carro para ganhar um troquinho. Não ri nem sorri. Nem quando ele fez aquilo que, em outras circunstâncias, eu poderia até achar engraçado: deixou cair uma bola que usava para executar seu malabarismo mal ensaiado e teve que correr para pegá-la.

O sinal abriu e eu arranquei. Percebi que a Ieda, mais simpática e condescendente, acenou para ele. Mas não foi possível dar um troquinho. O pior é que não tive ânimo nem de lhe dar um sorriso e talvez isto, naquele momento, lhe fosse até mais importante que um dinheirinho.

Acho que não existe nada mais frustrante para um palhaço do que o mau humor da platéia. Eu fui uma platéia assim, sexta-feira, quando saímos de Porto Alegre.

Por isto, se algum dos meus leitores quiser comentar este texto, por favor, fique à vontade. Aceito comentários mal humorados e grosseiros como eu fui. Não vou censurar nenhum (aliás, nunca fiz isto).

Desnecessário dizer, mas nem precisam se preocupar com um troquinho!



Publicada originalmente no blog JUS SPERNIANDI,
em 15/05/2005.
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22/05/2008

CONHECI UM POETA

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Domingo passado eu conheci um poeta. É a primeira vez que ouso dizer isto. É a primeira vez que ouso dizer que conheço um poeta porque conheço alguns que se dizem poetas, mas não são.

Dizer que ele respira poesia é cair em indesculpável lugar comum. Mas é verdade. Então devo acrescentar que ele respira poesia juntamente com a fumaça dos cigarros que fuma quase sem intervalos.

Tem suas idiossincrasias. Não gasta um tostão para publicar seus livros.


Publicou três – Poemas sem Dono, Caminhos de Não Chegar e Juntando Pegadas –, porque com eles obteve o 1.º lugar em concursos em que o primeiro prêmio era exatamente a publicação.

Afora isto, tem muitas poesias esparsas por esse Brasil afora, em coletâneas e seleções

O primeiro livro – Poesia sem Dono – foi inscrito em concurso por iniciativa de seus filhos. Ele, por si, não se importava com isto. Tem mais de seiscentas poesias escritas e um livro só de sonetos – essa armadilha tormentosa e formalmente restritiva e que desafia a criatividade de todo o poeta – que aguarda um concurso exclusivo para que ele possa inscrevê-lo, obter o primeiro lugar e publicá-lo.

Honestamente, o poeta que conheci não tem jeito de poeta. Ele não tem nada daquela assepsia quase caricatural de um Drummond ou da feição mortiça de um Manuel Bandeira ou da ingenuidade passeriforme do nosso Mário Quintana. Enfim, o que ele efetivamente é está nos seus livros.

Detestei a poesia dele. Isto não diminui sua qualificação tampouco o valor de seus poemas. Definitivamente, não suporto alguém que tenha menos jeito de poeta do que eu – ainda que só eu o ache – seja também um poeta superior, infinitamente superior, mesmo que os meus belíssimos poemas estejam guardados a sete chaves nos refolhos de minha alma e de lá, agora, dificilmente sairão.

Por isto detestei a poesia dele. Não sinto capacidade de escrever o que ele escreve e como escreve. Ele tem o árduo poder de unir quantidade e qualidade. Eu não tenho poder nenhum e agora ele está ainda menor.

Estou falando de Alberto Lisboa Cohen, um paraense que está mudando para Porto Alegre. Querem saber mais dele? Perguntem prá Tânia, do Plátanos. Mas guardem esse nome, vocês que gostam de poesia. Ele ainda brilhará, e acho que não vai demorar, na parca constelação dos poetas brasileiros, da qual me desincluo com o rabo entre as pernas.

Abaixo duas poesias dele. Uma – Navegar é Preciso – tem algum liame, ainda que tênue, com os objetivos deste blog que existe exatamente porque navegar é preciso.

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NAVEGAR É PRECISO

(Alberto Cohen)


Quebrou aquelas correntes
como se fosse um veleiro
liberto de antigo cais,
que finalmente encontrasse
a paz do retorno ao mar,
na emoção do navegante
com o mundo a navegar.
Serpentes, monstros marinhos,
seres por desencantar,
o vento como parceiro
no encalço do luar,
sem previsão, sem destino,
amarras desatreladas,
tantas novas madrugadas,
quantos sonhos por sonhar,
na missioneira aventura
de persistir na procura,
jamais no mesmo lugar.



Alberto Cohen
Poemas sem Dono
II Prêmio Literário Livraria Asabeça - 2003
página 46.
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INVENTÁRIO

(Alberto Cohen)

No fim, restarão os poemas,
singelos, desajeitados,
corcundas, adjetivados,
meros filhos naturais.
No fim, quem sabe, um menino
recolherá os fragmentos
de ilusões e sentimentos
profundos ou casuais.
No fim, talvez, serão lidos
como anônima poesia,
sem dono, nem autoria,
pecados originais.


Alberto Cohen
Poemas sem Dono
II Prêmio Literário Livraria Asabeça - 2003,
página 41.
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17/05/2008

NOSTRADAMUS SOU EU!

Dia 13 de fevereiro, quando fomos ao aeroporto buscar minha filha e meu genro, senti-me reentrando no espírito natalino. Pessoas – principalmente mulheres – desembarcavam com pacotes coloridos e cheguei a pensar, comovido, em como é generoso o brasileiro: gente que só então podia vir visitar parentes não se esquecia de, na bagagem, incluir presentes e mimos para amigos, irmãos, sobrinhos, pais, avós...

Eu já estava recuperando minha fé na humanidade, comentei o fato com a Ieda e então ela observou:

– É! Mas podes ver que os pacotes não são pacotes de presente. São sacos de lixo, daqueles pretos. O que essas mulheres estão trazendo são fantasias. Elas devem ter participado dos desfiles das escolas de samba do Rio.

Passei a prestar mais atenção. Fiquei com vergonha de minha ingenuidade. Confundir sacos de lixo com pacotes de presente? É que eu pensei que o colorido que transbordava dos sacolões fossem embrulhos de presente neles acondicionados para proteção.

Uma das mulheres ostentava ainda a faixa de “campeã” orgulhosamente sobre o silicone frontal. Era muito feia, um verdadeiro “S” invertido. Está certo que os peitos são normalmente virados para frente e a bunda para trás, mas naquela os seios eram ao mesmo tempo tão para frente e as nádegas tão para trás que eu duvidei que conseguisse manter equilíbrio até a saída do aeroporto. Conseguiu. Mas se não tivesse o carrinho porta-bagagem para se apoiar...

Senti um certo temor. E se Darwin estiver certo na sua teoria da evolução? Em sua necessidade de adaptação ao ambiente seres foram criando apêndices, barbatanas foram se transformando em pernas ou asas e as formas iniciais mais perfeitas foram involuindo até chegar às formas imperfeitas e primitivas das quais os homens são os melhores representantes hoje.

O Fantástico, no ano passado, apresentou uma série pseudocientífica sobre formas que existirão daqui a cinco mil anos: cobras aladas, peixes com piercings, dinossauros anões e insetos gigantes. Como a faculdade de prever é uma das poucas coisas que ainda não é exclusividade da Rede Globo, faço minha previsão também.

O crescimento gradativo das bundas, resultado de exercícios físicos dirigidos a essa finalidade, e as implantações de silicone nos peitos vão forçar o surgimento de algum apêndice extra de apoio em algumas mulheres. Mas como o esse culto não é observado por todas, apenas por dançarinas de tcham, por essas que desfilam nas escolas de samba e algumas outras, uma nova espécie de mulher vai existir daqui a cinco mil anos.

Essa nova espécie terá quatro pernas, pois duas serão insuficientes para apoiar tanta massa nadegal. Uma parcela da humanidade vai andar de quatro novamente! Na minha visão elas andarão de pé e como a bunda faz contrapeso para os peitos os novos apêndices cresceriam apenas na parte traseira, como ponto de apoio para as nádegas. Talvez até rodinhas, uma espécie de porta-bagagem natural...

A mitologia se tornaria realidade. Seria uma forma de comprovação de que os centauros existiram. Nada mirabolante, mas contei isto a um amigo e ele ficou sexualmente interessado.

Então a gente combina que daqui a cinco mil anos, quando nos reunirmos para ver se as previsões da Globo se realizaram, conversaremos em mesas redondas com cadeiras especiais para ver esse novo tipo de mulher. E conferir se minhas previsões também se concretizaram.

Se eu acho isto uma involução? Não. Apenas uma volta às origens primitivas perfeitas. Talvez o homem nunca devesse ter se erguido nas patas traseiras mesmo.



Publicado inicialmente no blog JUS SPERNIANDI,
em 07/04/2005.
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10/05/2008

EU COLO SABONETES...

Há certas expressões curtas que exprimem conceitos extensos e profundos.

Aqui no RS se usa muito o “louco de atar”. “Aquele juiz é louco de atar” significa que, para manter uma conduta compatível, profissional ou particular, precisa ser amarrado. Senão sai por aí fazendo besteiras. Por incrível que pareça, é muito usada no exemplo dado, principalmente por colegas.

Os mecânicos da oficina do meu pai tinham um bastante expressivo, que utilizava também o vocábulo “amarrado”, mas não vou repetir aqui porque é chulo e este é um blog de respeito.

Há uma dessas expressões que nunca tinha ouvido. Eu passeava pelo shopping e em sentido contrário caminhavam duas moças conversando. Ouvi quando uma delas terminava um comentário sobre alguém com a expressão “o cara é de colar sabonete”.

Uma espada de gelo perpassou-me a espinha (ui!). Instintivamente fitei-as e com tanta expressividade que uma delas riu. Certamente pensou: “esse é um, se traiu!”. Elas passaram e esperei uma gargalhada estrondosa, que retumbaria pelo shopping inteiro, produziria ecos aterradores, quebraria os vidros do teto projetando estilhaços pelo espaço e talvez até atingisse algum avião que sobrevoasse a região. Num lampejo, tive tempo de pensar: “Ainda bem que o Aerolula está na África”.

Não houve a gargalhada, é claro, mas não ousei olhar para trás para ver se elas pelo menos cochicharam a respeito de sua descoberta. Faltou-me coragem...

Sim, eu dou daqueles que cola sabonete. Não descobri o adjetivo que a moça usou. Não ouvi e não sei se elas estavam se referindo a um “chato” ou a um “pão-duro”, mas a verdade é que colo sabonetes.

Quando um está quase no fim e pego um novo, molho a ambos e colo o resto do antigo sobre o novo.

Não sei se é pão-durismo. Acho que não! É que sinto pena da perspectiva da sobra de um sabonete que me serviu durante algum tempo ser sugada pelo esgoto do chuveiro e se perca na fossa suja ou numa caixa de gordura sem cumprir a função para a qual veio ao mundo. Coisas inanimadas também merecem piedade.

Não é uma tarefa fácil. Às vezes é até difícil. É que não uso sempre a mesma marca. Uso de critérios específicos e particulares para escolher o meu sabonete. Geralmente escolho o mais barato, o que está em promoção. Como as promoções mudam muito, mudo também de sabonete, e às vezes as diferenças entre os ingredientes que os compõem impedem uma aderência perfeita.

Nunca tente, por exemplo, colar um composto de glicerina com um daqueles cremosos e nutrientes da pele. Não dá liga.

Às vezes tenho que ficar comprimindo as bordas do menor sobre corpo do maior para que a soldagem seja perfeita. Não gosto de estar tomando banho e sentir as partes se soltarem.

Andei fazendo cálculos e acho que durante toda a minha vida, só com esse sistema de colagem, consegui economizar uns trinta sabonetes!

Mas estou atravessando uma crise. Preciso de qualquer jeito encontrar aquelas moças. Preciso saber, afinal, o que é que eu sou, ou o que é que elas acham que eu sou por colar sabonetes.

Devia ter perguntado na hora, mas fiquei com vergonha. Foi algo tão de supetão que a perplexidade que senti me impediu de agir. Mas sinto que parte de minha identidade se perdeu, naquele dia, no shopping.

Se alguém souber o que é alguém que “cola sabonete”, por favor me diga, de preferência explicando a origem da expressão.

Sinto-me tão inseguro!



Publicada originalmente no blog JUS SPERNIANDI,
em 14/04/2005.


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01/05/2008

A VERDADE É A VERDADE?

Uma reportagem televisiva banal provocou-me um receio profundo e de cujas conseqüências tenho considerações amedrontadoras e inquietantes.

Já consultei 39 psiquiatras e encontraram em mim um elenco grandioso de irregularidades, como defeito de fábrica, unha encravada e dermatite seborréica no que resta de minha cobertura. Menos paranóia.

No dia 14/04/2004 o jornalista Jorge Kajuru – atualmente invisível nas grandes redes – apresentou uma matéria no Esporte Total, da Band, que dá o que pensar. Não a matéria, em si, mas a possibilidade de desdobramento e de uso dos mesmos recursos em assuntos sérios e graves, com poder de influenciar decisões e justificar medidas extremas, em qualquer nível (local, nacional ou internacional e, dentro em breve, até intergaláctico).

Quem teve o privilégio de ver a Copa de 1970 não esquece um chute do Pelé que, do círculo central do campo, tentou marcar um gol na então Tchecoslováquia. A bola não entrou por pouco.

O programa apresentou uma montagem em que a bola entra. Não é possível, a olho nu, verificar que se trata de efeito, tal a perfeição do acabamento: seguindo-se a trajetória da bola, tem-se a exata impressão de que ela sai do pé do Pelé e vai se alojar, sem solução de continuidade, no interior do gol adversário.

Não se está criticando o programa ou o apresentador. Não é isto que está em jogo. Foi uma homenagem foi bem feita, inocente, e aquela bola deveria mesmo ter entrado.

Na Copa de 1966, na final entre Alemanha e Inglaterra, o english team marcou um gol que suscitou polêmica ainda em campo: a bola bateu no travessão, caiu alguns centímetros para dentro da linha de gol e, pelo efeito contrário que levava, saltou para fora. Depois, no cinema, pelo recurso da câmera lenta lateral, foi possível verificar que a bola efetivamente entrara.

Entretanto, há dois ou três anos, a discussão ressurgiu e a mesma imagem foi mostrada na tv e, surpreendentemente, percebeu-se que a bola não ultrapassou a linha de cal...

Qual a imagem real? Particularmente creio que a primeira, do cinema, pois é visual e não digital ou virtual, e de uma época em que não havia recursos tecnológicos tão aprimorados quanto os de hoje. Mas, imbuído de manobras e teses que fazem frutificar as mais absurdas teorias conspiratórias, penso que sempre haverá quem julgue correta a imagem apresentada por último. Principalmente os jovens, que não acompanharam a copa de 66 nem viram o filme.

O meu receio é o de que esse tipo de manobra possa ser aplicado de forma não inocente em outros fatos da vida humana. Numa guerra, por exemplo. Aquelas imagens da Guerra do Iraque, de aviões destruindo “cirurgicamente” alvos militares, até que ponto são verdadeiras e até que ponto podem ser montagem?

Até agora não foram achados sinais de que Sadan Hussein fabricasse armas químicas ou que dispusesse de meios para tanto. Nem será necessário o uso de técnica tão aprimorada para Mr. Bush, algum dia, apresentar ao mundo uma imagem provando o contrário. Ele tem meios técnicos eficientes de forjar uma filmagem no deserto de Mojave e dizer que foi no Iraque.

Mas o meu temor é de que a História seja alterada. Como a que estamos vivendo hoje só será contada com isenção daqui a uns 50 anos, é possível que essa isenção seja contaminada ou influenciada, que imagens forjadas sobrepujem documentos, e que nossos bisnetos, por exemplo, nunca saibam que os Estados Unidos invadiram o Iraque: este é que invadiu os EUA e a muito custo foi rechaçado e recolocado no seu devido lugar.

Na forja dos poderosos mal intencionados é possível transformar ouro em pirita. Ou o contrário.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 17/03/2005.
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26/04/2008

JÁ FUI RADIALISTA...

Preciso visitar o padre Guerino, Diretor das Faculdades Dom Bosco de Porto Alegre, para conversar, lembrar os velhos tempos em que ele era o Conselheiro do colégio em Rio do Sul e eu era um interno nem sempre muito disciplinado. E para saber o paradeiro de muitos ex-colegas e professores, como o clérigo Luiz, que me incutiu o gosto pela música clássica.

No Colégio Dom Bosco participei da fanfarra, tocando clarim ou corneta. Foi o único instrumento que consegui tocar até hoje. Talvez porque, sem pistões, ele só toca quatro notas.

Eu pedi a meu pai que me comprasse uma sanfona, quando era mais jovem, mas ele disse que isto era coisa de vagabundo, que eu precisava estudar para ser alguma coisa na vida, não um mecânico como ele que “dava duro dia e noite” numa vida sacrificada e penosa. Na verdade, acho que foi pretexto por falta de dinheiro. Mas o motivo não importa. Meu maior receio é o de que o mundo tenha perdido um grande virtuose...

Talvez por isto dei para meu filho quando pequeno uma sanfona e flautas doces, além de uma bateria que ele só podia tocar quando eu não estava em casa. Mais tarde, dois pianos. Quando quis estudar música o incentivei e este ano ele completa sua graduação em Piano na UFRGS.

Com 12 anos, nas férias colegiais, eu sintonizava a Rádio Eldorado, de São Paulo, em ondas curtas, todas as noites, depois de A Voz do Brasil. Aos domingos reproduziam uma ópera completa e a primeira que ouvi foi A Flauta Mágica, de Mozart .

Ruídos, chiados e som desaparecendo e voltando, tudo isto integrava o sacrifício de quem queria ouvir rádio à noite, na Taió cercada de morros em que nem antenas altas resolviam. Ondas curtas nunca foram confiáveis. Descargas mais fortes anunciavam chuvas e trovoadas e essa interferência sempre foi a nossa melhor previsão do tempo.

Meus colegas brincavam na oficina mecânica de meu pai, contígua à residência, transformando-a em uma enorme cidade do Velho Oeste. Não entendiam como eu podia ficar com o ouvido grudado no rádio, marca Bandeirante, grande e potente, dotado de um olho mágico para afinar a sintonia, o que não adiantava muito.

A oficina era enorme e tinha fortes atrativos. Estive lá depois de adulto e ela, embora apresente as mesmas dimensões, na verdade encolheu. O que naquele tempo representava obstáculos intransponíveis são hoje meros degraus. Os vãos, verdadeiros abismos profundos e amedrontadores, são frestas em que não caio nem que queira. No máximo ficaria entalado nas panturrilhas.

O prefixo do programa de música lírica da Eldorado era uma música melodiosa e suave que mais tarde descobri ser o segundo movimento da Sinfonia Clássica, de Prokofiev. Mais tarde ainda usei esse mesmo prefixo num programa de música erudita que apresentei na Rádio Educadora, de Taió, no final dos anos 70, por uns alguns meses. Aos domingos, ao meio-dia, eu apresentava ainda um programa de MPB.

Sim, eu fui radialista. Graças à visão de um idealista, Marcos Hosang, que lutou contra interesses políticos contrários e má vontade de outros durante 22 anos de sua vida para dotar Taió de uma rádio. Eu o auxiliei, cedendo meu escritório para redigir e elaborar documentos necessários ao processo de concessão, mediante o compromisso de que a rádio não se dedicasse, então, apenas a músicas sertanejas e a futilidades.

Nenhum dos meus programas era páreo para o “Fogo na Roupa”, um locutor caipira que escolhera esse nome artístico e que todas as manhãs apresentava um programa de música sertaneja. Nem para o Paulo Marques que à noite, com uma voz suave e lamentosa, apresentava um programa de músicas lânguidas e mais tristes do que o canto de uma sabiá doente, entremeadas de poemas que recitava.

O meu programa de música clássica não fez muito sucesso. Mas tenho certeza de que pelo menos duas velhinhas alemãs ouviam. Uma delas era a mãe do Marcos...




Crônica publicada originalmente no blog JUS SPERNIANDI,
em 31/03/2005.
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19/04/2008

Utilizando o Transporte Coletivo

Ontem tive uma experiência que só não posso qualificar de dignificante por um detalhe. Entrei num ônibus urbano, ainda que para um pequeno trajeto, coisa que há muito tempo não fazia. Aposentado não precisa sair muito de casa.

O coletivo, da linha Juca Batista, é ótimo. Certas comodidades fizeram esquecer meu semi-usado: ar condicionado, bancos confortáveis e, principalmente, o responsável pela direção era outro...

Defronte aos Supermercados Zaffari uma bela voz feminina confirmou pelo serviço de som: “agora você está passando defronte o Supermercado Zaffari da Cavalhada”.

De vez em quando a mesma voz esclarecia: “você está viajando na linha Juca Batista, sentido bairro-centro”. Que bom! Deu vontade de ir até o Centro. Assim fica difícil a gente se perder.

Apesar da sensação de você estar assistindo a um jogo de futebol em que o narrador narra aquilo que você está vendo e muitas vezes você vê mais do que ele (outras ele narra esquecendo que você está vendo e mente descaradamente), a voz da moça era muito mais bonita.

Ela não se esgoelava como o Luciano do Valle, por exemplo, a cada parada. Nem repetia “desce, desce, desce” como o Silvio Luiz que a cada vez que alguém faz um gol fica berrando “foi, foi, foi, foi eeeeeeeeele”...

Uma das conclusões dessa viagem, que não foi além de dois quilômetros, é a de que os locutores de futebol, sem exceção, são excessivamente chatos.

Havia poesia nos ônibus, uma mais ou menos assim: “Dia lindo, sol rachando, não sei se salto ou saio voando”.

Se você for assaltado o será num ambiente VIP, de alta categoria.

Estive fazendo exames médicos, esses dias, e posso afirmar que a higiene do ônibus que peguei era melhor do que a da sala de espera do hospital. Acho que, em caso de alguma catástrofe se abater sobre Porto Alegre esses ônibus podem ser usados como centros cirúrgicos sem problemas de assepsia. Apenas seriam necessárias algumas adaptações.

As pessoas ao meu lado eram pessoas humildes. Muitas – imaginei – não tinham carro nem nunca poderiam ter. Mas gozavam do mesmo conforto de outros que, como eu, têm carros mas preferem não usá-los no trânsito de Porto Alegre ou apenas esporadicamente o utilizam.

Finalmente – filosofei – alguma coisa pública reúne ricos e pobres, negros e brancos, crianças e adultos, homens e mulheres, em condições de igualdade, num sistema absolutamente socialista em que todos são iguais. Absolutamente iguais.

Mas não. Alguma coisa destoava na minha filosofada. Alguma coisa estava errada e não se tratava apenas de sintonia fina, mas de programação mesmo.

O ônibus é espaçoso, grande, bonito, confortável, com ar condicionado, bancos estofados, espaço para gordo circular sem maior problema, catraca larga, motorista engravatado...

Mas até aqui há alguma coisa que impede o florescimento integral do socialismo que inicialmente vislumbrei, com satisfação.

Infelizmente, só uns poucos, que entram primeiro, têm o privilégio de viajar sentados. A maioria ainda tem que ficar de pé, se espremendo, se empurrando, sofrendo e lutando por um espaço, comprometendo a coluna, porque a linha é mal servida...

Mas isto – devem pensar os administradores – é apenas um detalhe.




Publicado originalmente no blog JUS SPERNIANDI,
em
02/03/2005.
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17/04/2008

HOMENAGEM A MIM MESMO

Demorei um tempão para te conquistar. Foram tantas coisas que disse, foi tanto cortejo que quando tu vieste – talvez fosse melhor dizer caíste? – nem acreditei. Fiquei surpreso, embora não devesse. Senti-me leve e tive vontade de voar.

Mas seria ridículo. O que pensariam de mim os que me vissem borboleteando próximo ao rio Itajaí, numa pracinha que não existia ainda, só de contentamento? Sempre fui muito suscetível ao riso dos outros.

Depois, eu tivera, um pouco antes uma triste experiência, lembra? De certa forma, talvez meu Inconsciente estava prevendo que aquele dia seria o dia do “sim”.

Por isto antes, quando debaixo de chuva descíamos a escada do Artesanato eu tentei voar. Sim, eu tentei voar e o resultado foi desastroso: ao levantar uma perna para alçar vôo a outra escorregou, perdi o equilíbrio e desci quatorze degraus de bunda. Tuc, tuc, tuc, tuc, tuc, até embaixo.

Ainda bem que tu seguravas o guarda-chuva e não te molhaste. Eu estava de capa, uma daquelas de náilon que depois de um tempo esquentavam demais e fediam porque não deixavam a gente transpirar, embora tivessem uma providencial abertura nos sovacos. Graças a ela não pudeste ver que, na minha arremetida escada abaixo, molhei a bunda.

Então, quando tu deste o teu “sim”, pouco depois, já na frente daquela vitrine fechada, eu estava com a bunda molhada. Mas já te falei isto antes, acredito que, como é meu costume, muitas vezes, pois afinal se passaram 39 anos, cinco meses e vinte e nove dias ...

Depois cheguei a imaginar se aquela caída de bunda não te fez ficar condoída e influenciou positivamente no teu “sim”. Podes ter certeza, eu cairia mais umas duzentas vezes, se fosse preciso.

Depois foi surpresa atrás de surpresa. Como tu eras diferente das outras gurias com quem eu namoriscara. Tu eras – aliás, sempre foste – imune a fofocas, a futilidades, a conversas alheias. Por isto, na sala de aula, ninguém se aproximava muito de ti. Tu parecias uma muralha intransponível ou, pelo menos, difícil. Mas não. Tu tinhas carinhos guardados, risadas escondidas que se foram revelando e me envolvendo e até hoje sou inebriado por elas. E aquela irrepreensível malícia por detrás dos olhos pretos e sempre acesos.

E os outros, mais tarde, como te qualificaram com palavras bonitas. Minha avó dizia que eras santa, mas ela já estava meio caduca e isto não vale. Não sei se ela ironizava ou dizia a verdade nem ninguém nunca vai saber.

Uma colega, depois, disse que tu eras muito meiga. É verdade. Outra te qualificou de esposa-padrão... Mais recentemente alguém afirmou que tu és uma criatura doce, como as trufas da Cirônia. Tu, particularmente, nunca gostaste que te vissem assim. Eu sempre gostei, não muito desse esposa-padrão, aí, que pode significar muita coisa, inclusive e graças a Deus, o oposto do que és.

Claro, eu seria mentiroso se não dissesse que de vez em quando tu deste as tuas rabanadas, durante esse tempo todo. Mas foram daquelas rabanadas de Natal que sempre guardavam um quê de doçura. Pensando bem, algumas não foram tão doces assim!

Tu nunca foste convencida ou esnobe. Sempre foste os pés no chão da nossa relação e, depois, da família. Hoje não se comemora nenhuma efeméride na nossa vida. Por isto sei que não estás considerando estas palavras como dirigidas a ti. Até porque já pediste para não falar mais de ti aqui no blog, para que eu não pareça brega.

Então, essas palavras são para mim, apenas. Sou meio brega mesmo. E, afinal, quem caiu da escada e molhou a bunda só para te conquistar? Então mereço esta homenagem que me faço.

Porque, podes acreditar, guria: é muito bom ser eu!

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12/04/2008

Interpretando a Lei

Num dos últimos textos brinquei sobre a jurisprudência como repositório de julgados em que o advogado poderá buscar apoio em favor da tese que abraçar num processo, mesmo que em outro tivesse que usar de tese contrária, também respaldada na jurisprudência. Disse então que a interpretação gramatical da lei é a pior de todas

As multas aplicadas por pardais e caetanos muitas vezes pegam os condutores que apenas momentaneamente estão infringindo uma regra de trânsito, sem perigo nenhum à incolumidade pública.

Eu, por exemplo, sofri uma multa em julho de 2001 porque trafegava a 48 km por hora na frente de um colégio. Acontece que era sábado à tarde, no período de férias, não havia ninguém no colégio e eu ia sozinho por uma rua pouco movimentada... Mesmo assim, contra os princípios da lógica e do bom senso, o pardal estava funcionando para flagrar motoristas distraídos que hipoteticamente poderiam atropelar alunos de uma escola em férias num sábado à tarde.

Os pardais foram introduzidos em Porto Alegre pelo PT. Entende-se: a maioria de seus membros sofreu perseguições na época da Ditadura e não tem muita simpatia por militares. Por isto substituíram a polícia militar que atuava no trânsito por pardais, lombadas, estreitamento de pistas, rótulas mal feitas e outras armadilhas. Eu, por via das dúvidas, cada vez que passo por um pardal ou por uma lombada eletrônica bato uma reverente continência. Nunca se sabe.

Em Porto Alegre a administração popular criou também um exército de agentes municipais de trânsito, chamados de azuizinhos pela cor do uniforme que usam. São encarregados de, num acidente de trânsito sem vítima, fazer levantamentos técnicos e atrapalhar o tráfego no local. Já vi acidentes com 4 ou 5 azuizinhos borboleteando em volta dos veículos sinistrados como baratas tontas, nenhum se dignando a orientar o trânsito daqueles não envolvidos e cuja pretensão era simplesmente chegar em casa.

Mas no fundo, pardais e policiais militares (aqui eles são chamados de brigadianos) interpretam a lei mecanicamente, ou eletronicamente, de modo que não adianta discutir. Quando fui multado por aquele pardal logo percebi, parei o carro e tentei argumentar com ele, mas ele permaneceu impassível. Dono absoluto da verdade, olhando de cima prá baixo, fez de que conta que não me ouvia.

Fui embora quando começou a juntar gente e ouvi alguém dizer que ia chamar uma ambulância do Hospital São Pedro (o manicômio daqui). Acho que era para o pardal, mas não quis ficar para comprovar.

Os brigadianos faziam o mesmo. Há muito tempo, há muito tempo mesmo, quando ainda havia brigadianos nas ruas, num domingo, fomos almoçar no centro e estacionei o carro, sabiamente orientado por um flanelinha, num ponto de ônibus executivo. Esses microônibus não circulam nos finais de semana e o meu carro, ali, não atrapalharia nada nem ninguém.

Quando saí do restaurante um brigadiano estava aplicando uma multa. Expliquei a situação, mas ele apontava a placa que indicava a parada dos ônibus especiais e indagava:

– O senhor está vendo a placa aí? Aqui é um ponto-de-ônibus e é proibido estacionar.

Não adiantou argumentar. Apelei para o bom senso, para a ausência de prejuízo de minha atitude (estava até facilitando o acesso de outros veículos à praça), mas cada vez que eu terminava minha pregação ele apontava a placa e dizia:

– O senhor está vendo a placa aí? Aqui é um ponto-de-ônibus e é proibido estacionar.

Esta é a interpretação brigadiana. O bom senso, o lógico, o óbvio sucumbem diante de um símbolo pintado numa placa. É como você ser multado por ter estacionado defronte à própria garagem e tentar explicar isto ao guarda... O flanelinha foi mais sábio. Bem que o procurei para me auxiliar a convencer o guarda, mas ele, demonstrando toda sua sabedoria, tinha se afastado solertemente do local.

Não insisti com o guarda: uma discussão acadêmica seria inútil. Além disto, na sua bitolada visão, ele estava certo. Eu era o errado por acreditar na lógica e no bom senso.

Por isto todos devem ser complacentes com os juízes e não baixarem a lenha quando dizem que a água é vinho e que vinho é água. Eles também fazem milagres interpretativos.



Texto publicado originalmente no blog JUS SPERNIANDI,
em 14/03/2005,
sob o título A INTERPRETAÇÃO BRIGADIANA (OU GRAMATICAL) DA LEI.
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