12/07/2008

TAMBÉM QUERO MENSALÃO

Ouvi, hoje, que no Rio de Janeiro, uma universitária recebeu indenização por dano moral por ter sido chamada de “gorda” por um professor de Direito.

Ela saiu da sala, deixou o gravador ligado, e ao voltar percebeu que riam dela. Depois ouviu na gravação que o professor comentou que o gravador representava a inteligência artificial usada para o estudo, enquanto a dona saia da sala para ir à cantina comer alguma coisa e engordar.

Não achei tão ofensivo assim. Foi um comentário infeliz, talvez. Mas atualmente tudo é motivo para exigir reparação a esse título. A cartilha do Nilmário Miranda sobre o politicamente correto foi adotada oficiosamente. Li, até, que os deputados do PL vão entrar com uma ação de indenização por danos imorais, digo, morais, contra o deputado Roberto Jefferson, que os acusou de participar do esquema mensalão.

Aliás, Roberto Jefferson já foi gordo, lembram? Fez uma cirurgia de redução do estômago e emagreceu 60 quilos. Foi seu maior erro. Os gordos são geralmente confiáveis e até por injunção física não podem se dedicar a certas atividades facinorosas com a mesma desenvoltura de um magro.

Nunca julguei um ladrão gordo que tivesse praticado um furto mediante escalada – por exemplo – e os batedores de carteira geralmente também são magros: precisam de preparo físico para correr caso sejam flagrados.

Aliás, condenei um gordinho, certa vez. Ele tentou arrancar a bolsa de uma mulher, que reagiu com a eficiência de toda mulher, isto é, aos gritos, assustando-o. Ele correu e ao atravessar a rua foi pego por um veículo que por acaso era de um Delegado da Polícia Federal... Além de gordo, azarado. O dano maior foi no capô do carro.

Eu sempre fui gordo, desde a infância, e além de gordo, ruivo e sardento. Em resumo, feio! Essas características motivavam gozações de colegas, algumas humilhantes. Se fosse cobrar pelos constrangimentos sofridos estaria riquíssimo.

Certa ocasião voltava da aula, assobiando, e na minha frente iam dois empregados da oficina mecânica de meu pai. Ouvi um dizer alto, após me ver:

– Hoje vai chover. Tem bugio assobiando. E quando bugio assobia na serra é sinal de chuva. Se o bugio é gordo, é trovoada na certa!

Para quem não sabe, bugio é um símio de pêlo avermelhado e aquela observação doeu fundo.

Noutra, ainda, eu tinha vestido calção para jogar futebol e o tio de um colega observou:

– Puta que o pariu! Olha só as pernas desse animal!

Eu era gordo do tipo pícnico e minhas pernas eram muito grossas. Envergonhado, corri para casa e nunca mais usei calção. Desisti do futebol, eu que tinha planos de me profissionalizar. Poderia ter jogado tranqüilamente até à Copa de 1982 e não deixaria o Paulo Rossi fazer o que fez com nossa seleção. O Brasil perdeu um grande jogador. Bem feito!

A obesidade é um problema mais de ordem psicológica do que física na infância e na adolescência. Na universidade eu havia superado esses traumas. Mas nem todos conseguem. Ontem, ainda, o presidente Lula, ao receber o Ronaldinho, usando da sensibilidade paquidérmica que lhe é peculiar, comentou que o atleta está mais gordo que ele... Mais tarde, pronunciando-se a respeito da corrupção galopante no governo, que eclodiu com as denúncias do ex-gordo Roberto Jefferson, disse que, se for preciso, na apuração das irregularidades, “cortará na própria carne”.

Não é preciso, presidente! Um bom programa de reeducação é suficiente para enxugar adiposidades maléficas. Estou falando de reeducação alimentar para emagrecer. Eu emagreci 21 quilos!



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 08/06/2005.
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05/07/2008

MENSAGEM AO TÚLIO

Há muito tempo prometi uma mensagem para o Túlio, que era freqüentador mais ou menos assíduo do blog. Deixou comentários. Nunca mais se manifestou. Em todos os casos, aqui vai:

Caro Túlio. Meus dois filhos são mais velhos que você. Por isto vou apenas lhe repassar algumas das orientações que passei a eles. É claro que eles fizeram exatamente o contrário daquilo que ensinei. Mesmo assim, talvez até por isto, estão se dando bem, estão bem encaminhados dentro daquilo a que se propuseram e ressalvadas as fases de vida de cada um.

Não acredite naqueles que, com ar professoral, lhe ensinam verdades padrões e definitivas. Por qualquer meio: acadêmico, livros e até por blogues. Procure a sua própria verdade e siga a vida desconfiando de dogmas. Desde o início da vida do homem estamos vindo aos trancos e barrancos e ao sabor do acaso, por mais planejado que seja. Apenas o aperfeiçoamento das coisas é mais ou menos consciente.

Desconfie de quem propaga a própria humildade. Quando alguém inicia um discurso dizendo É com humildade que reconheço... a humildade já foi estropiada. Dizer-se humilde é a mais evidente prova de soberba.

Não creia quando alguém diz: “Fulano é muito inteligente”. Primeiro, porque ainda não se encontrou um meio eficaz de medir a inteligência. Aliás, há dúvidas sérias inclusive quanto àquilo que poderia integrar seu conceito. Depois, é prepotência alguém ser capaz de julgar alguém muito inteligente. Importaria que o julgador fosse mais inteligente do aquele a quem está julgando: só quem é mais inteligente pode julgar a inteligência dos outros.

Nunca busque a felicidade. Primeiro, porque aquele que busca a felicidade é confessadamente infeliz. Ninguém busca o que já tem. A felicidade que os infelizes procuram é utopia. Nossa vida é feita de acontecimentos alegres e de momentos tristes e nem sempre somos capazes de lembrar apenas as coisas boas e esquecer as ruins, como deveria ser, para nosso próprio bem. Aproveite com intensidade os momentos de paz e serenidade que se intercalam entre os momentos tristes de nossa vida, mas que, no final de tudo, é o que conta se não nos esquecemos deles.

Nada na vida é sério. Leve-a com bom humor e sem inquietações. Namorar, casar, ter filhos, tudo isto no início fazia parte da vida como fatos normais e lúdicos. Os homens é que vestiram essas coisas com muita seriedade. Às vezes acho que o amor, nos termos em que existe hoje, foi uma invenção de laboratório. Amor é uma coisa bem menos complicada.

Não espere respostas padronizadas da vida. Não há um código que possamos seguir para viver porque ela é essencialmente dinâmica e ninguém é igual ou semelhante a ninguém. Não é possível codificar a diversidade comportamental. Cada pessoa é uma individualidade própria e auto-suficiente.

Lembre sempre que não existe um período só da História que sirva de exemplo. Toda ela é recheada de horrores e perseguições, de lições nada edificantes de como viver e sobreviver explorando e subjugando o próximo. Talvez, embora longe do ideal, este seja o melhor momento da História da humanidade. Mesmo que não seja, é bom, para nosso bem, que acreditemos que seja. Afinal, precisamos cultivar com serenidade essa bendita teimosia que faz que com que a raça humana sobreviva e não esteja em extinção. Ainda.

Finalmente, leia poesia. Ela agrada ao espírito e os poetas quase sempre dizem coisas mais importantes que os cientistas. Guilherme de Almeida, o príncipe dos poetas brasileiros, terminou um poema dizendo: Caminha e esquece.

Faça isto. Inclusive – e principalmente – em relação ao que foi escrito aqui.

Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi, em 27/05/1005.

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28/06/2008

SOBRE GENTE E BICHOS

A tristeza e a depressão devem ser coisas que se acentuam, e muito, com a idade. Não sei se a experiência tem alguma coisa a ver com isto ou se é a sensação inafastável de, para quem já viveu, como eu, 53 anos, não há possibilidade de viver outro tanto. Coisas que antes não produziriam qualquer efeito no ânimo, agora parecem ter o poder de entristecer e desanimar. A suscetibilidade é alterada.

O jornal Zero Hora de 05/05/2005 traz exata meia página sobre o indiciamento dos jovens que teriam matado a cadela Preta, em Pelotas. No dia 06, mais 2/5 de página sobre o mesmo assunto (pág. 51) e exata meia página sobre outra cadela furtada na Serra Gaúcha. Já sobre o caso da moça de Bragança Paulista que teve a mão direita amputada e perdeu a visão de um olho com a explosão de uma carta-bomba enviada pelo namorado, apenas uma pequena coluna, menos de 1/10 de página, no dia 05.

Escrevi sobre cadela Preta e creio até que fui um dos primeiros a fazê-lo. Mas o meu blog não é muito lido e a repercussão maior veio após, através de outros mais famosos e pela imprensa. Nem creio que inspirados no meu texto. Depois tentei prever as penas aplicáveis aos réus em caso de condenação. Não defendi nem acusei e tampouco desejei pena superior à prevista em lei.

Não há duvida que o crime é odioso, mas há outros mais graves sendo praticados todos os dias e todas as noites por esse Brasil afora e ninguém quer se dar conta disto. Enquanto isto não acontecer com alguém da minha família, que se danem os outros.

Essa inversão de valores anuncia a capacidade de se emocionar mais com os animais do que com gente. A comoção é mais acentuada quando o crime é praticado contra um bicho do que, como no caso de Bragança, contra uma moça.

Não se fale que uns são indefesos e outros não. Qual a defesa da moça de Bragança diante de uma carta recebida pelo correio? Nenhuma. Então, o crime de Bragança é infinitamente mais grave que o crime de Pelotas.

Afinal, este vitimou um cachorro, um animal irracional que vivia na rua e depois foi adotado por Pelotas e por todo o Brasil. Muito mais crimes se cometem contra meninos e meninas de rua, a maioria não é descoberta, nem todos repercutem. Quando a vítima é criança sempre há conseqüências que se projetam pela vida afora, às vezes criando mais revolta, mais dor, mais mágoa e mais crimes.

Há até uma emotiva petição que circula na Internet, que não assinei, e que deverá ser enviada ao juiz, de escasso valor jurídico; mas não vi nenhum movimento em prol da moça de Bragança.

Li comentários em outros blogues de que os matadores da cadela mereceriam nada mais nada menos que a pena de morte. Isto é desanimador. Como vou confiar no sentimento de quem, para um animal, defende carinho, proteção e amparo, e para um ser humano ainda que criminoso, a pena de morte? Há alguma contradição mal explicada nesse modo de ver as coisas.

O ser humano não é o que parece. A Lizandra (que então matinha o blog Alma Castelhana) já levantou a questão, citando Hobbes: homo homini lupus (o homem é o lobo do homem).

Aquele que acaricia um animal pode ser o mesmo que esbofeteia um filho, que massacra os pais ou maltrata o cônjuge. E se fôssemos aplicar a pena de morte a quem amarra uma cadela num pára-choque e a arrasta até a morte, qual pena aplicaríamos a quem fizesse o mesmo com um ser humano?

Não estou pregando o desprezo aos animais. Quem tem afeto por seus bichinhos de estimação deve continuar a tê-lo e eu nem seria a pessoa adequada a emitir conceito contrário. Mas, por favor, não esqueçam dos semelhantes, mesmo que eles não mereçam.

Está em cartaz, em todo o Brasil, o filme A Queda, sobre os últimos dias de Hitler. Pelo que li, o diretor procurou ser o mais fiel possível à sua biografia e isto foi elogiado na última Veja pelo imortal Moacir Scliar, que tem ascendência judaica.

Os biógrafos de Hitler dizem que ele gostava de crianças e tinha afeto especial por uma cadela. Mas fez o que fez.



Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 11/05/2005.
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07/06/2008

ELES, OS JUÍZES,

VISTOS POR UM DESEMBARGADOR APOSENTADO

Já citei aqui a obra de Calamandrei, “Eles, os Juízes, Vistos por Nós, os Advogados”, uma pequena obra-prima conhecida de todos os que lidam com o direito. Hoje, sem a pretensão e erudição do grande mestre, vou dar também o meu pitaco e falar sobre juízes. Até o título é uma paródia.

A maioria dos juízes é pedante. O conceito de a autoridade subiu-lhe à cabeça aplica-se a quase todos. Gostam de desferir carteiraços, principalmente em público, quando há bastante testemunhas de sua demonstração de autoridade altaneira.

A maioria é empertigada. Os juízes geralmente gostam de chamar à atenção. Não estou referindo o chamar a atenção com modos e gestos, embora alguns cultuem exatamente essa especialidade. Mas a maioria chama à atenção verbalmente daqueles que, em determinadas circunstâncias, estão sob sua autoridade no desenvolvimento de um processo que em princípio vai acabar com a vitória de uma das partes. Então repreendem, até com deselegância e má educação, quem eles pensam apenas que estejam tomando alguma atitude que possa comprometer sua autoridade.

O pior, entretanto, é a crença de que são oniscientes. Eles estão sempre certos. Seus julgamentos estão sempre corretos. Sempre têm razão. Ninguém que cruze no caminho deles pode contestar, ao menos em sua presença e no momento em que acontece, admoestação ou penalização que aplicam.

Muitos fazem questão de alardear essa onisciência. Apreciam explicar, esmiuçadamente, tudo aquilo que se refere ao seu trabalho. Gostam de fazer prolegômenos, de advertir de que se acontecer isto eu farei aquilo e se acontecer aquilo eu farei isto. Muitos metem o dedo na cara do freguês e o advertem preventivamente como se ele estivesse pronto a praticar um crime que até então não passou de mera conjectura.

Os juizes são, na maioria das vezes, muito explicativos. Truncam os atos, paralisam-nos para dar esclarecimentos, para cobrar atitudes, para tentar ensinar aos outros como é que se trabalha, esquecendo-se de que cada um tem seu próprio modo de trabalhar.

A maioria, também, vamos reconhecer, conhece claramente as regras do ofício. Mas até por isto, e em função disto, eles pecam: se preocupam com detalhes insignificantes e os elevam à categoria de fatos principais, tomando atitudes punitivas quando não precisariam tomá-las e admoestando quando desnecessário.

Esse excesso de conhecimento, aliado ao excesso de confiança, às vezes faz com que errem e transmitam a impressão de que o erro foi proposital. Mas na maioria das vezes, vamos reconhecer novamente, trata-se apenas de equívoco. Só que o equívoco de um juiz é difícil de reparar. Aquilo que um juiz decide está decidido. Aquilo que ele fala está falado. Aquilo que escreve, está escrito. Ninguém pode, no momento em que ele profere sua decisão, modificá-la. Um juiz não volta atrás mesmo que alguém o convença de que outra solução é mais adequada e, mais do que isto, a correta para aquela situação.

Eles não admitem críticas, não reconhecem quando a água é vinho e quando o vinho é água. Simplesmente decidem, sobem em suas tamancas e ai do mortal que reclamar. Não calçam as sandálias da humildade; pairam acima dessas coisas mundanas. Eles são superiores e por isto muito vezes são injustos e odiados.

Se não fosse essa imponência toda, se não fosse esse empertigamento, essa soberba, essa mania de truncar, de parar, de advertir, de ver infração onde infração não há, de não observar o tempo regulamentar, de a toda estar paralisando o jogo para advertir os jogadores, o Corinthians não teria sido eliminado da Copa do Brasil pelo Figueirense e muito menos o Internacional, com um gol de pênalti que não foi considerado gol, pelo Paulista de Jundiaí.

Depois ainda reclamam quando a gente xinga a mãe deles.




Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi, em 09/05/2005.
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23/05/2008

E O PALHAÇO, QUEM É?


Chegamos sexta-feira em Florianópolis demorando, de Porto Alegre até aqui, mais de 45 dias. Não só de viagem, mas considerando a programação. Faz tempo que queríamos vir mas sempre alguma coisa atrapalhava. O penúltimo empecilho foi o presidente Lula que mandou a gente tirar o traseiro da cadeira e procurar juros mais baratos. Não sei o que fiz, mas tive que exibir meu traseiro, naquele dia, a um proctologista. Mas isto já é assunto ultrapassado.

O último foi a Átria Fibrilini que, para quem não sabe, é minha fibrilação atrial paroxística que considero minha indesejável mas atrevida amante. Chegou, como sempre, de madrugada, foi bem servida com um coquetel (de medicamentos), mas às 17,00 horas de quinta resolveu ir a procura de outro. Essa minha amante é muito volúvel e caprichosa.

Sexta-feira finalmente saímos, eu ainda um tanto cansado e depauperado. A Fibrilini é muito exigente. Ela sorve minhas forças e por uns três dias eu não consigo recuperar a normalidade do meu mau humor. Fico pior ainda do que normalmente. Mas tudo bem. Uma viagem seguida de novos ares tem o poder de renovar energias e vamos ficar uns dias borboleteando por aqui, visitando amigos e parentes, e isto quase sempre é bom.

Se eu fosse bem normal poderia ter saído de Porto Alegre mais feliz. Ou pelo menos, mais alegre: na saída, numa das muitas sinaleiras (ou farol, ou semáforo) eu parei na primeira fila.

As sinaleiras de Porto Alegre são quase todas minhas inimigas. Quando percebem que eu me aproximo elas acendem a luz amarela e em seguida, mais rápido do que comumente, a vermelha. São sádicas, também. Em algumas eu já chego com elas fechadas, paro o carro, e no mesmo instante elas abrem. Fazem de propósito. Se abrissem três segundos antes eu poderia passar sem ter de parar completamente. Mas não. Comigo elas se comportam como se fossem verdadeiros seres humanos.

Ser o primeiro da fila é algo absolutamente incomum na minha vida de motorista. Só mesmo nas sinaleiras. No trânsito normal sou sempre o último. Não adianta escolher, a pista em que trafego é sempre a mais lenta. Enquanto vejo alguns costurando e se adiantando, a minha costura me leva sempre ao último lugar. Olho no retrovisor e não vejo ninguém. Até as carrocinhas me ultrapassam no trânsito urbano de Porto Alegre. Não estou falando das tracionadas por cavalos, mas daquelas puxadas a muque mesmo, por nossos irmãos brasileiros que vivem de recolher os restos do lixo e deles extraem meios de sobreviver.

Bem, eu era o primeirão da fila na sinaleira quando um palhaço, esmeradamente fantasiado, postou-se à frente do carro e começou a fazer evoluções que ele naturalmente queria que eu achasse engraçadas. Mas não consegui achar graça. Permaneci quieto, semblante fechado o tempo todo, mal humorado e grosseiro. Essas coisas me entristecem. Não posso ver alegria nos gestos de quem se obriga a macaquear na frente de um carro para ganhar um troquinho. Não ri nem sorri. Nem quando ele fez aquilo que, em outras circunstâncias, eu poderia até achar engraçado: deixou cair uma bola que usava para executar seu malabarismo mal ensaiado e teve que correr para pegá-la.

O sinal abriu e eu arranquei. Percebi que a Ieda, mais simpática e condescendente, acenou para ele. Mas não foi possível dar um troquinho. O pior é que não tive ânimo nem de lhe dar um sorriso e talvez isto, naquele momento, lhe fosse até mais importante que um dinheirinho.

Acho que não existe nada mais frustrante para um palhaço do que o mau humor da platéia. Eu fui uma platéia assim, sexta-feira, quando saímos de Porto Alegre.

Por isto, se algum dos meus leitores quiser comentar este texto, por favor, fique à vontade. Aceito comentários mal humorados e grosseiros como eu fui. Não vou censurar nenhum (aliás, nunca fiz isto).

Desnecessário dizer, mas nem precisam se preocupar com um troquinho!



Publicada originalmente no blog JUS SPERNIANDI,
em 15/05/2005.
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22/05/2008

CONHECI UM POETA

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Domingo passado eu conheci um poeta. É a primeira vez que ouso dizer isto. É a primeira vez que ouso dizer que conheço um poeta porque conheço alguns que se dizem poetas, mas não são.

Dizer que ele respira poesia é cair em indesculpável lugar comum. Mas é verdade. Então devo acrescentar que ele respira poesia juntamente com a fumaça dos cigarros que fuma quase sem intervalos.

Tem suas idiossincrasias. Não gasta um tostão para publicar seus livros.


Publicou três – Poemas sem Dono, Caminhos de Não Chegar e Juntando Pegadas –, porque com eles obteve o 1.º lugar em concursos em que o primeiro prêmio era exatamente a publicação.

Afora isto, tem muitas poesias esparsas por esse Brasil afora, em coletâneas e seleções

O primeiro livro – Poesia sem Dono – foi inscrito em concurso por iniciativa de seus filhos. Ele, por si, não se importava com isto. Tem mais de seiscentas poesias escritas e um livro só de sonetos – essa armadilha tormentosa e formalmente restritiva e que desafia a criatividade de todo o poeta – que aguarda um concurso exclusivo para que ele possa inscrevê-lo, obter o primeiro lugar e publicá-lo.

Honestamente, o poeta que conheci não tem jeito de poeta. Ele não tem nada daquela assepsia quase caricatural de um Drummond ou da feição mortiça de um Manuel Bandeira ou da ingenuidade passeriforme do nosso Mário Quintana. Enfim, o que ele efetivamente é está nos seus livros.

Detestei a poesia dele. Isto não diminui sua qualificação tampouco o valor de seus poemas. Definitivamente, não suporto alguém que tenha menos jeito de poeta do que eu – ainda que só eu o ache – seja também um poeta superior, infinitamente superior, mesmo que os meus belíssimos poemas estejam guardados a sete chaves nos refolhos de minha alma e de lá, agora, dificilmente sairão.

Por isto detestei a poesia dele. Não sinto capacidade de escrever o que ele escreve e como escreve. Ele tem o árduo poder de unir quantidade e qualidade. Eu não tenho poder nenhum e agora ele está ainda menor.

Estou falando de Alberto Lisboa Cohen, um paraense que está mudando para Porto Alegre. Querem saber mais dele? Perguntem prá Tânia, do Plátanos. Mas guardem esse nome, vocês que gostam de poesia. Ele ainda brilhará, e acho que não vai demorar, na parca constelação dos poetas brasileiros, da qual me desincluo com o rabo entre as pernas.

Abaixo duas poesias dele. Uma – Navegar é Preciso – tem algum liame, ainda que tênue, com os objetivos deste blog que existe exatamente porque navegar é preciso.

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NAVEGAR É PRECISO

(Alberto Cohen)


Quebrou aquelas correntes
como se fosse um veleiro
liberto de antigo cais,
que finalmente encontrasse
a paz do retorno ao mar,
na emoção do navegante
com o mundo a navegar.
Serpentes, monstros marinhos,
seres por desencantar,
o vento como parceiro
no encalço do luar,
sem previsão, sem destino,
amarras desatreladas,
tantas novas madrugadas,
quantos sonhos por sonhar,
na missioneira aventura
de persistir na procura,
jamais no mesmo lugar.



Alberto Cohen
Poemas sem Dono
II Prêmio Literário Livraria Asabeça - 2003
página 46.
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INVENTÁRIO

(Alberto Cohen)

No fim, restarão os poemas,
singelos, desajeitados,
corcundas, adjetivados,
meros filhos naturais.
No fim, quem sabe, um menino
recolherá os fragmentos
de ilusões e sentimentos
profundos ou casuais.
No fim, talvez, serão lidos
como anônima poesia,
sem dono, nem autoria,
pecados originais.


Alberto Cohen
Poemas sem Dono
II Prêmio Literário Livraria Asabeça - 2003,
página 41.
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17/05/2008

NOSTRADAMUS SOU EU!

Dia 13 de fevereiro, quando fomos ao aeroporto buscar minha filha e meu genro, senti-me reentrando no espírito natalino. Pessoas – principalmente mulheres – desembarcavam com pacotes coloridos e cheguei a pensar, comovido, em como é generoso o brasileiro: gente que só então podia vir visitar parentes não se esquecia de, na bagagem, incluir presentes e mimos para amigos, irmãos, sobrinhos, pais, avós...

Eu já estava recuperando minha fé na humanidade, comentei o fato com a Ieda e então ela observou:

– É! Mas podes ver que os pacotes não são pacotes de presente. São sacos de lixo, daqueles pretos. O que essas mulheres estão trazendo são fantasias. Elas devem ter participado dos desfiles das escolas de samba do Rio.

Passei a prestar mais atenção. Fiquei com vergonha de minha ingenuidade. Confundir sacos de lixo com pacotes de presente? É que eu pensei que o colorido que transbordava dos sacolões fossem embrulhos de presente neles acondicionados para proteção.

Uma das mulheres ostentava ainda a faixa de “campeã” orgulhosamente sobre o silicone frontal. Era muito feia, um verdadeiro “S” invertido. Está certo que os peitos são normalmente virados para frente e a bunda para trás, mas naquela os seios eram ao mesmo tempo tão para frente e as nádegas tão para trás que eu duvidei que conseguisse manter equilíbrio até a saída do aeroporto. Conseguiu. Mas se não tivesse o carrinho porta-bagagem para se apoiar...

Senti um certo temor. E se Darwin estiver certo na sua teoria da evolução? Em sua necessidade de adaptação ao ambiente seres foram criando apêndices, barbatanas foram se transformando em pernas ou asas e as formas iniciais mais perfeitas foram involuindo até chegar às formas imperfeitas e primitivas das quais os homens são os melhores representantes hoje.

O Fantástico, no ano passado, apresentou uma série pseudocientífica sobre formas que existirão daqui a cinco mil anos: cobras aladas, peixes com piercings, dinossauros anões e insetos gigantes. Como a faculdade de prever é uma das poucas coisas que ainda não é exclusividade da Rede Globo, faço minha previsão também.

O crescimento gradativo das bundas, resultado de exercícios físicos dirigidos a essa finalidade, e as implantações de silicone nos peitos vão forçar o surgimento de algum apêndice extra de apoio em algumas mulheres. Mas como o esse culto não é observado por todas, apenas por dançarinas de tcham, por essas que desfilam nas escolas de samba e algumas outras, uma nova espécie de mulher vai existir daqui a cinco mil anos.

Essa nova espécie terá quatro pernas, pois duas serão insuficientes para apoiar tanta massa nadegal. Uma parcela da humanidade vai andar de quatro novamente! Na minha visão elas andarão de pé e como a bunda faz contrapeso para os peitos os novos apêndices cresceriam apenas na parte traseira, como ponto de apoio para as nádegas. Talvez até rodinhas, uma espécie de porta-bagagem natural...

A mitologia se tornaria realidade. Seria uma forma de comprovação de que os centauros existiram. Nada mirabolante, mas contei isto a um amigo e ele ficou sexualmente interessado.

Então a gente combina que daqui a cinco mil anos, quando nos reunirmos para ver se as previsões da Globo se realizaram, conversaremos em mesas redondas com cadeiras especiais para ver esse novo tipo de mulher. E conferir se minhas previsões também se concretizaram.

Se eu acho isto uma involução? Não. Apenas uma volta às origens primitivas perfeitas. Talvez o homem nunca devesse ter se erguido nas patas traseiras mesmo.



Publicado inicialmente no blog JUS SPERNIANDI,
em 07/04/2005.
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10/05/2008

EU COLO SABONETES...

Há certas expressões curtas que exprimem conceitos extensos e profundos.

Aqui no RS se usa muito o “louco de atar”. “Aquele juiz é louco de atar” significa que, para manter uma conduta compatível, profissional ou particular, precisa ser amarrado. Senão sai por aí fazendo besteiras. Por incrível que pareça, é muito usada no exemplo dado, principalmente por colegas.

Os mecânicos da oficina do meu pai tinham um bastante expressivo, que utilizava também o vocábulo “amarrado”, mas não vou repetir aqui porque é chulo e este é um blog de respeito.

Há uma dessas expressões que nunca tinha ouvido. Eu passeava pelo shopping e em sentido contrário caminhavam duas moças conversando. Ouvi quando uma delas terminava um comentário sobre alguém com a expressão “o cara é de colar sabonete”.

Uma espada de gelo perpassou-me a espinha (ui!). Instintivamente fitei-as e com tanta expressividade que uma delas riu. Certamente pensou: “esse é um, se traiu!”. Elas passaram e esperei uma gargalhada estrondosa, que retumbaria pelo shopping inteiro, produziria ecos aterradores, quebraria os vidros do teto projetando estilhaços pelo espaço e talvez até atingisse algum avião que sobrevoasse a região. Num lampejo, tive tempo de pensar: “Ainda bem que o Aerolula está na África”.

Não houve a gargalhada, é claro, mas não ousei olhar para trás para ver se elas pelo menos cochicharam a respeito de sua descoberta. Faltou-me coragem...

Sim, eu dou daqueles que cola sabonete. Não descobri o adjetivo que a moça usou. Não ouvi e não sei se elas estavam se referindo a um “chato” ou a um “pão-duro”, mas a verdade é que colo sabonetes.

Quando um está quase no fim e pego um novo, molho a ambos e colo o resto do antigo sobre o novo.

Não sei se é pão-durismo. Acho que não! É que sinto pena da perspectiva da sobra de um sabonete que me serviu durante algum tempo ser sugada pelo esgoto do chuveiro e se perca na fossa suja ou numa caixa de gordura sem cumprir a função para a qual veio ao mundo. Coisas inanimadas também merecem piedade.

Não é uma tarefa fácil. Às vezes é até difícil. É que não uso sempre a mesma marca. Uso de critérios específicos e particulares para escolher o meu sabonete. Geralmente escolho o mais barato, o que está em promoção. Como as promoções mudam muito, mudo também de sabonete, e às vezes as diferenças entre os ingredientes que os compõem impedem uma aderência perfeita.

Nunca tente, por exemplo, colar um composto de glicerina com um daqueles cremosos e nutrientes da pele. Não dá liga.

Às vezes tenho que ficar comprimindo as bordas do menor sobre corpo do maior para que a soldagem seja perfeita. Não gosto de estar tomando banho e sentir as partes se soltarem.

Andei fazendo cálculos e acho que durante toda a minha vida, só com esse sistema de colagem, consegui economizar uns trinta sabonetes!

Mas estou atravessando uma crise. Preciso de qualquer jeito encontrar aquelas moças. Preciso saber, afinal, o que é que eu sou, ou o que é que elas acham que eu sou por colar sabonetes.

Devia ter perguntado na hora, mas fiquei com vergonha. Foi algo tão de supetão que a perplexidade que senti me impediu de agir. Mas sinto que parte de minha identidade se perdeu, naquele dia, no shopping.

Se alguém souber o que é alguém que “cola sabonete”, por favor me diga, de preferência explicando a origem da expressão.

Sinto-me tão inseguro!



Publicada originalmente no blog JUS SPERNIANDI,
em 14/04/2005.


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01/05/2008

A VERDADE É A VERDADE?

Uma reportagem televisiva banal provocou-me um receio profundo e de cujas conseqüências tenho considerações amedrontadoras e inquietantes.

Já consultei 39 psiquiatras e encontraram em mim um elenco grandioso de irregularidades, como defeito de fábrica, unha encravada e dermatite seborréica no que resta de minha cobertura. Menos paranóia.

No dia 14/04/2004 o jornalista Jorge Kajuru – atualmente invisível nas grandes redes – apresentou uma matéria no Esporte Total, da Band, que dá o que pensar. Não a matéria, em si, mas a possibilidade de desdobramento e de uso dos mesmos recursos em assuntos sérios e graves, com poder de influenciar decisões e justificar medidas extremas, em qualquer nível (local, nacional ou internacional e, dentro em breve, até intergaláctico).

Quem teve o privilégio de ver a Copa de 1970 não esquece um chute do Pelé que, do círculo central do campo, tentou marcar um gol na então Tchecoslováquia. A bola não entrou por pouco.

O programa apresentou uma montagem em que a bola entra. Não é possível, a olho nu, verificar que se trata de efeito, tal a perfeição do acabamento: seguindo-se a trajetória da bola, tem-se a exata impressão de que ela sai do pé do Pelé e vai se alojar, sem solução de continuidade, no interior do gol adversário.

Não se está criticando o programa ou o apresentador. Não é isto que está em jogo. Foi uma homenagem foi bem feita, inocente, e aquela bola deveria mesmo ter entrado.

Na Copa de 1966, na final entre Alemanha e Inglaterra, o english team marcou um gol que suscitou polêmica ainda em campo: a bola bateu no travessão, caiu alguns centímetros para dentro da linha de gol e, pelo efeito contrário que levava, saltou para fora. Depois, no cinema, pelo recurso da câmera lenta lateral, foi possível verificar que a bola efetivamente entrara.

Entretanto, há dois ou três anos, a discussão ressurgiu e a mesma imagem foi mostrada na tv e, surpreendentemente, percebeu-se que a bola não ultrapassou a linha de cal...

Qual a imagem real? Particularmente creio que a primeira, do cinema, pois é visual e não digital ou virtual, e de uma época em que não havia recursos tecnológicos tão aprimorados quanto os de hoje. Mas, imbuído de manobras e teses que fazem frutificar as mais absurdas teorias conspiratórias, penso que sempre haverá quem julgue correta a imagem apresentada por último. Principalmente os jovens, que não acompanharam a copa de 66 nem viram o filme.

O meu receio é o de que esse tipo de manobra possa ser aplicado de forma não inocente em outros fatos da vida humana. Numa guerra, por exemplo. Aquelas imagens da Guerra do Iraque, de aviões destruindo “cirurgicamente” alvos militares, até que ponto são verdadeiras e até que ponto podem ser montagem?

Até agora não foram achados sinais de que Sadan Hussein fabricasse armas químicas ou que dispusesse de meios para tanto. Nem será necessário o uso de técnica tão aprimorada para Mr. Bush, algum dia, apresentar ao mundo uma imagem provando o contrário. Ele tem meios técnicos eficientes de forjar uma filmagem no deserto de Mojave e dizer que foi no Iraque.

Mas o meu temor é de que a História seja alterada. Como a que estamos vivendo hoje só será contada com isenção daqui a uns 50 anos, é possível que essa isenção seja contaminada ou influenciada, que imagens forjadas sobrepujem documentos, e que nossos bisnetos, por exemplo, nunca saibam que os Estados Unidos invadiram o Iraque: este é que invadiu os EUA e a muito custo foi rechaçado e recolocado no seu devido lugar.

Na forja dos poderosos mal intencionados é possível transformar ouro em pirita. Ou o contrário.



Publicado originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 17/03/2005.
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26/04/2008

JÁ FUI RADIALISTA...

Preciso visitar o padre Guerino, Diretor das Faculdades Dom Bosco de Porto Alegre, para conversar, lembrar os velhos tempos em que ele era o Conselheiro do colégio em Rio do Sul e eu era um interno nem sempre muito disciplinado. E para saber o paradeiro de muitos ex-colegas e professores, como o clérigo Luiz, que me incutiu o gosto pela música clássica.

No Colégio Dom Bosco participei da fanfarra, tocando clarim ou corneta. Foi o único instrumento que consegui tocar até hoje. Talvez porque, sem pistões, ele só toca quatro notas.

Eu pedi a meu pai que me comprasse uma sanfona, quando era mais jovem, mas ele disse que isto era coisa de vagabundo, que eu precisava estudar para ser alguma coisa na vida, não um mecânico como ele que “dava duro dia e noite” numa vida sacrificada e penosa. Na verdade, acho que foi pretexto por falta de dinheiro. Mas o motivo não importa. Meu maior receio é o de que o mundo tenha perdido um grande virtuose...

Talvez por isto dei para meu filho quando pequeno uma sanfona e flautas doces, além de uma bateria que ele só podia tocar quando eu não estava em casa. Mais tarde, dois pianos. Quando quis estudar música o incentivei e este ano ele completa sua graduação em Piano na UFRGS.

Com 12 anos, nas férias colegiais, eu sintonizava a Rádio Eldorado, de São Paulo, em ondas curtas, todas as noites, depois de A Voz do Brasil. Aos domingos reproduziam uma ópera completa e a primeira que ouvi foi A Flauta Mágica, de Mozart .

Ruídos, chiados e som desaparecendo e voltando, tudo isto integrava o sacrifício de quem queria ouvir rádio à noite, na Taió cercada de morros em que nem antenas altas resolviam. Ondas curtas nunca foram confiáveis. Descargas mais fortes anunciavam chuvas e trovoadas e essa interferência sempre foi a nossa melhor previsão do tempo.

Meus colegas brincavam na oficina mecânica de meu pai, contígua à residência, transformando-a em uma enorme cidade do Velho Oeste. Não entendiam como eu podia ficar com o ouvido grudado no rádio, marca Bandeirante, grande e potente, dotado de um olho mágico para afinar a sintonia, o que não adiantava muito.

A oficina era enorme e tinha fortes atrativos. Estive lá depois de adulto e ela, embora apresente as mesmas dimensões, na verdade encolheu. O que naquele tempo representava obstáculos intransponíveis são hoje meros degraus. Os vãos, verdadeiros abismos profundos e amedrontadores, são frestas em que não caio nem que queira. No máximo ficaria entalado nas panturrilhas.

O prefixo do programa de música lírica da Eldorado era uma música melodiosa e suave que mais tarde descobri ser o segundo movimento da Sinfonia Clássica, de Prokofiev. Mais tarde ainda usei esse mesmo prefixo num programa de música erudita que apresentei na Rádio Educadora, de Taió, no final dos anos 70, por uns alguns meses. Aos domingos, ao meio-dia, eu apresentava ainda um programa de MPB.

Sim, eu fui radialista. Graças à visão de um idealista, Marcos Hosang, que lutou contra interesses políticos contrários e má vontade de outros durante 22 anos de sua vida para dotar Taió de uma rádio. Eu o auxiliei, cedendo meu escritório para redigir e elaborar documentos necessários ao processo de concessão, mediante o compromisso de que a rádio não se dedicasse, então, apenas a músicas sertanejas e a futilidades.

Nenhum dos meus programas era páreo para o “Fogo na Roupa”, um locutor caipira que escolhera esse nome artístico e que todas as manhãs apresentava um programa de música sertaneja. Nem para o Paulo Marques que à noite, com uma voz suave e lamentosa, apresentava um programa de músicas lânguidas e mais tristes do que o canto de uma sabiá doente, entremeadas de poemas que recitava.

O meu programa de música clássica não fez muito sucesso. Mas tenho certeza de que pelo menos duas velhinhas alemãs ouviam. Uma delas era a mãe do Marcos...




Crônica publicada originalmente no blog JUS SPERNIANDI,
em 31/03/2005.
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19/04/2008

Utilizando o Transporte Coletivo

Ontem tive uma experiência que só não posso qualificar de dignificante por um detalhe. Entrei num ônibus urbano, ainda que para um pequeno trajeto, coisa que há muito tempo não fazia. Aposentado não precisa sair muito de casa.

O coletivo, da linha Juca Batista, é ótimo. Certas comodidades fizeram esquecer meu semi-usado: ar condicionado, bancos confortáveis e, principalmente, o responsável pela direção era outro...

Defronte aos Supermercados Zaffari uma bela voz feminina confirmou pelo serviço de som: “agora você está passando defronte o Supermercado Zaffari da Cavalhada”.

De vez em quando a mesma voz esclarecia: “você está viajando na linha Juca Batista, sentido bairro-centro”. Que bom! Deu vontade de ir até o Centro. Assim fica difícil a gente se perder.

Apesar da sensação de você estar assistindo a um jogo de futebol em que o narrador narra aquilo que você está vendo e muitas vezes você vê mais do que ele (outras ele narra esquecendo que você está vendo e mente descaradamente), a voz da moça era muito mais bonita.

Ela não se esgoelava como o Luciano do Valle, por exemplo, a cada parada. Nem repetia “desce, desce, desce” como o Silvio Luiz que a cada vez que alguém faz um gol fica berrando “foi, foi, foi, foi eeeeeeeeele”...

Uma das conclusões dessa viagem, que não foi além de dois quilômetros, é a de que os locutores de futebol, sem exceção, são excessivamente chatos.

Havia poesia nos ônibus, uma mais ou menos assim: “Dia lindo, sol rachando, não sei se salto ou saio voando”.

Se você for assaltado o será num ambiente VIP, de alta categoria.

Estive fazendo exames médicos, esses dias, e posso afirmar que a higiene do ônibus que peguei era melhor do que a da sala de espera do hospital. Acho que, em caso de alguma catástrofe se abater sobre Porto Alegre esses ônibus podem ser usados como centros cirúrgicos sem problemas de assepsia. Apenas seriam necessárias algumas adaptações.

As pessoas ao meu lado eram pessoas humildes. Muitas – imaginei – não tinham carro nem nunca poderiam ter. Mas gozavam do mesmo conforto de outros que, como eu, têm carros mas preferem não usá-los no trânsito de Porto Alegre ou apenas esporadicamente o utilizam.

Finalmente – filosofei – alguma coisa pública reúne ricos e pobres, negros e brancos, crianças e adultos, homens e mulheres, em condições de igualdade, num sistema absolutamente socialista em que todos são iguais. Absolutamente iguais.

Mas não. Alguma coisa destoava na minha filosofada. Alguma coisa estava errada e não se tratava apenas de sintonia fina, mas de programação mesmo.

O ônibus é espaçoso, grande, bonito, confortável, com ar condicionado, bancos estofados, espaço para gordo circular sem maior problema, catraca larga, motorista engravatado...

Mas até aqui há alguma coisa que impede o florescimento integral do socialismo que inicialmente vislumbrei, com satisfação.

Infelizmente, só uns poucos, que entram primeiro, têm o privilégio de viajar sentados. A maioria ainda tem que ficar de pé, se espremendo, se empurrando, sofrendo e lutando por um espaço, comprometendo a coluna, porque a linha é mal servida...

Mas isto – devem pensar os administradores – é apenas um detalhe.




Publicado originalmente no blog JUS SPERNIANDI,
em
02/03/2005.
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17/04/2008

HOMENAGEM A MIM MESMO

Demorei um tempão para te conquistar. Foram tantas coisas que disse, foi tanto cortejo que quando tu vieste – talvez fosse melhor dizer caíste? – nem acreditei. Fiquei surpreso, embora não devesse. Senti-me leve e tive vontade de voar.

Mas seria ridículo. O que pensariam de mim os que me vissem borboleteando próximo ao rio Itajaí, numa pracinha que não existia ainda, só de contentamento? Sempre fui muito suscetível ao riso dos outros.

Depois, eu tivera, um pouco antes uma triste experiência, lembra? De certa forma, talvez meu Inconsciente estava prevendo que aquele dia seria o dia do “sim”.

Por isto antes, quando debaixo de chuva descíamos a escada do Artesanato eu tentei voar. Sim, eu tentei voar e o resultado foi desastroso: ao levantar uma perna para alçar vôo a outra escorregou, perdi o equilíbrio e desci quatorze degraus de bunda. Tuc, tuc, tuc, tuc, tuc, até embaixo.

Ainda bem que tu seguravas o guarda-chuva e não te molhaste. Eu estava de capa, uma daquelas de náilon que depois de um tempo esquentavam demais e fediam porque não deixavam a gente transpirar, embora tivessem uma providencial abertura nos sovacos. Graças a ela não pudeste ver que, na minha arremetida escada abaixo, molhei a bunda.

Então, quando tu deste o teu “sim”, pouco depois, já na frente daquela vitrine fechada, eu estava com a bunda molhada. Mas já te falei isto antes, acredito que, como é meu costume, muitas vezes, pois afinal se passaram 39 anos, cinco meses e vinte e nove dias ...

Depois cheguei a imaginar se aquela caída de bunda não te fez ficar condoída e influenciou positivamente no teu “sim”. Podes ter certeza, eu cairia mais umas duzentas vezes, se fosse preciso.

Depois foi surpresa atrás de surpresa. Como tu eras diferente das outras gurias com quem eu namoriscara. Tu eras – aliás, sempre foste – imune a fofocas, a futilidades, a conversas alheias. Por isto, na sala de aula, ninguém se aproximava muito de ti. Tu parecias uma muralha intransponível ou, pelo menos, difícil. Mas não. Tu tinhas carinhos guardados, risadas escondidas que se foram revelando e me envolvendo e até hoje sou inebriado por elas. E aquela irrepreensível malícia por detrás dos olhos pretos e sempre acesos.

E os outros, mais tarde, como te qualificaram com palavras bonitas. Minha avó dizia que eras santa, mas ela já estava meio caduca e isto não vale. Não sei se ela ironizava ou dizia a verdade nem ninguém nunca vai saber.

Uma colega, depois, disse que tu eras muito meiga. É verdade. Outra te qualificou de esposa-padrão... Mais recentemente alguém afirmou que tu és uma criatura doce, como as trufas da Cirônia. Tu, particularmente, nunca gostaste que te vissem assim. Eu sempre gostei, não muito desse esposa-padrão, aí, que pode significar muita coisa, inclusive e graças a Deus, o oposto do que és.

Claro, eu seria mentiroso se não dissesse que de vez em quando tu deste as tuas rabanadas, durante esse tempo todo. Mas foram daquelas rabanadas de Natal que sempre guardavam um quê de doçura. Pensando bem, algumas não foram tão doces assim!

Tu nunca foste convencida ou esnobe. Sempre foste os pés no chão da nossa relação e, depois, da família. Hoje não se comemora nenhuma efeméride na nossa vida. Por isto sei que não estás considerando estas palavras como dirigidas a ti. Até porque já pediste para não falar mais de ti aqui no blog, para que eu não pareça brega.

Então, essas palavras são para mim, apenas. Sou meio brega mesmo. E, afinal, quem caiu da escada e molhou a bunda só para te conquistar? Então mereço esta homenagem que me faço.

Porque, podes acreditar, guria: é muito bom ser eu!

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12/04/2008

Interpretando a Lei

Num dos últimos textos brinquei sobre a jurisprudência como repositório de julgados em que o advogado poderá buscar apoio em favor da tese que abraçar num processo, mesmo que em outro tivesse que usar de tese contrária, também respaldada na jurisprudência. Disse então que a interpretação gramatical da lei é a pior de todas

As multas aplicadas por pardais e caetanos muitas vezes pegam os condutores que apenas momentaneamente estão infringindo uma regra de trânsito, sem perigo nenhum à incolumidade pública.

Eu, por exemplo, sofri uma multa em julho de 2001 porque trafegava a 48 km por hora na frente de um colégio. Acontece que era sábado à tarde, no período de férias, não havia ninguém no colégio e eu ia sozinho por uma rua pouco movimentada... Mesmo assim, contra os princípios da lógica e do bom senso, o pardal estava funcionando para flagrar motoristas distraídos que hipoteticamente poderiam atropelar alunos de uma escola em férias num sábado à tarde.

Os pardais foram introduzidos em Porto Alegre pelo PT. Entende-se: a maioria de seus membros sofreu perseguições na época da Ditadura e não tem muita simpatia por militares. Por isto substituíram a polícia militar que atuava no trânsito por pardais, lombadas, estreitamento de pistas, rótulas mal feitas e outras armadilhas. Eu, por via das dúvidas, cada vez que passo por um pardal ou por uma lombada eletrônica bato uma reverente continência. Nunca se sabe.

Em Porto Alegre a administração popular criou também um exército de agentes municipais de trânsito, chamados de azuizinhos pela cor do uniforme que usam. São encarregados de, num acidente de trânsito sem vítima, fazer levantamentos técnicos e atrapalhar o tráfego no local. Já vi acidentes com 4 ou 5 azuizinhos borboleteando em volta dos veículos sinistrados como baratas tontas, nenhum se dignando a orientar o trânsito daqueles não envolvidos e cuja pretensão era simplesmente chegar em casa.

Mas no fundo, pardais e policiais militares (aqui eles são chamados de brigadianos) interpretam a lei mecanicamente, ou eletronicamente, de modo que não adianta discutir. Quando fui multado por aquele pardal logo percebi, parei o carro e tentei argumentar com ele, mas ele permaneceu impassível. Dono absoluto da verdade, olhando de cima prá baixo, fez de que conta que não me ouvia.

Fui embora quando começou a juntar gente e ouvi alguém dizer que ia chamar uma ambulância do Hospital São Pedro (o manicômio daqui). Acho que era para o pardal, mas não quis ficar para comprovar.

Os brigadianos faziam o mesmo. Há muito tempo, há muito tempo mesmo, quando ainda havia brigadianos nas ruas, num domingo, fomos almoçar no centro e estacionei o carro, sabiamente orientado por um flanelinha, num ponto de ônibus executivo. Esses microônibus não circulam nos finais de semana e o meu carro, ali, não atrapalharia nada nem ninguém.

Quando saí do restaurante um brigadiano estava aplicando uma multa. Expliquei a situação, mas ele apontava a placa que indicava a parada dos ônibus especiais e indagava:

– O senhor está vendo a placa aí? Aqui é um ponto-de-ônibus e é proibido estacionar.

Não adiantou argumentar. Apelei para o bom senso, para a ausência de prejuízo de minha atitude (estava até facilitando o acesso de outros veículos à praça), mas cada vez que eu terminava minha pregação ele apontava a placa e dizia:

– O senhor está vendo a placa aí? Aqui é um ponto-de-ônibus e é proibido estacionar.

Esta é a interpretação brigadiana. O bom senso, o lógico, o óbvio sucumbem diante de um símbolo pintado numa placa. É como você ser multado por ter estacionado defronte à própria garagem e tentar explicar isto ao guarda... O flanelinha foi mais sábio. Bem que o procurei para me auxiliar a convencer o guarda, mas ele, demonstrando toda sua sabedoria, tinha se afastado solertemente do local.

Não insisti com o guarda: uma discussão acadêmica seria inútil. Além disto, na sua bitolada visão, ele estava certo. Eu era o errado por acreditar na lógica e no bom senso.

Por isto todos devem ser complacentes com os juízes e não baixarem a lenha quando dizem que a água é vinho e que vinho é água. Eles também fazem milagres interpretativos.



Texto publicado originalmente no blog JUS SPERNIANDI,
em 14/03/2005,
sob o título A INTERPRETAÇÃO BRIGADIANA (OU GRAMATICAL) DA LEI.
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10/04/2008

Assim Virei Carnívoro

Eu converso com as flores. Aliás, já conversei. Pelo menos uma delas já conversou comigo. Nada demais. Jayme Caetano Braun dialogava com as estrelas e ele mesmo disse, assim:

“Quando as estrelas se acendem
Eu converso com as estrelas
Porque aprendi a compreendê-las
E elas também me compreendem”.

Então não tem nada demais eu conversar com flores, que estão bem próximas e têm vida própria, embora vegetais.

O meu diálogo ocorreu num dia em que eu estava desanimado, triste, e resolvi passear pelos caminhos secretos do jardim procurando algum duende.

De repente o jardim ficou grande demais ou me senti pequeno diante da beleza das flores, do verde e suas múltiplas tonalidades, da projeção do sol entre as folhas formando fachos de luz irisados que iluminavam cutículas de orvalho, pólen e partículas imponderáveis que se sustentavam em teias-de-aranha, evoluindo como formosas trapezistas e acrobatas dotadas de poderes especiais.

Parece que alguns se transferiram para mim.

Deitei num cantinho entre as folhagens, mas não gostei da experiência. A beleza visual contrastava com a realidade: mosquitos, mosquinhas, formigas, abelhas, marimbondos começaram a me atacar tentando me expulsar dali.

Jardins são lindos desde que você não deitar neles. São mais bonitos numa foto, numa pintura ou por detrás de uma janela. A não ser que você goste de se coçar.

Havia uma flor mais saliente e, instintivamente, sem sentido porque tenho muitos acessos de idiotice, perguntei-lhe:

– Putz! Por que vocês estão querendo me expulsar daqui se eu só vim deitar um pouco em busca de descanso?

Não é que ela me respondeu! Fiquei um tanto assustado e incrédulo mas não tive dúvidas. Aquela flor, cujo nome em nem sabia, falou comigo:

– Porque, além de gordo e pesado, você é muito maldoso.

– Como assim?

– Deitando aí você machuca a grama. Ou você acha que isto não dói? Deixe uma jamanta passar por cima de você para sentir como é.

– Sim, mas não faço isto por maldade. Apenas queria descansar. Eu não sabia que isto machucava as gramíneas.

– Então você é um ignorante. Só não mando você pastar porque seria ainda pior. Mas por que você acha que sou assim bela e a grama tão viçosa e verdinha? Porque temos vida, ora bolas. Você não sabe que temos vida, precisamos de ar e de água para viver e a única coisa que não podemos fazer é nos movimentar? Aliás, nunca vi você regando as flores, só sua esposa. Somos presas no chão pelas nossas raízes que permitem a circulação da seiva que nos alimenta e água faz bem, principalmente neste tempo de seca.

– Sim, não sou assim tão burro. Isto eu sei.

– Então porque você nos arranca e nos enfia num vaso, colocando um pouco de água apenas para estender nossa agonia? Nós morremos quando arrancadas do solo e entramos em coma quando colocadas num vaso... Daí nos transformamos vegetais em vida verdadeiramente vegetativa! E nós temos sentimentos também, mas você não respeita os nossos sentimentos.

Ela demonstrou algum dengo, mas se recompôs e continuou:

– Você está vendo a hortinha lá? Aqueles pés de alface mais bonitos estão em pânico, preocupados, porque sabem que logo vão ser arrancados, cortados com aquela enorme faca serrilhada da cozinha, lavados e comidos por você. O pior: alguns só servem de decoração e depois são jogados no lixo.

– Eu nunca tinha pensado nisto.

– É bom que pense. É bom que pense também que somos indefesas. Não temos como reagir. Somos simplesmente arrancadas de nosso habitat para encher o bucho de vocês. Os bois, de quem não gostamos nem um pouco porque vivem nos arrancando a dentadas como o Mike Tyson fez com a orelha do Hollyfield, por exemplo, têm chifres que podem usar como armas para se defender. Só que o boi é um bicho burro, não sabe a força que tem, e não se defende porque não quer. Nós não! Nós não nos defendemos porque não podemos.

– É verdade.

– O que adianta dizer que é verdade? Tem uns aí que reclamam que a carne não presta porque são aplicados muito hormônios nos frangos e no gado, mas o que dizer dos agrotóxicos que aplicam nas verduras e legumes e do estrume (eks!) que jogam como única opção para a gente se alimentar?

– ...

– Só porque não mugimos nem nos esganiçamos como um porco quando nos arrancam do solo não quer dizer que não sentimos que nos matam por puro interesse alimentar. Dizem que nossas fibras limpam os intestinos de vocês. Ora bolas! Vão plantar batatas e não se esqueçam de regá-las. Você acha agradável a gente servir de saponáceo para os intestinos de vocês? Vai limpar esgoto do lado de dentro todos os dias para ver o que que é bom.

Eu só ouvia, ruborizado, sem saber para onde olhar.

– Por isto não gostamos da raça humana em nossos domínios. Temos um contrato com insetos de todas as espécies e tamanhos para azucrinar vocês quando vêm aqui. Você tem sorte que estamos longe do rio, senão ia sofrer alguns dias com as picadas dos borrachudos. E aqueles mosquitinhos que ficam querendo entrar na sua boca, na sua orelha, zunindo ao seu redor, sabe onde vivem? Principalmente debaixo dos rabos dos cachorros abandonados e sujos e são nossos principais aliados. Ah! Ah! Ah! Quantos você já engoliu?

A conversa estava ficando chata de modos que me acordei, fui tomar um banho e descansar no meu recanto dentro de casa, fechado, com o ar condicionado ligado na frente de um computador e de uma tevê. Ah, que sensação de bem estar!

Já não lhe aconteceu de alguém lhe dizer certas verdades, nuas e cruas, e você não gostar, achar a pessoa pedante, mas depois, bem pensando e sem confessar a ela, concluir que estava certa? Assim ocorreu comigo. Achei que aquela flor, embora chatérrima, tinha suas razões. Por isto, nunca mais comi salada.

Foi assim que me tornei um carnívoro inveterado.


Publicada originalmente no blog JUS SPERNIANDI,
em 28/04/2005.
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05/04/2008

Martha Argerich e Nelson Freire


Hoje é dia de eleições e preparei um texto a respeito. Deixo para as próximas, daqui a dois anos. Nada vai mudar mesmo e ele vai estar atualizadíssimo.

Vou me ocupar de coisas superiores, transcendentais, que acontecem longe das misérias morais da humanidade, no mundo seleto da Arte bem interpretada. 

Porque o que vi e ouvi sexta à noite talvez não tenha satisfação de assistir nunca mais.

Martha Argerich e Nelson Freire, no Teatro do Sesi, numa exibição primorosa: todas as peças para dois pianos ou a quatro mãos. Eu supunha que eles se revezariam em algum solo, mas não. Até nos bis, que foram SEIS, a interpretação foi conjunta.

Soube que Freire nasceu no dia 18 de outubro de 1944. Meu filho, que estuda Música com especialização em piano na UFRGS, nasceu exatamente quarenta anos depois... Outra curiosidade: o primeiro recital que meu filho “assistiu” foi em 31/08/1984, ainda na barriga da Ieda, em Ibirubá, próximo a Espumoso. O pianista era Miguel Proença, que hoje é o competente Diretor Artístico do Teatro do Sesi e sem cujo empenho não teríamos oportunidade de ver o espetáculo de ontem. Espero que estas coincidências sejam de bom augúrio.

Mas voltando ao recital: eu vi dois moleques. Cada um tinha umas quatro ou cinco mãos e em cada mão uns trinta dedos. Os dedos dançavam nas teclas e os sons que brotavam eram precisamente límpidos e expressivos.

O moleque mais novo tinha cabelos brancos. Alguma incongruência na aparência tímida e calada, no modo de tocar mais comedido. Difícil crer que daquela timidez pudesse emergir tanta exuberância. Mas as mãos dele parecem ter vida própria e não são tímidas quando tocam nas teclas do piano. Ou há alguma transformação especial na hora de tocar, não sei.

A moleca era ainda mais nova que o mais novo. Altiva e de uma beleza exótica, diz um jornal de São Paulo que ela não revela a idade. Acho que nasceu no tempo de Bach, conheceu Mozart, foi contemporânea de Clara Schumann e de Liszt, passou por Rubinstein e Benedetti e outros ícones e sobrevive renascendo a cada dia que se encontra com um piano. Não tem idade.

Ambos pareciam encantados com os dois brinquedos grandes que tinham à sua frente e que dominavam com perfeição, mesmo sem os comandos elétricos ou eletrônicos que a maioria dos brinquedos de hoje têm. Tocavam como dois cúmplices amantes da Arte. Às vezes se olhavam e sorriam. Eles sabiam porque, a gente só desconfiava.

Parece que ensaiaram durante uns trezentos anos. Só numa coisa não houve sincronia, de jeito nenhum: no final de cada peça, ao fazerem a reverência de agradecimento ao público, um sempre se inclinava antes. Quando um estava voltando à postura normal o outro estava se inclinando. Nenhuma vez se acertaram. Mas precisava?

No final, após o primeiro bis, eles passaram a caminhar com cuidado para não pisar nas rosas que os espectadores jogaram no palco. Mas, mesmo que pisassem, as flores não sentiriam nem se machucariam.



Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 02/10/2004.
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29/03/2008

MUDANÇAS SOCIAIS EPILÉPTICAS

Quando penso em mudanças sociais, sempre me acomete alguma inquietação. Coisas da idade: nas revoluções, os que mais sofrem são os velhos, os doentes e as crianças.

Que as coisas mudem devagarzinho, tudo bem, a gente vai se adaptando. Mas do que vai adiantar virar o mundo de pernas pra cima se, depois, eu não vou ter tempo nem forças de me adaptar à nova realidade? Certos traumas são difíceis de ser vencidos e isto se aplica também ao social.

A História, que é feita de horrores, está aí para demonstrar: nazismo, pós-guerras, revoluções, cataclismos (outro dia escrevi, equivocadamente, cataclismas, o Aurélio corrigiu, mas eu me achei mais inteligente e mandei ignorar), tudo isso pode provocar uma necessidade de readaptação e nem todos poderiam consegui-la. As crises de epilepsia social podem ser graves e atingem especialmente aqueles que têm menos energia.

Revolução é para os jovens que depois podem colher o fruto de sua semeadura e têm uma capacidade superior de se adaptar a novos tempos e às próprias mudanças. O exemplo vivo do que estou dizendo é Fidel Castro que, jovem, fez uma revolução contra um déspota, venceu-a, instalou-se no poder e se adaptou perfeitamente à nova realidade, tanto que sua revolução permanece e ele se mantém no poder. E se transformou noutro déspota, com ideologia diversa, mas com idêntica tendência ditatorial, repressora e sangüinária.

Ele se tornou um velho e um dia vai sucumbir porque não descobriu a fonte da eterna juventude nem a imortalidade e em Cuba deve haver jovens revoltados também. Então vão mudar o que ele mudou e o mundo caminha assim porque assim sempre caminhou.

Teilhard de Chardin, filósofo cristão hoje praticamente esquecido, retratou bem a questão: “O progresso da Humanidade não é retilíneo. Ele se assemelha antes a uma rosca de parafuso, a uma espiral”. Estamos agora numa parte da espiral bem próxima à linha inferior anterior, tentando retroceder e pular etapas para trás. Nem que seja para tomar impulso para, depois, ir para frente.

Não penso em construir um mundo melhor nem em ser paladino de uma verdade para meus filhos e netos. Eles que destruam o mundo nosso com as mesmas guerras, a mesma desonestidade, a mesma cabotinice com que estamos destruindo o dos nossos pais e avós. A humanidade sempre foi e sempre será assim.

Não se busca a convivência ideal, mas a supremacia. Não há um período da história universal que possa servir de exemplo. Nem nunca haverá. Só existimos como seres humanos por teimosia.

Nos sonhos dos nossos pais e avós éramos a esperança de continuidade e a somos. Somos, por dentro, como eles eram. Talvez mais artificialmente sofisticados, mais inseguros, mais intranqüilos, mais requintadamente desonestos. Na verdade, mais desesperadamente visionários.

As nossas crenças são mais vazias, o nosso comportamento é menos autêntico e os nossos atos são mais artificiais. Virtuais seria o termo mais adequado.

Não cremos no que eles criam nem ele mais crêem em nós, como criam. Não somos o que queriam que fôssemos, nem somos: vamos. Mas nem sempre vamos por querer: é porque os fatos sociais nos levam de roldão que vamos, mais nada.

Destruímos o mundo que eles fizeram, anulamos a revolução deles, e construímos um mundo novo. Não necessariamente melhor nem pior nem igual. Novo, apenas. Para que os nossos filhos e netos tenham o que destruir mais tarde, (in)conseqüentes e (ir)responsáveis.

E eles serão como nós. Mais que nós, um pouco, talvez, tudo isto...



Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 15/03/2005.
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15/03/2008

FUI DONO DA NAÇÃO!

E NÃO SABIA...

Putzgrila (eu fui leitor do velho Pasquim, aquele bom), mais esta! Eu era dono da nação e não sabia. Soube só agora e a inexorabilidade de minha aposentadoria não permite tergiversações – como a questão envolve pronunciamentos de provecto jurista permito-me usar jargões próprios da classe. Soube pelo futuro candidato a presidente, digo, pelo atual presidente do STF, ministro Nelson Jobim, quando exortou os juízes a deixar de ser donos da Nação e a não usarem o cargo para o próprio deleite. Isto daria um trocadilho infame, mas a questão é seria e não vou me dar ao luxo de criá-lo.

É sério porque agora, aposentado, não sou mais dono de nada. Até um pedacinho de chão no estacionamento do Tribunal, que serve a terceiros, foi subtraído aos aposentados. Desembargador aposentado é res inter allios (traduzindo: coisa entre terceiros na relação entre as partes que, aqui, são o Tribunal de Justiça e os “velhinhos” na ativa. “Velhinhos” não é propriamente um termo jurídico, mas é assim que os juízes designam os desembargadores enquanto torcem para que algum deles se aposente ou morra para tomar seu lugar).

Estive lá, em janeiro, e como a maioria dos desembargadores gozava férias, havia dezenas boxes vagos. Mesmo assim estacionei no que supunha ser um dos locais a que estava acostumado a estacionar, destinado a terceiros. Ao voltar o guarda esclareceu que aquele era o box do desembargador Marco Antônio, que chegara em seguida e ficou irritado porque haviam tomado seu lugar. Esse desembargador é uma alma, mas daquelas parrudas e fortes, e atende sugestivamente pelo doce apelido de Marcão. Por acaso nos encontráramos no posto do Banco do Brasil. Puxei conversa e ele não demonstrou muita simpatia. Com o guarda é que entendi a razão. Por via das dúvidas, deixei um pedido de desculpas e fui direto para Santa Catarina. Ele sabe meu endereço em Porto Alegre.

Além de ter perdido a Nação e um local de estacionamento no Tribunal descobri que nem sou mais dono do meu nariz. À noite, quando ronco muito e a Ieda não pode dormir, ela admoesta em tom inquisidor:

– Será que não dá pra virar esse nariz para o outro lado?

Agora compreendo porque, quando discursei no 7 de Setembro, em Iraí, que narrei aqui, não me prenderam nem tomaram qualquer providência (e o discurso foi irradiado pela Rádio Marabá): era tempo da Ditadura, mas eu era o dono da Nação e podia dizer o que queria que ninguém iria tomar atitude alguma.

Já em Espumoso atravessava madrugadas debruçado nos processos – também contei aqui – num tempo em que a Ieda estava grávida e precisava de apoio. Trabalhava a ponto de um advogado me aconselhar a trabalhar menos, argumentando que “isso aí é um meio de vida e não um meio de morte”. O “isso aí” era a minha dominação da Nação e, além disso, o meu deleite. Um egoísta e magistr(atur)al deleite de ir acabando aos poucos com a saúde para terminar numa aposentadoria por problemas... cardíacos.

Acho que sou o único caso de juiz que um advogado exortou a trabalhar menos. O nome dele? Doutor Euclides Luís Marquese, de Espumoso, que na época representava a OAB na Comarca. Com isto sim, ministro Jobim, eu me deleitei, porque foi uma forma de reconhecer o meu trabalho. Ninguém precisa mais do trabalho de um juiz do que um advogado em prol de seu defendido – o senhor deve saber disto.

Hoje eu sinto que fui estrondosamente omisso. Tenho ganas de reverter a minha aposentadoria. Podia ter feito mais e não fiz. Sempre acreditei que o papel de um juiz fosse resolver os problemas que lhe são propostos no âmbito restrito de um processo. A conta-gotas. Uma sentença, numa ação, atinge só as partes e tem força de lei entre elas. Apenas entre elas e seus efeitos não se estendem à sociedade, como um todo.

Como isto é incompatível com quem exerce o poder dominial sobre a Nação eu devia ter sido mais corajoso. Em Irai mesmo, deveria contratar um Chalaça para testemunhar, ir às margens do Rio do Mel, sacado a espada da mão da Themis (a deusa símbolo da Justiça) e proclamado a independência do Judiciário: só poderia, a partir de então, ser ministro do Supremo um juiz de carreira – incluídos os advogados e promotores do quinto constitucional integrante de algum tribunal (afinal, não é bom brigar com todo mundo) – mas nunca alguém indicado politicamente pelo presidente da República, como o é atualmente, e há bastante tempo.

Perdi uma ótima oportunidade de prestar um grande serviço à Nação de que era dono sem saber.




Publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 10/02/2005.

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09/03/2008

BBB5: UM RETRATO DO BRASIL

Terça à noite estava amuado e fui para a cama cedo. Liguei a TV e estava no BBB5. Estranhei a presença do professor universitário Jean. Ele estava lá, firme, e conclui que, além da reviravolta estrondosa do primeiro paredão, contra aquela guriazinha soteropolitana, ele tinha enxotado também o humilde padeirinho de Palhoça, Santa Catarina.

Quer dizer: a discriminação que invocou no primeiro programa e que lhe valeu a reviravolta mexeu com a comunidade gay, que votou nele em peso, e acabou imperando a vontade da minoria que vota.

Porque, em sã consciência, o padeiro de Palhoça era mais simpático, autêntico, simples, pobre, sem a empáfia e o gosto de aparecer do professor. Tiraram alguém sem cacife e deixaram quem é mais esperto e oportunista. Não fora a interferência corporativa dos gays ele teria saído no primeiro programa. Não vi o seguinte e supus que ele não fosse páreo para o padeirinho de Palhoça. Mas foi.

Injusto? Honestamente, acho que sim. Eu votaria no padeiro. Nada contra o professor por ser gay. Já defendi, aqui, a união de homossexuais e não tenho nada contra. O problema dele é ser chato e caga-regras e se amparar em premissas falsas e cabotinas.

O que me desagrada, nos gays, é quando os do sexo masculino pretendem ser mais femininos do que as mulheres (o que não parece ser o caso). Não sei administrar impossibilidades. E um homossexual masculino querer ser mais mulher que uma mulher é de matar a pau! A Natureza deve preservar pelo menos um pouco de sua naturalidade.

Mas — pensei melhor —, tudo no Brasil se resolve assim. A começar, por exemplo, pela Câmara dos Deputados, em grande parte formada por agropecuaristas e/ou advogados. Podem analisar: a maioria das decisões atende aos anseios dessas classes.

Quando era juiz em Espumoso o escritório que elaborava a minha Declaração de Imposto de Renda era a mesma que confeccionava a de um dos mais ricos agropecuaristas da região, proprietário de uma imensa fazenda onde plantava soja e criava gado. Ele pagava de imposto de renda, por ano, aquilo que eu recolhia num mês...

Os agropecuaristas têm seus interesses bem defendidos no Congresso. Por isto não sai reforma agrária, os juros agrícolas são subsidiados e há desvios de empréstimos para construir mansões ao invés de serem aplicados na lavoura.

E a reforma do Judiciário? Não há juiz — nem, por disposição legal, poderá havê-lo — representando a classe no Congresso. Os advogados, que são maioria, estão justificadamente desgostosos com a morosidade da Justiça. É claro que não foi difícil criar o Conselho Externo, embora ele não vá resolver o problema da morosidade.

Quem poderia ter voz ativa na defesa da classe era um ex-deputado federal e advogado que nunca na vida foi Juiz e que foi alçado politicamente ao STF, do qual é presidente: o ministro Nelson Jobim. Mas ele já demonstrou que pretende voltar à política e então seus interesses não são de criar atritos com o Governo. O Judiciário é um poder que não pode modificar institucionalmente a sociedade.

Acompanhem a discussão sobre a Medida Provisória n.º 232, que elevou a cobrança de impostos dos pequenos prestadores de serviço (entre ele advogados) e criou a alíquota de 1,5% a 2,5% sobre a venda de produtos agrícolas (onerando pecuaristas).

Os congressistas se dizem contra para transmitir a impressão de que não será aprovada porque toda a população será prejudicada (o que não deixa de ser verdade). Mas a não aprovação não vai ser por isto. Há exemplos recentes que demonstram que o povo e a cidadania são a última preocupação dos abnegados membros do Congresso: a primeira é agradar o presidente Lula nos conchavos em troca de cargos no Governo.

Na verdade, estão apenas defendendo seus interesses. Em direito se diz: atuando em causa própria.

Enquanto isto continuarão a existir os que pagam imposto demais, como os assalariados que os têm descontado na fonte, e os que pagam de menos, como grandes agropecuaristas, profissionais liberais, etc...

O Brasil é um imenso Big Brother. Os excluídos são sempre parecidos com o jovem padeiro de Palhoça.


Crônica publicada originalmente no blog Jus Sperniandi,
em 04/02/2005.
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02/03/2008

VÍDEO CACETADAS

Critico tanto os programas de televisão que devem achar que tenho no máximo um aparelho. O pior é que tenho sete... E somos apenas três pessoas(*) em casa... Bem feito!

Nós, brasileiros, não rejeitamos nada, de novelas a comerciais, de enlatados a domingões fastidiosos ou sabadões apelativos.

Há incongruências surpreendentes na crítica especializada, que de especializada não tem nada: é tão ou mais amadora que nossas produções. Por exemplo: os nossos artistas são excelentes. Nossas novelas, idem. Quando há crítica são meramente abonatórias.

Há algum tempo alguém se referiu a Marlon Brando, em seu papel em Apocalipse Now, como uma “figura paquidérmica”.

Nunca vi alguém pegar no pé (ou na barriga) de artista brasileiro por motivo semelhante, com esse tipo de crítica infame e personalíssima, afastada do valor artístico e da qualidade interpretativa do ator. O talento de Marlon Brando sempre independeu de sua obesidade. Os nossos elefantes brancos seguem galantemente intocáveis.

Filmes estrangeiros são criticados e ridicularizados mesmo quando assistíveis. Os nossos são louvados mesmo sendo de terceira categoria. Há dois tipos de critério: um, generoso, para o produto nacional, e outro, bem mais rigoroso, para o estrangeiro. Tanto para os filmes como para os artistas. Têm alguma dúvida? Peguem qualquer jornal de hoje e constatem com seus próprios olhos.

As novelas caricaturizam a maioria dos personagens. Se espelharem aquilo que realmente somos então somos todos idiotas mesmo: da cama à mesa, que são os locais onde a maioria dos problemas é discutido e, obviamente, resolvido. Se na vida real alguém mantivesse com algum interlocutor qualquer dos diálogos elaborados em nossas novelas – quer na entonação, quer no conteúdo – será considerado um exemplo acabado de imbecilidade. Nas novelas, são normais, espertos, aceitos e, às vezes, até louvados.

Houve uma novela de época que narrava a vida da família real portuguesa no Brasil. Os gemidos e manifestações orais das personagens femininas eram tão afetados que, quem só ouvia, imaginava tratar-se de um filme pornográfico [aliás, não sei se repararam, mas isto ocorre também em desenhos, principalmente quando há bruxas e fadas (eu disse fadas) como personagens].

Programas esportivos não vejo, só ouço, com o notebook no colo. Os locutores berram nos lances mais perigosos e então desvio os olhos para a tevê. Os gols são repetidos. Idem com as corridas de Fórmula-1. As transmissões são enfadonhas e o Galvão Bueno torce até nos replays.

Os repórteres só fazem perguntas do tipo “Como é que você se sente...” ou “Foi uma emoção muito grande...(?)” quando não partem já de uma conclusão própria para elaborar uma indagação apenas visando uma confirmação de sua sabedoria, num dirigismo inquiritório que às vezes dói de tanto que sobressai. Nas desgraças e fiascos da vida pessoal a câmera fica estática e o microfone grudado na cara de algum entrevistado aguardando lágrimas. Se não houvesse edição ficaríamos alguns minutos esperando.

Eu pretendia fazer um post sobre o BBB5, mas não vale à pena. Seria obrigado a assisti-lo mais vezes e isto é demais para mim. O que vi na terça-feira já me deixou desconcertado. Há quem discuta a “virada” do professor gay contra a guriazinha eliminada, que seria matematicamente impossível. Veja
aqui.

Fiquei desconcertado por isto: o carinha é eliminado, perde a chance de concorrer a um milhão de reais e sai da casa com a obrigação de ser feliz. É recebido com festa pelos familiares e pela produção. Os que permanecem fingem uma desconstrangida tristeza. Se eu tivesse uma chance em dez de ganhar essa grana e fosse eliminado ficaria puteando todo mundo, bateria porta na cara deles, chutaria os lixeiros que encontrasse, mandaria o Bial prá pqp e repudiaria os familiares que comemorassem minha saída. Deserdaria os filhos, se estivessem lá!

Triste a vida de telespectadores cuja sensibilidade é agredida por esse tipo de mídia e, o que é pior, que não têm como escapar de sua invasão domiciliar através da “janela do mundo”. Somos obrigados a engolir certas babaquices que apenas reafirmam, cada vez com mais vigor, que o melhor invento do mundo, em termos de comunicação de massas, não foi a televisão, mas sim o controle remoto.

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(*) Hoje somos apenas a Ieda e eu, pois o Francisco, que aqui morava na época, está na Alemanha.




Publicada originalmente no Jus Sperniandi,
em 21/01/2005.
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